Sábado, 30 de Junho de 2012
 

 

Estampado no colete do homem que empurra os carrinhos das compras podia ler-se: Outsourcing Paquete. (Outsourcing quer dizer de fora e dispensável) Leio e prossigo. (e sem vínculo jurídico)

 

Aproximo-me das portas de vidro automáticas, estas abrem, dou mais uns passos e deixo-me conduzir pelo tapete rolante. (Mas mais importante: sem compromisso afetivo ou efetivo)

 

Reparo em quem desce. (É indiscutível que a dignidade daquele homem foi substituída por uma inscrição, em especial pelo termo Outsourcing). Caminho mais um pouco e aproveito, mais uma vez, outro tapete rolante. (Ali não estava um homem) Reparo novamente em quem desce do outro lado. (Ali estava uma coisa que arrumava carrinhos de mão e era nessa qualidade (máquina) que era visto por aqueles que o contrataram)

 

Já estou sentado a saborear o café amargo da Sical (0,50€) e a folhear o jornal. (No tempo dos romanos o senhor tinha sobre o escravo o ius utendi, fruendi et abutendi, isto é, o direito de usar, gozar e dispor)

 

Não consigo ler nada de jeito. (O escravo, hoje, é o Paquete). Levanto-me e venho-me embora frustrado.

 

Desta vez sou eu a descer pelos tapetes rolantes.

 

Cá fora não vejo o Paquete. Quase o esqueço. Volto a ser guiado por outra passadeira deslizante que me arrasta para o interior da garagem subterrânea. No pavimento firme avisto o Paquete a arrumar os carrinhos dispersos. Tento olhá-lo de frente, mas os seus movimentos são esquivos e automatizados. Furta-se ao confronto. Voluntaria ou involuntariamente? Não consigo decifrar. Deixo-o para trás. Saio do parque e paro nos semáforos. (Para ele, que carrega às costas a condição, para mim e para todos aqueles que a leram e vão continuar a ler, a mensagem transmitida é curta e cruel: vós sois coisas dispensáveis).

 

Chego a casa e dirijo-me ao computador para arrumar a cabeça. (Trata-se de uma advertência para levar a sério?) Teclo as ideias dispersas e, tal como o Paquete, empurro-as articuladas por aqui abaixo:

 

O PAQUETE

 

Estaciono o carro no parque subterrâneo. Caminho em linha reta até à saída. Vejo, a dirigir-se para a passadeira rolante, um homem a empurrar carrinhos de compras encaixados uns nos outros.

 

Aproveito a boleia e sigo atrás dele. Nas costas do colete pode ler-se Outsourcing Paquete, o que me pareceu despropositado e até humilhante. Talvez por isso, num relance, pois a viagem foi curta e o homem logo desapareceu no cimo da passadeira, creio ter visto as costuras do colete de fora. Tinha de o avisar.

 

À superfície o homem inverte a marcha e os carrinhos gingam como os autocarros articulados. No final da manobra, dá de caras comigo.

 

- Tem o colete do avesso! – Digo-lhe de modo discreto.

 

Ele fixa-me o olhar e o rosto contrai-se. Naquele instante sinto que não me observa, que se limita a refletir sobre a minha advertência. De seguida, como que a consciência de si vem à tona das pupilas. Os olhos, quais dois ós, dilatam-se e sobre eles, em forma circunflexa, as sobrancelhas amortece-lhes o espanto. Por fim, refeito da novidade, o rosto relaxa-se. O homem, então, mira-me sob o efeito dos sentimentos alternados da humildade e do desafio. Balbucia:

 

- Obrigado!

 

Enquanto dou meia volta para retomar a direção da entrada principal, ainda assisto ao homem a despir o colete. E, de costas voltadas para o Paquete, prossigo o meu destino. Vou de mãos livres e um parêntesis curvo em cada canto da boca.

 

Vila Nova de Gaia (e outros lugares), de 9 a 24 de junho de 2012



publicado por Paulo Moreira Lopes às 17:01
Quinta-feira, 07 de Junho de 2012
 


Era um dia luminoso de cegar, o céu estava liso, “um céu de vidro”[1] como se dizia. A manhã cansada já se tinha ajoelhado aos pés da tarde[2].

 

Mais um dia das férias grandes, daquelas que nunca acabam. Duram, duram. Daquelas que o início das aulas parece irreal de tão longínquo. Um dia em que o desejo de liberdade cavalga de rédeas soltas até à exaustão ou à asneira.

 

Estávamos em Agosto, no mês em que os ramos do salgueiro do lago tremem com a leveza da libelinha, da libelinha azul, a beber o sol pelas asas[3].

 

O lago morava mesmo ali à beira da quelha, onde os primos paravam. E à volta do lago havia um jardim em forma de gomo. E de um lado do gomo passava a nacional 15. Tantos carros em direção a Paredes, Penafiel, Amarante, Vila Real e … Bragança. E as camionetas da Cabanelas[4], em tons verde, e do Albano, em tons vermelhos. Era vê-los e vê-las passar.

 

A estrada era a tela onde se projetava continuamente um filme, umas vezes lento, outras vezes rápido e às vezes parado. O filme da saudade, da troca de olhares breves que nunca se restituíam. Até hoje.

 

Enfim, sigamos. Falemos, então, dos primos que não têm nada para fazer.

