Sábado, 21 de Janeiro de 2012

 

 

São histórias tristes, onde abunda a morte, natural ou provocada. O destino é certo e está escrito, ou melhor, pode ler-se nos vários sinais que se revelam subtilmente às personagens que, umas vezes, o vão ignorando, outras se esforçam por o esquecer ou então o antecipam.

 

São relatos de vidas sem palavras difíceis, esquisitas ou eruditas. As frases são curtas ou adequadamente extensas para não se olvidar o princípio. Não são complexas, nem contêm à partes ou derivações. Os comentários, juízos morais, sermões ou ditames, tão usados e abusados por outros, aqui contam-se pelos dedos de uma mão, no máximo, das duas. De repente, lembro-me: “Mas a vida era mesmo assim. (fazer a lida da casa, dar conta dos dois filhos, da burra e do porco)” (cfr: página 53); “A caça também era isso (comer, conversar, rir e beber) (cfr: página 55); “Fez o que habitualmente os homens fazem, fugiu.” (cfr: página 89) e “Como se um homem para se matar precisasse de razões.” (cfr: página 99).

 

Da leitura deduz-se que o escritor é calmo, sereno e paciente. Os textos não foram forçados. Explicando melhor: não foram formulados, reformulados e assim sucessivamente, com troca incessante de palavras (verbos e adjetivos). É que uma reflexão mais profunda sobre o discurso iria torná-lo artificial e postiço, estranho ao falar das gentes do monte e da vila.

 

Por fim, falemos, é como quem diz, abordemos a lida da casa. Sim, o modo como se arrumam os utensílios no interior da habitação, como se confeccionam as refeições e se cuida dos animais. Ora, neste breviário das almas, nos entretantos e ao ritmo da planície[1], também há lugar para relatar aquelas tarefas que despertam a vida no quotidiano, sob pena de se adormecer à espera da morte (cfr: página 50 e 100).

 

Um livro para reler e reler[2].

 

Vila Nova de Gaia, 20 de janeiro de 2011



[1] Não creio que estes textos pudessem ter sido escritos por um homem da montanha, habituado a distrair o olhar nas colinas e nos vales.

[2] João Aguiar (1943-2010) fala de um prazer quase gastronómico da leitura (cfr: Prefácio, página 13).

 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 10:31
Sábado, 21 de Janeiro de 2012

É um albergue de frescura e de beleza na torreira dum caminho.

Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 86



publicado por Paulo Moreira Lopes às 10:15
Sábado, 21 de Janeiro de 2012

Nostálgico.

Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 56



publicado por Paulo Moreira Lopes às 10:14
Sábado, 14 de Janeiro de 2012

  

  José Saramago (1922-2010)

 

Li em 2002/2003 o conto "Super flumina Babylonis de Jorge de Sena (Ficções, n.º 5, 2002, pág. 71 a 87). Li de um só fôlego. Foi uma leitura estonteante, inebriante, arrebatadora. Parecia que o texto tinha sido escrito de uma só vez, sem interrupções.[1]

 

Cheguei ao fim e tive a nítida sensação de déjà vu. Pensei melhor e reconheci aquele estilo, aquele ritmo, aquela sucessão de imagens no "Memorial do Convento” de José Saramago.

 

Fiz uma pequena investigação e descobri que José Saramago admirava muito a obra de Jorge de Sena, existindo, até, correspondência a comprovar esse facto.

 

Aquele conto é de 1964 (Araraquara, 27 de Março de 1964) e terá sido publicado, no máximo, em 1978, in Antigas e Novas Andanças do Demónio.

 

Por isso, hoje, ainda acredito que o estilo de José Saramago tenha sido influenciado pela obra de Jorge de Sena.

