Domingo, 04 de Março de 2012

 

 

Não sei se o problema é meu, mas o caso é que eu li, por diversas vezes, as três histórias de Francisco Duarte Mangas e não fiquei (o termo mais apropriado talvez fosse guardei) com uma ideia precisa daquelas.

 

Explicando melhor. Agora, longe do livro, fecho os olhos (para ajudar a concentração) e tento relembrar o que li e vêm-me à memória imagens fragmentadas, sem ligação entre si. Por estranho que pareça, não consigo visualizar uma sequência de atos (ações humanas) com sentido.

 

Se calhar, o motivo talvez resida nos atalhos da narrativa. Ou seja, iniciada a caminhada (leitura) logo surgiam comentários ou apreciações que me desviavam do trajeto. Concluídas aquelas, ao retomar a estrada principal, já me tinha esquecido do que havia visto anteriormente. E assim sucessivamente.

 

Por outro lado, o texto está enxameado (um termo do agrado do autor, por certo) de palavras com sentido conotativo. É que são tantas as interpretações com que me confronto (parece uma guerra), que depois de escolhida uma delas, somando o tempo perdido, as irritações de não poder seguir o caminho a direito, acabo por perder o entusiasmo de seguir em frente[1].

 

Tenho para mim que a prosa de A casa dos caçadores, afinal, é poesia ao comprido. Aqui não posso deixar que o leitor, em especial o Francisco, se percam nas várias interpretações que comprido possa albergar (a palavra pode muito bem ser uma casa). É minha intenção aplicar o termo comprido em sentido denotativo, ou seja, significando longo, extenso, e não no sentido conotativo (dizer ou fazer algo inconveniente ou disparatado, não ser bem-sucedido).

 

Por isso, desisti de ler Primeiras chuvas, A casa dos caçadores e A mesa como quem espera saber ou saborear novas histórias. O texto passou a valer pelas frases e parágrafos individualmente (voltamos aos fragmentos) sem necessidade ou preocupação de os juntar. Consegui, assim, transformar uma frustração numa paixão (é um termo exagerado, mas rima com frustração).

 

Diz-se dos gulosos que comem com os olhos, ora eu escolho os livros muito pela aparência e também pelo tato. No caso concreto (ia escrever sub judice, deformação profissional?) vi-o no escaparate da Livraria Utopia e, de imediato, peguei nele, acariciei-o com as duas mãos (tem o tamanho da minha mão, até à prega interfalangeana do dedo médio), abri-o e não resiste a comprá-lo. Uma pequena maravilha[2], com um grafismo simples, limpo, que não estorva a palavra impressa em fonte Bodoni.

 

Frases que não esqueci:

- No rosto, aparentemente jovem, esquiam duas lágrimas velozes [Cessa aqui o ofício do narrador, que agora me parece infeliz nas imagens, desapiedado][3] (página 13).

- Beber muito cansa a alma (página 14).

- Estendo um cigarro à tristeza do moço (página 14).

- A fúria estorva a palavra (página 28).

 



[1]Foi o que se passou com a leitura de A rapariga dos lábios azuis.

[2]À semelhança do que disse sobre os dez andamentos” de João Pedro Mésseder, Edições Plenilúnio, Porto, Natal de 1999, também não o dou, não o troco, não o vendo e só o empresto à vista. 

[3]Sãos os parêntesis retos mais oportunos que já li. Como diria Pacheco Pereira, trata-se de pura dinamite cerebral.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 00:02
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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