Segunda-feira, 31 de Março de 2014

E ao alto da página esquerda, em caixa alta, lá estava a determinação de não se sabia que profeta ou apóstolo, absurda, irónica e inútil ali, na qual os olhos da devota apagavam, penitentes, o lume que a obscenidade ateara.

 

Miguel Torga, in Vindima, 5.ª edição, página 25.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 17:53
Segunda-feira, 31 de Março de 2014

O nome da quinta foi como um ferrão que os despertasse.

 

Miguel Torga, in Vindima, 5.ª edição, página 24.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 13:00
Domingo, 30 de Março de 2014

Vasco Gargalo

 

Se todos sabemos que era desejo do autor, o que é abundantemente expresso no seu trabalho e resulta, aliás, da interpretação do seu pensamento quanto à divulgação da sua obra, ou seja, que os frutos do seu labor fossem divulgados pelo maior número de pessoas possível;

 

Se todos sabemos que o autor publicou as suas obras sem intuito lucrativo, que nunca pretendeu ganhar dinheiro com a publicação dos seus livros;

 

Se todos sabemos que era avesso à exibição pública de fotografias suas e a dar autógrafos;

 

Se todos sabemos que as suas obras primavam pela simplicidade, pela ausência de fotografias e ilustrações;

 

Como é que podemos aceitar que ganhem dinheiro à sua custa, que fixem preços aos livros de modo a limitar a sua compra, que aponham nas primeiras páginas dos livros fotografias ou o seu retrato e divulguem a sua assinatura?

 

Como é que podemos, ainda, aceitar que um autocarro seja decorado com uma fotografia sua e passe a circular na cidade, quando todos sabemos quão cioso era da sua intimidade?

 

Não se pode aceitar!

 

Para mim, conhecendo-o como o conheço, acharia um sacrilégio, uma tratantice.

 

Nem se venha dizer que tenha consentido em vida tais devaneios, pois que se saiba as suas últimas palavras foram:

De alguma coisa me hão-de valer as cicatrizes de defensor do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo.

 

Portanto, está mais que visto que o homem não andou a vida inteira a lutar pelo amor, pela verdade e pela liberdade, muitas vezes saindo do combate bastante ferido, para depois da morte se passar um pano sobre o assunto, como quem limpa o pó sobre uma cómoda antiga, passando a exibi-lo ao mercado como um escritor igual aos outros, como se nada fosse.

 

Aliás, eu escrevi homem, e pronto, o que está escrito está escrito, não volto atrás, mas o que na verdade deveria ter redigido era Cristo, como lhe chamou o irmão Adolfo Rocha.

 

Sim, é verdade!

 

Miguel Torga quis surgir aos nossos olhos como Cristo e viveu toda a sua vida nessa condição, como comprovam as suas últimas palavras.

 

Assim, toda a sua obra foi realizada em nosso nome e para nossa salvação[1].

 

Concluindo e resumindo, para mim, Miguel Torga sempre foi e será do domínio público, pois foi o próprio quem assim o instituiu e não há lei ou sentença que o possa contradizer.

 

E logo a ele!

§

 

José Carlos Vasconcelos afirmou que Miguel Torga "marcou uma geração" de autores e que queria editar os próprios livros para que fossem mais baratos. 



[1] É muito curioso que Adolfo Rocha já previsse o que sucederia ao irmão quando afirmou: …Ele nas vossas mãos, fariseus, está perdido, bem sei… Não há Cláudia Prócula que o salve.” E a profecia cumpriu-se: pois são muitos os fariseus que desprezaram e ainda desprezam a sua obra redentora, insistindo lançá-lo na praça pública, para gáudio do poviléu, carregando a cruz do negócio às costas e com tudo à mostra, exceto as partes púdicas (valha ao menos isso).



publicado por Paulo Moreira Lopes às 17:52
Domingo, 30 de Março de 2014

Uma onda de riso coroou a réplica do intrometido.

 

Miguel Torga, in Vindima, 5.ª edição, página 24.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 17:51
Sábado, 29 de Março de 2014

- Vá lamber sabão, ora o parvo! Primeira! Com licença… - e o chefe dos assaltantes reduziu a factos a discussão.

 

Miguel Torga, in Vindima, 5.ª edição, página 24.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 17:51
Sábado, 29 de Março de 2014

Conheciam o Doiro a palmo a palmo, a ingreme dureza das suas encostas, o peso dos cestos vindimos, a luz mortiça dos lagares.

 

Miguel Torga, in Vindima, 5.ª edição, página 24.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 17:50
Sábado, 29 de Março de 2014

 

A Filomena é natural de Castelões de Cepeda, a freguesia que corresponde à cidade de Paredes, residindo agora em Mafamude, Vila Nova de Gaia, uma cidade linda, desabafa. Talvez por isso, as paisagens daquela urbe, fantásticas e agradáveis, onde se incluem os monumentos e as praias da costa que a marginam, lhe despertem a imaginação quando pinta. É que na hora de lançar para a paleta as tintas, lança também aquelas influências, que depois vai pincelando na tela, para nosso regalo. 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 13:05
Sexta-feira, 28 de Março de 2014

Não obstante a fleuma distante do inglês, a raiva congestionada do senhor Lopes, o alheamento místico da mulher e os olhares indiferentes dos filhos, a vida retomava a sua expressão descontraída, numa humana simpatia falada.

 

Miguel Torga, in Vindima, 5.ª edição, página 24.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 17:47
Sexta-feira, 28 de Março de 2014

As malas eram acomodadas doutra maneira, fazia-se um aproveitamento mais racional do espaço, descobriam-se soluções inesperadas e originais para cada dificuldade, surgiam lugares inconcebíveis até ali, e cada qual, pouco a pouco, ia encontrando a paz egoísta do conforto mínimo.

 

Miguel Torga, in Vindima, 5.ª edição, página 22.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 13:34
Quinta-feira, 27 de Março de 2014

- Logo que isto comece a andar, fica-se mais à vontade – prometeu um rapaz magro, a roçar a saca de retalhos cheia de roupa e broa pela cara do senhor Lopes, que ruminava a impotência.

 

Miguel Torga, in Vindima, 5.ª edição, página 23.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 13:33
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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