Sábado, 18 de Setembro de 2010

A VIAGEM estava monótona e ele desesperado por parar e ver coisas novas.

 

O destino era a flor de pedra e de luz (1) e ainda não tínhamos avistado as ondas de barro (2), que se sucedem sem naufrágios e sem abismos. Iríamos talvez ao km 50,000 da A13. Como remédio para aquele desconsolo pusemos o CD do José Cid.

 

A dado km o rapaz já não estava ali. Tinha acabado a impaciência.

Que música era aquela que o tinha hipnotizado? Que história era aquela que o tinha afastado da nossa companhia? Por que motivo estava tão inebriado?

 

Nem mais nem menos do que a canção: "Ontem, hoje e amanhã”.

 

 

                   Ontem eras a menina mais alegre e

mais bonita que eu já conheci.
Laçarote no cabelo e um fato à
marujo feito de cetim.
Fazias-me as contas de multiplicar
e no fim das contas,
íamos brincar às casinhas, aos cowboys,
aos polícias e ladrões,
já eu te amava sem saber.

Ontem, hoje e amanhã.

Hoje dormes a meu lado mas eu
fico acordado vendo-te a dormir.
Chego tarde e cansado do trabalho da
cidade esperas-me a sorrir.
E vejo-te abraçar a mim com tal calor,
fazes-me esquecer o dia que passou.
Numa tarde de aluguer,
lado a lado para viver.

Ontem, hoje e amanhã.
Ontem, hoje e amanhã.
Ontem, hoje e amanhã.
Ontem, hoje e amanhã.

Amanhã no fim da vida, hás-de ser a
minha querida, o meu grande amor,
partiremos de avião pró Egipto,
pró Japão ou pró Equador.
Temos pouco tempo para recordar.
Sabes, nunca é tarde para começar.

Ontem, hoje e amanhã, reviver um grande amor.

Ontem, hoje e amanhã.
Ontem, hoje e amanhã.
Ontem, hoje e amanhã.
Ontem, hoje e amanhã. Amanhã.

 

Aquele "amor perfeito” já me havia agarrado quando tinha a idade dele. Agora a cena repetia-se e eu era um espectador experimentado.

Lembrei-me então das aulas de filosofia do 12.º ano no Alexandre Herculano (1984/85). O que ouvi, li, reli e escrevi durante meses aplicava-se agora na perfeição ao momento. Afinal, Immanuel Kant tinha razão com a sua teoria do idealismo transcendental: todos nós trazemos formas e conceitos à priori (aqueles que não vêm da experiência) para a experiência concreta do mundo, os quais seriam de outra forma impossíveis de determinar.

 

Immanuel Kant 1724 - 1804

 

PELOS vistos, o rapaz estava e está dotado do conceito à priori do "amor perfeito”, que o pai também possuía e possui, que outros rapazes também possuem, que milhões de rapazes possuem.

 

Depois do almoço, refeitos da viagem, enquanto passeávamos em torno do templo de Diana, éramos o passado e o presente de um conceito à priori universal que outros, no futuro, haverão de ser portadores até que se apague a memória do ser humano.

Talvez um dia a história far-se-á, não dos objectos e factos que constituem a concretização de conceitos à priori, mas dos próprios conceitos.

 

 

1) Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 88.

2) Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 85


Índice:

publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:54
Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

Onde um ferreiro fez renda.

Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 88



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:51
Quinta-feira, 09 de Setembro de 2010

 


Foi uma desgraça cá em casa!


Ele estava, como de costume, no meio da sala de rabo para o ar, a folhear de trás para a frente e da frente para trás a caderneta. Colava cromos, recontava cromos, conferia cromos. Faltava muito pouco para o "soltem a parede”. De repente começa aos gritos lancinantes. O leite que a mãe lhe tinha dado para beber tinha caído sobre a caderneta. O desespero apoderou-se do seu olhar. E continuou a berrar, a berrar aflito. Fomos auxiliar a vítima.

 

A avó, alertada pelo insólito, também veio em socorro do seu menino, e muito perturbada diz:

- Compra-se uma caderneta nova e se for preciso uma caixa de cromos.


Entretanto, pai e mãe põem-se de secador em punho a tentar salvar o que resta daquele incidente. Ele vai e vem. Entra e sai da cozinha sempre na esperança de que a coisa se resolva da melhor maneira. Não há "soltem a parede” que consiga atenuar aquele sofrimento. No rescaldo, perdeu-se uma ou outra selecção sem importância, mas a Argentina, completada dias antes, estava incólume. O Ronaldo ficou um bocado estragado, o que era ultrapassável pois havia muitos repetidos. Na hora de deitar, o seu olhar era de uma profunda tristeza. Só nessa altura caímos em nós. O desgosto tinha deformado o espelho da nossa felicidade. A mãe adormeceu-o com falinhas mansas e sempre, sempre a desvalorizar aquela perda.

 

De manhã, quando voltamos a ver-nos ao espelho, uma dor cruel fez calar a nossa esperança. Continuava muito infeliz e de olhar distante.


Durante o dia a situação foi-se compondo. À hora do almoço já tinha uma caderneta nova, que se transfigurara noutra caderneta por artes de "corte e cola” das mulheres da casa. Ao fim da tarde telefonou, todo entusiasmado, a contar que o jogo estava a começar. À noite ainda teve direito a uns cromos repetidos de um menino com quem me cruzei. Desta vez não houve leite na sala e antes de terminar "soltem a parede” já dormia inundado pelas emoções fortes do dia.

 

12 de Junho de 2010


Publicado in Histórias mal contadas



publicado por Paulo Moreira Lopes às 22:08
Quarta-feira, 01 de Setembro de 2010

Sol engarrafado

Miguel Torga, in Portugal, 7.ª, página 26

 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:08
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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