Quinta-feira, 07 de Julho de 2011

 

Lisboa, 25 de Novembro de 2009

 

Meu caro A. M. Pires Cabral, vinha avisá-lo que face à inexistência de activo e passivo por parte da editora Nova Nórdica, a Conservatória do Registo Comercial de Lisboa declarou simultaneamente a sua dissolução e o encerramento da liquidação no dia 24 de Novembro de 2009. Como poderá comprovar, o atestado de óbito, com a devida comparação, foi emitido por uma autoridade competente. Dito de um modo simplista: a Nova já era.[1]


Assim, deixa V. Ex.a de ter qualquer motivo para persistir em manter nas notas à edição de “O Diabo veio ao enterro[2] referências pouco elogiosas à breve vida civil e económica da sua antiga editora. Portanto, pare de fustigar uma entidade, no caso colectiva, que cá não está para se poder defender.


Tanto mais que V. Ex.a não informou aquela Conservatória sobre eventuais créditos ou direitos que detinha sobre a sociedade, bem como se tinha conhecimento de bens e direitos de que aquela fosse titular.[3]


Sem prejuízo do acima exposto, e em abono da verdade, não posso deixar de fazer algumas confissões.


Tem razão quando afirma que Lisboa não chegou a dar conta da saída de “O Diabo veio ao enterro”, naquele ano de 1985. Efectivamente, naquela altura, a editora era composta por três doutores, os quais, a meu mando, analisavam os manuscritos e propunham a sua publicação. Foi debaixo de uma grande discussão literária que se tomou a decisão final de dar à estampa a sua obra. Foi muito custoso para todos os membros da empresa.


Eu explico porquê.


Os citados três doutores tinham acabado de chegar da faculdade de letras de Lisboa, muito habituados à linguagem conceptual e hermética do curso.


Evitando eufemismos, eram uns puristas cheios de pruridos e moralismos. Por isso, o discurso popular que perpassava no seu livro, recheado de elementos de etnoficção transmontana e condimentado aqui e ali com alguns palavrões, foi para eles um choque. Um escândalo! Todos eles se recusaram a dar letra de forma a semelhante rol de nomes feios, mas eu, como sócio-gerente, insisti. Aliás, decidi.


Devo, no entanto, reconhecer que aqueles doutores tinham alguma razão. É que o obstáculo não era só a linguagem, mas a frontalidade, rudeza e brejeirice com que as contas eram descritas. Creio que as histórias podiam ser ditas de outro modo, mais consentâneo com o pudor e a educação da maioria das pessoas. Não havia necessidade. De facto, em muitas situações estávamos ao nível do calão. E, calão por calão, é preferível o oral. Entra por um lado e sai por outro. Enquanto se for escrito: verba volant, scripta manent. Pergunto: alguém que esteja habituado a uma linguagem cuidada e expurgada de asneiras é capaz de passar o dia a trabalhar sobre um texto carregado delas? Os três doutores não se sentiram habilitados a tamanha empreitada.


Olhe, a edição coube então ao pessoal administrativo lá da casa. Mal ou bem a coisa tinha de ser feita, mesmo contra a vontade do parecer dos entendidos editoriais.


Não estranhe por isso que os trabalhos de edição tenham sido tão atribulados.


Tem também razão quando afirma que aqui em Lisboa torcemos o nariz ao livro. É verdade! Os meus funcionários quando se referiam à sua obra apertavam sempre a ponta do nariz. V. Ex.a lá saberá porquê.


Garanto, por fim, que os dois terços da tiragem não ficaram a apodrecer no armazém. Muito provavelmente devem ter sido usados… V Ex.a entende.


Nestas andanças nós, às vezes, temos necessidades. Mais não digo. É que, por este andar, corro o risco de poder sujar o lustre dos meus sapatos. Enfim, V. Ex.a, melhor do que eu, saberá como.

 

Com os meus sinceros cumprimentos e votos dos melhores êxitos editoriais,

 

Lutgardo Guimarães de Caires[4]



[1] A Editora Nova Nórdica, L.da, com o NIF 501611649, sita na Rua Ruben A. Leitão, 4-A 3º-Esqº, 1200-392 Lisboa, GPS: 38.714193,-9.149681, e Telefone: 213 471 672 foi dissolvida no dia 24-11-2009 conforme anúncio em http://publicacoes.mj.pt/Pesquisa.aspx

[2] Cfr: Nota à 2.ª Edição na página 7 de “O Diabo veio ao enterro”, de A. M. Pires Cabral, publicado por Âncora Editora, 3.ª edição, Maio de 2010.

[3] Anúncio também publicado in http://publicacoes.mj.pt/Pesquisa.aspx com data de 09-07-2009.

[4] Versão masculina da poetisa por quem se apaixonou, literariamente falando, claro, o tio Florindo. A não perder a história do tio por afinidade, julgo que literária, de A. M. Pires Cabral in “O Porco de Erimanto”, das Edições Cotovia, Abril de 2010, a páginas 244 e seguintes.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 22:02
Quinta-feira, 07 de Julho de 2011

Terra onde a História não quis morrer.

Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 72



publicado por Paulo Moreira Lopes às 22:01
Quinta-feira, 07 de Julho de 2011

Flor de pedra e de luz.

Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 88





publicado por Paulo Moreira Lopes às 21:59
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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