Domingo, 26 de Agosto de 2012

 

Gota a gota o soro ia-se escoando pelas veias e o seu olhar perdia-se nas paredes brancas. Cansada de esperar vi-lhe as pálpebras esticarem-se até se… tocarem.


Eu estava sentado do outro lado do quarto. Entre nós existia uma cama vazia.


O silêncio era quebrado pelo gotejar mudo do soro.


Enviei-lhe, via SMS, uma mensagem:


- Acorda para mim!


Ela pegou no telemóvel, leu a mensagem, piscou-me o olho direito, sorriu e depois voltou a estender as pálpebras até à... próxima mensagem.

 

Vila Nova de Gaia, fim de tarde de 2 de julho até ao início da madrugada de 3 de julho de 2012.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:47
Sábado, 18 de Agosto de 2012

 


Abri o roupeiro à procura de uma camisa. Virei, na minha direcção, uma a uma, as camisas penduradas nos cabides. À medida que as ia inspeccionando, arrastei-as, uma a uma, até ficarem todas juntas. Ainda hesitante, reparei que a penúltima tinha nas costas uma mancha de cor vermelha escura. E a mancha era recente. Não estava ali quando comecei a passar a revista. Instantaneamente, por mero instinto, olho para a mão direita e vejo o meu calo do dedo mindinho aberto e a sangrar. Não tenho outro remédio senão lavar as mãos com água estreme, secá-las e assim estancar a ferida.


Além daquele calo tenho ainda outro na mão direita. Situa-se na prega entre a falanginha e a falangeta do dedo médio. É achatado e largo. Não tenho a noção da sua idade. Talvez tenha o tempo da escrita e do desenho na minha vida.


O calo do dedo mindinho, alvo da minha atenção inesperada, é mais saliente. Está ali ancorado na dobra da falange e da falanginha, redondinho e rijo. Aguenta, em silêncio, o peso das minhas ideias e dos meus sonhos. Suporta, firme, o meu verboduto[1]. Equilibra as minhas dúvidas e reticências. Resiste aos rabiscos e sublinhados. Para ser mais específico, é o ponto de apoio sobre o qual a minha escrita, qual alavanca, tenta mover o mundo[2]. O meu mundo, convenhamos.


Em tempos, já tive calos a nascerem no princípio da tarde de sábado e a rebentarem no final do dia, espalhando a aguadilha pela palma da mão. Depois é que eram elas! Vinha a dor da fricção entre a pele esticada e a carne viva. A enxada e a cavadeira é que ficavam sempre na mesma: duras e inflexíveis.


Nos pés, os calos magoaram-me a vaidade e, às vezes, também sangraram. Isso foi aqui atrasado. Hoje são os sapatos que se adaptam aos pés. Também já não era sem tempo[3].


E a nódoa de sangue? A ver vamos.


Depois de feito o reportório dos calos continuava sem camisa, mas com a borda do calo escura e seca. De volta ao roupeiro, escolhi, como é óbvio, a camisa suja. Peguei nela com todo o cuidado e passei água fria sobre a mancha até desaparecer e diluir-se na corrente, acabando por se escoar pelo ralo do lavatório. Com o secador, a camisa ficou como nova. Imaculada.


Esqueci aquele incidente. Mas, em contrapartida, passei a lembrar mais vezes o calo do dedo mindinho. A reparar mais nele.


De quando em quando, aquela lembrança da área dura da pele que se tornou grossa e rígida como uma resposta a repetidos contactos e pressões, provocava-me a vontade de escrever, e eu, então, escrevia (como agora), logo, pressionava ainda mais o calo, que se tornava ainda mais rígido, o que me fazia pensar ainda mais nele. E assim sucessivamente. Ad infinitum.


Mas um dia, já calejado, disse:


- Basta!


E assim acabei por ficar insensível à sua presença. Deixei de o sentir. Deixei de pensar nele. Logo já não existe.


Vou ter de aguardar por novo sangramento.


Revisto em 18, 20, 21 e 22 de outubro de 2012.



[1] É o nascer de uma nova palavra por influência dos engenheiros que me rodeiam.

[2] Arquimedes descobriu o princípio da alavanca e a ele é atribuída a citação: "Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo".

[3] É uma expressão corrente na língua portuguesa. Faz parte das figuras de linguagem e consiste na afirmação de uma coisa, afirmando-se o seu contrário - esse tipo de colocação chama-se litotes.

 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 18:01
Quarta-feira, 15 de Agosto de 2012
 

 

Depois de falarmos sobre as características da Terra Quente e da Terra Fria Transmontanas e das atividades económicas predominantes em ambos os casos, ele referiu-se ao turismo da saudade.


Segundo me disse, seriam ofertas de lazer disponíveis em certos locais da região, em que os visitantes presenciavam e participavam nos rituais do quotidiano entretanto em desuso (verbi gratia: matança do porco).


Para aqueles que seriam originários de Trás-os-Montes ou arredores e que já teriam vivenciado tais fenómenos etnológicos, o efeito seria o de matar saudades.


Durante a viagem de regresso vim a pensar naquela designação do turismo da saudade e questionei-me: será que não existe também uma literatura da saudade?


Claro que sim. E até uma literatura da saudade do futuro.


Bragança, Porto e V. N. de Gaia, julho de 2012.


publicado por Paulo Moreira Lopes às 21:43
Segunda-feira, 13 de Agosto de 2012

 

Ficou-nos caro aceitar a oferta.

 

Desembrulhamos a caixa e lá surgiu o equipamento, na gíria técnica gadget. A surpresa ficou para o fim: a ficha de alimentação de energia tinha três pernos. Um no cimo e dois na parte inferior. O entusiasmo arrefeceu e uma faísca de irritação acendeu. Tratava-se de uma ficha usada no mercado inglês.

 

Era caso para pensarmos: talvez aquela avaria fosse, entre outras, uma das motivações da oferta.

 

Fomos resolver a falta de encaixe a uma loja da especialidade. Só que em vez de trazermos para casa a ficha certa, viemos carregados com três tipos de fichas: a inglesa (agora eram duas), a americana e a da europa continental.

 

Em conclusão, ficamos com um adaptador.

 

A ficha inglesa da geringonça encaixa na americana e esta, por sua vez, na da europa continental. De fora fica a outra ficha inglesa que vinha com o adaptador (ao menos o adaptador é universal).

 

São três intrusos, três parasitas, melhor dizendo, com que passamos a conviver em casa. Só existem porque os homens não se querem entender quanto ao modelo universal de ficha a utilizar. São os frutos da discórdia. Um desperdício para os consumidores e um negócio para os fornecedores.

 

A nós tanto nos importava que fosse o tipo inglês, americano ou europeu, mas para outros (incluindo países), a manutenção das diferenças, representa a sua sobrevivência. Por isso, haverá sempre alguém (será um castigo de Deus?) a fomentar estas e outras divergências.

 

A normalização (lei geral e abstrata) é, assim, um imperativo de justiça em permanente construção e reconstrução, tal como a Torre de Babel.

 

Vila Nova de Gaia, 12 de agosto de 2012.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 01:02
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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