Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

 

 

Depois de ler os contos Os Amantes e outros contos comprei, e já li, Gaivotas em terra de David Mourão-Ferreira. Andei da frente para trás em termos bibliográficos. A primeira obra foi publicada por fases, Os Amantes em 1968 e Outros contos em 1974, e a segunda em 1959. Como o autor foi fazendo ligeiras correções em ambos os textos e durante o mesmo período de tempo, não se nota grandes diferenças no estilo.

 

O livro contém quatro novelas e todas elas sobre mulheres.

 

*

 

Na primeira, Tal e qual o que era, enquanto decorre o velório de Maria Antónia, relata-se parte da vida da defunta através da perspetiva de um homem humilhado por aquela. Um diálogo em que um dos personagens faz perguntas ao narrador participante, as quais se vão deduzindo de acordo com as respostas dadas. São, afinal de contas, lembranças de um ressentido.

 

*

 

Em Aos costumes disse nada aborda-se as peripécias de um miliciano (narrador participante de nome Henrique) e de Maria da Luz que, inicialmente, se chamava Lucília. De frustração em frustração o miliciano persiste até conseguir o tão desejado encontro amoroso com a…Maria da Luz. Nesta história existe um final surpreendente que nos obriga a rebobinar os acontecimentos anteriores à cata de indícios justificativos daquele. É o tipo de conto, neste caso novela, de que mais gosto, com uma lógica oculta que se desvenda com a conclusão da leitura.

 

A ironia vai guiando o narrador em todo o enredo, tanto mais que “a «imaginação» desempenhava grande papel em tudo aquilo[1].

 

A passagem que melhor ilustra o tom jocoso da narrativa passa-se a folhas 99 (a referência ao número das folhas é deformação profissional):

 

“- Você sabe que eu meti uma lança em África?...

Atravessávamos, nessa altura, o parque dos canhões de acompanhamento. E eu estava com sono; e, no meio daquele ambiente bélico, e como ele tinha estado em África, cheguei a pensar que a «lança» não fosse metafórica. Mas era.” (ainda agora, após ter transcrito o texto, não consigo evitar um sorriso)

 

Uma das imagens mais nítidas da história surge na página 104:

 

E avancei para ela, com os braços estendidos ao longo do corpo, as palmas das mãos abertas para fora, o queixo erguido: - Vamos lá a saber: como é que tu te chamas?”

 

Quem, além de David Mourão-Ferreira, conseguiria descrever uma cena destas de modo tão sugestivo, mas tão simples?

 

Um pouco depois do meio da novela aparece a cólica do tenente Sanches, o que me remeteu, ao de leve, para umas imagens do filme Sem sombra de pecado, que nunca mais esqueci. Com o desenrolar da história, mais propriamente o despe/deita/veste da Maria da Luz e do Henrique, fez-se luz e vi, de modo claro e límpido, que aqueloutro era a adaptação ao cinema do texto que lia.

 

De seguida, fui ao baú das minhas memórias cinematográficas e revi a cena em que a atriz Victória Abril (no papel de Maria da Luz) assomava ao alto dos degraus da pastelaria. Talvez uma das sequências mais bonitas do cinema português, apesar do narrador afirmar que a personagem era, de facto, feia[2] (subtilezas de José Fonseca e Costa?).

 

A novela melhor conseguida de David Mourão-Ferreira, como o comprova a adaptação para o cinema.

 

 


[Victória Abril in Sem Sombra de Pecado (1982)]


 

*

 

A terceira novela, Casal Venha Lisboa, gira em torno de outra mulher, de nome Dalila, desesperada com as dificuldades económicas que ela e o companheiro não conseguem resolver. Trata-se de uma personagem que vive de esquemas, uma fingida que se aproveita, com sucesso, da ingenuidade de Sertório. É uma história sobre o poder de sedução ou da capacidade de sobrevivências de certas mulheres, como se queira. Para melhor compreensão do género, basta atentar num dos episódios, de entre outros, que o autor magistralmente descreve:

 

E ela, muito dócil, deixa-se conduzir: olhos fechados, passinhos curtos, grandes suspiros… Senta-se, por fim, à beira da cama. Então, erguendo a saia, começa a arrulhar, num beicinho de amuo:

- Què vê? Què vê o dói-dói que aquele buto fez à quida?”[3]

 

Como nos trechos supra transcritos, ao ler-se este último texto parece que o estamos a declamar em voz alta.

 

Não há dúvidas: antes de terem sido vertidas em papel, aquelas frases foram muito bem arrumadas na mente do autor e, se calhar, ditas por David Mourão-Ferreira até se afinarem ao ritmo da respiração. A respiração é, assim, o diapasão da escrita do autor, o que não admira, pois estamos perante um poeta.

 

*

 

No fim do livro temos Agora o fado corrido em que a personagem principal, Maria do Amparo, tenta ver-se livre de dom Luís.

 

Um ror de cenas do mundo boémio das casas de fado. Tudo muito bem descrito, muito realista, com ritmo, mas a história não agarra. Não sei se será do tema. O que sei é que não gostei. Lida a novela fica-se com a impressão de vazio de boas sensações. Não existem ideias nobres, atitudes meritórias. É um mundo de decadência, com vómitos à mistura. A ler só por exercício.

 

De aproveitar:

 

E o dique das conversa que se rompe.”[4]

E[5], aos cantos da boca, persistem dois vincos em forma de parêntesis…”[6]

 


[1]Cf: página 95 da 10.ª edição (agosto de 2007).

[2]Cf: página 76 da 10.ª edição (agosto de 2007).

[3]Cf: página 157 da 10.ª edição (agosto de 2007).

[4]Cf: página 207 da 10.ª edição (agosto de 2007).

[5]É muito frequente em David Mourão-Ferreira iniciar a frase com E seguido de vírgula. É uma técnica em que se suspende o pensamento, se retarda a ação, desviando a atenção do leitor para uma descrição do personagem, para o enquadramento do lugar e do tempo.

[6]Cf: página 208 da 10.ª edição (agosto de 2007).

 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 00:23
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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