 

 
 Jorge de Sena (1919-1978)


[1] Muito tempo depois de escrever estas notas (21-06-2010) descobri, por mero acaso, este texto de Mécia Sena: “Leio num diário teu: Escrevi, até às 4 da manhã, um conto: ‘Super Flumina…’ que não esperava.” Ficaras “escrevendo pela noite adiante”, tal como o terminas. Que aconteceu depois quando te deitaste? Adormeceste com o livro aberto sobre o peito e eu to fechei, tirei-te os óculos e antes de apagar a luz te ouvi um “obrigado” pouco mais que ciciado? Ou não adormeceste e nos possuímos como se tivéssemos acabado de sofrer todas as dores do mundo? Ou apenas ajustámos os nossos corpos em ansiosa ternura, numa oferta de repouso mútuo?” in Correspondência(S) MÉCIA / JORGE DE SENA (EVOCAÇÃO DE CARRAZEDA, anos 1940), GUIMARÃES, Universidade do Minho – Instituto de Ciências Sociais, Núcleo de Estudos de População e Sociedade (NEPS), 2007, de Maria Otília Pereira Lage, página 112. Confirma-se, assim, a escrita "sem interrupções".



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:30
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

O meio manteve-o vertical e sozinho, para que pudesse ver com nitidez o tamanho da sua sombra no chão.

Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 87



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:24
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

É o fôlego, a extensão do alento.

Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 85



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:20
Domingo, 01 de Janeiro de 2012

 

OS CONTOS: Li-os todos. No início de cada conto começava sempre com a esperança de que algo de surpreendente acontecesse. Esperava o relato de uma história excecional, bem construída e com um final inesperado e inteligente. Mas não. São narrativas muito misteriosas e cheias de segundas e terceiras intenções (algumas repugnantes[1]). Para cúmulo não há um momento conclusivo no sentido próprio do termo.

 

Parece que não aprendi nada e que não compensou o tempo despendido.

 

O LIVRO: Muito bonito. A ilustração da capa é excelente. O tamanho perfeito. Um bom motivo (se calhar o único?) para adquiri-lo.

 

 

 

O AUTOR: Bastaria atentar na fotografia do autor para se antever algo de sinistro e tenebroso. Os lábios cerrados, ainda assim, deixam escapar um fiozinho de sarcasmo, o bastante para nos acordar para a dura realidade dos dias (um susto?). Um rosto onde habita a infelicidade, parente próxima da maldade.

 

Paulo Moreira Lopes

 

Vila Nova de Gaia, 1 de Janeiro de 2012

 

---*---

 

VENTOS DO NORTE: Conheço mal a literatura nórdica – confesso que nem a trilogia Millenium li, não só por falta de tempo, mas porque, como não sou grande apreciadora de policiais e thrillers, mesmo quando me dizem que são excelentes, acabo por preferir uma ficção mais literária. Em todo o caso, penso que Portugal está mal fornecido de literatura nórdica, provavelmente pela dificuldade em arranjar tradutores, mas recentemente apareceram alguns livros interessantes. Um deles é, seguramente, a colectânea de contos do norueguês Kjell Askildsen – mestre da narrativa breve, segundo anuncia a badana – intitulada Uma Vasta e Deserta Paisagem. Enquanto a lia, não pude deixar de pensar naquele misto de contenção e contundência que perpassa os diálogos de Bergman e, mesmo que a Noruega e a Suécia sejam países muito diferentes, a verdade é que reconheci nestes contos uma espécie de alma do Norte – simultaneamente seca e desarmante – que conhecia dos filmes do realizador sueco. Este é um livro de histórias de gente só, de relações condenadas ao fracasso, de pequenas tragédias pessoais contadas com humor negro q.b. e uma simplicidade e subtileza invejáveis. O livro recebeu o Prémio da Crítica na Noruega.

 

Maria do Rosário Pedreira

 

http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/, 2 de Janeiro de 2012

 



[1]Agora compreendo a atitude do pai do autor quando queimou em público uma obra do filho.

 

 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 12:09
Domingo, 01 de Janeiro de 2012

Ondas de barro, que se sucedem sem naufrágios e sem abismos.

Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 85



publicado por Paulo Moreira Lopes às 11:47
Domingo, 01 de Janeiro de 2012

Descampado dum sonho infinito e a realidade dum solo exausto.

Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 85



publicado por Paulo Moreira Lopes às 11:45
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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