 

De tempos a tempos, os funcionários da câmara ainda apareciam para esvaziar o lago e remover o verdete. No final, era vê-los açaimar a fúria da água da companhia, e aquela, em vez de ser um rio a passar, passava a ser um espelho a reflectir[5]. Mas naquele dia, ninguém apareceu.

 

Às vezes, a fábrica de biscoitos Paupério chamava-os para acarretar as caixas de cartão espalmado. Naquele dia, ninguém lhes passou cartão.

 

Apesar disso, sentia-se o cheiro a biscoito no ar, só que nada de serviço, logo nada de raleiro. Portanto, nem uns restinhos de chocolate se podiam procurar naquele amontoado de biscoitos.

 

Por fim, ir a banhos a Couce, só com os mais velhos e esses andavam longe. Não se sabia onde.

 

Restavam os dois, ali à beira-mágoa[6], a verem-se ao espelho em forma de pêra, com um chafariz no meio. Os peixes vermelhos mal os viam, ficavam assustadiços e só se aproximavam à força de migalhas, mas não de raleiro, pois quando havia, era só para eles.

 

Até que tiveram a ideia, não se sabe quem em concreto, nem nunca se saberá, tal era a sintonia de pensamento, de navegarem no lago. De passearem de barco naquelas águas esverdeadas, tingidas pelas folhas do salgueiro.

 

Mas ali não havia nem porto, nem marina, nem barcos. Só ilusões.

 

E entre as ilusões e a pasmaceira da tarde escolheram navegar. Ora, o mais parecido com um barco ou uma barca era o gavetão da cómoda lá de casa. E porque não? Cabiam os dois?! A viagem, podia ser curta, mas ia ser bestial. Ou melhor, fantástico.

 

Primeiro foi pôr a roupa em cima da cama, depois descer as escadas com cuidadinho senão a barca ainda saía de rompante pela porta fora e, por último, chegar triunfante à sombra do salgueiro que chorava não se sabe porquê.

 

A coisa não era assim tão fácil como parecia à primeira vista. Começou logo por meter água entre as frinchas das tábuas. Mas não meteria o suficiente para se afundarem, pensaram. Não. Não seria possível. Não podia ser. Não havia mostrengo que os impedisse de realizar aquela aventura.

 

A vontade de navegar era mais forte que eles. Ali dentro do gavetão eram mais do que eles[7], eram os pequenos vagabundos[8].

 

Só que o gavetão não pôde mais. Quando parecia que ia ganhar balanço e contornar o chafariz virou. Tombaram os três nas águas mornas da pêra. Ainda bem que não estava por ali a Marion-des-Neiges[9]. Ia ser uma grande vergonha.

 

Os passageiros, que agora passaram à categoria de espectadores, assistiam refastelados à cena mais dramática daquela aventura.

 

Banho forçado à parte, ficou ao menos a consolação de, por uns pequenos, talvez breves, brevíssimos, para sermos sinceros, uns ínfimos instantes, os primos se terem convencido que era possível vencer o insustentável peso da realidade.

 

Pior seria depois para encaixar o gavetão na cómoda. Não é que a madeira tinha inchado? Por mais que se empurrasse e torcesse o gavetão não entrava.

 

Agora era pensar numa boa desculpa para aquela desarrumação. O mais novo, que fazia de Patrick[10], estava dispensado das explicações, o mais velho, o cowboy[11], haveria de desenlaçar o imbróglio.


Publicado in Histórias mal contadas 


 

[1] Expressão adaptada do conto “Mãozinhas de seda” de Raduan Nassar, inserto no livro Menina a Caminho, Edições Cotiva, página 76. Não queira o leitor saber a angústia do autor que, ao não anotar a página logo que viu a metáfora, teve de reler todos os contos do livro até finalmente a redescobrir. Em obediência ao princípio do direito natural de dar a cada um o que lhe pertence (suum cuique tribuere – Ulpiano, Digesta) nunca o autor poderia publicar o texto sem a referência à titularidade de tal figura de estilo.

[2] Adaptação do poema com o título “Meio-dia” de César Augusto Romão, in Tanto ar, Propagare, página 30.

[3] Adaptação do poema “Agosto” de Francisco Duarte Mangas e João Pedro Mésseder, in Breviário do Sol, Editorial Caminho, 2002, página 12.

[4] Hoje Rodonorte, cuja empresa remonta ao séc. XIX, mais precisamente a 1865. Nessa altura, os serviços de transporte de passageiros eram efetuados por uma diligência puxada a cavalos. Já em 1892, o poeta António Nobre, referenciava no seu poema "Só" (Viagens na minha terra) os serviços da Cabanelas. (cfr: http://www.rodonorte.pt/empresa.php)

[5]Inspirado na definição do rio Nabão por Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 72.

[6] Adaptação de um verso de Fernando Pessoa in Mensagem, página 125, da Oficina do Livro.

[7] Este texto remete-nos para o poema de Fernando Pessoa “O Mostrengo” in Mensagem, da Oficina do Livro página 84 e 85.

[8] Naquela altura estava a ser transmitida a série juvenil Os Pequenos Vagabundos que foi um êxito retumbante entre a criançada.

[9] Era a personagem feminina da série Os Pequenos Vagabundos, que passou na RTP durante os anos 70/80. Nós, os rapazes, andávamos embeiçados pela Marion-des-Neiges, enquanto elas suspiravam (literalmente) pelo Jean-Loup.

[10] Personagem daquela série. Por ser parecido com ele, quando brincávamos, eu fazia sempre de Patrick.

[11] Personagem da mesma série.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 16:27
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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