Sábado, 12 de Abril de 2014

  Chema Madoz

 

A minha mãe dizia: vai num pé e volta no outro. Eu lançava-me pela rua abaixo com uma bolina que até andava de lado nas curvas. Podia cortar a direito, mas preferia contornar a estrada e desafiar a gravidade. Nunca me espalhei, nem nunca me perdi em conversas com os amigos. Num curto espaço de tempo chegava ao Escoiral (era um curto tempo de espaço, visto hoje), entrava na loja e esperava pela minha vez. Ficava a descansar. Com o balcão pelos olhos, fazia o pedido e depois agarrava no embrulho e saía disparado. A minha mãe exclamava: chegaste rápido! bem sabendo que eu nunca tinha saído da beira dela.


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publicado por Paulo Moreira Lopes às 12:57
Segunda-feira, 17 de Março de 2014

 Fernando Lanhas (1923-2012)

 

Desço disparado como se não houvesse amanhã. São cento e sete degraus e vinte e cinco patamares, contados de véspera (pausadamente), até chegar à entrada do prédio. O tempo é medido pelo automático de escada. Movo-me à velocidade da luz como se não houvesse amanhã. Rodopiando nos patamares, com a mão direita presa no varão, até faço vento. As pontas do casaco levantam e eu voo como se não houvesse amanhã. A preocupação em pisar cada um dos degraus apaga qualquer pensamento. Não há luz para novas ideias, mesmo que lebres. É só no último patamar que acendo o presente para ver o passado que serei[1].



[1] Esta última frase foi inspirada no título do livro de Inês Botelho: O passado que seremos.


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publicado por Paulo Moreira Lopes às 00:00
Domingo, 16 de Março de 2014

 

Um grande homem

 

Esse homem — bem sabeis — é tolo...

Todavia Um amigo, que é dele e meu, disse-me um dia:
«Tenho-o visto sentado á banca do trabalho!
Com a fronte em suor, num cruciante orvalho,
Curvado sobre a mesa o desgraçado anceia!
É o galgo Talento atrás da lebre Ideia!
Exânime afinal de esforços impotentes,
Vai cair no torpor imbecil dos dementes,
Esfalfado, a arquejar numa postura mésta,
Quando duma palmada estridula na testa Espirra uma centelha!...»
E eu disse-lhe: — Acredito,
Porque a palma é de ferro e a testa de granito!

 

§

 

Depois de Ernesto Sampaio, este é o segundo autor que conheço a associar o animal à ideia.


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publicado por Paulo Moreira Lopes às 17:22
Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014

 Chema Madoz

 

A cena repete-se há mais de trinta anos. Mal os primeiros rebentos se me tornaram fartos, muni-me de uma lâmina e iniciei a delicada tarefa de os segar. E assim venho fazendo ininterruptamente até aos dias de hoje. O sacrifício começa logo de manhãzinha, às vezes meio tonto. Com movimentos verticais, horizontais ou oblíquos, tanto dá, não há rebento que me escape. Se a lâmina está mais afiada ou então a pontaria menos acertada, é normal golpear-me na superfície. Para limpar os destroços enxaguo-me com água bem fria. Por fim, ergo a cabeça e refletido no espelho vejo-me um Cristo, mas de cara lavada.

 

Vila Nova de Gaia, 13 de fevereiro de 2014.


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publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:42
Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014

 Chema Madoz

 

Foi num sábado. Como é meu costume, saí em direção ao jardim. Subi por detrás da escola, do lado esquerdo, e quando cheguei ao cimo atravessei a rua para o outro lado. Segui quase em linha reta até ao quiosque. Lá no alto o Mestre mirava-me de esguelha. Pedi o que queria. Deu-mo dobrado e quando o pousou em cima do balcão ele mexeu-se. A mulher então exclamou: Está vivo! Peguei nele com todo o cuidado. Ainda respirava, muito sofregamente, mas respirava. Dentro do café, que fica ali próximo, deitei-o devagarinho sobre a mesa. Depois folhei-o com todo o vagar até se deixar morrer no meu olhar.

 

Vila Nova de Gaia, 9 de fevereiro de 2014.


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publicado por Paulo Moreira Lopes às 21:58
Domingo, 26 de Janeiro de 2014

  Chema Madoz

 

Abri a porta e lá estava ele à minha espera. Sentei-me e fiquei a apreciá-lo. Começou a andar à volta do objeto, da esquerda para direita e da direita para esquerda à procura do melhor ângulo. Para tirar dúvidas, media o desbaste com os dedos. Quando parava, investia com determinação sobre a peça. Os desperdícios iam-se espalhando pelo chão e alguns ficavam agarrados ao corpo. Eu estava curioso no que aquilo ia dar. Às vezes ele levantava a cabeça e conferia a obra refletida no espelho. Nestes momentos os nossos olhares cruzavam-se. Já no fim perguntou-me: que tal? Eu revi-me e respondi: mais leve!

 

Vila Nova de Gaia, 26 de janeiro de 2014.


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publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:49
Sábado, 04 de Janeiro de 2014

Chema Madoz[1]

 

O final do mês estava à porta e antes que ele entrasse, nós saímos rumo à praia de Salgueiros. Faltava-nos cumprir um dos pontos concretos de esforço: o dever de sentar[2]. No interior do veículo fomos acertando agulhas. Ali chegados, estacionei em frente ao mar tumultuoso. Vi então, ainda palpitante, voar um beijo perdido no céu nublado. Estava assustado com a tempestade eminente. Não tive mais nada: saí do carro, ergui bem alto as mãos, agarrei-o com carinho e fui deitá-lo delicadamente no ninho dos lábios dela, que acabara de adormecer. Dei meia volta e vim em silêncio para não os acordar.

 

Vila Nova de Gaia, 4 de janeiro de 2014.



[1] Descobri-o através da consulta da antologia de poesia visual inserta no site de Antero de Alda. Da consulta da obra de Joan Brossa passei rapidamente para a obra de Chema Madoz. Ainda não sei aonde é que isto irá parar.

[2] No final da formação, mais propriamente no Forum, uma formanda, face à dificuldade dos cônjuges em cumprirem aquele Ponto Concreto de Esforço (PCE), propôs que em vez de se designar dever de se sentar, se chamasse prazer de se sentar. Fátima, 9 de março de 2014.


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publicado por Paulo Moreira Lopes às 14:06
Quinta-feira, 28 de Novembro de 2013

 

O vizinho do primeiro andar caiu-nos do céu. É um homem muito simpático e muito nosso amigo. Sempre que alguma coisa lhe cai no terraço, é certo e sabido, que a guarda e depois coloca-a num saco que a seguir deixa pendurado no puxador da porta do rés do chão para nós a reavermos. São meias, camisolas, brinquedos e outros objetos indefinidos. Há dias em que são como tordos. Mas como nem sempre lá caiem coisas, o nosso vizinho, para não cair no esquecimento, deixa objetos pessoais no saco. Nós, como não queremos que o gesto caia em saco roto, levamo-los para casa e deixamo-los cair no terraço.

 

Vila Nova de Gaia, 27 de novembro de 2013.


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publicado por Paulo Moreira Lopes às 00:16
Sábado, 02 de Novembro de 2013

 

Vinha eu na minha habitual caminhada noturna quando avisto à minha frente um homem parecido comigo a caminhar. Para cúmulo, vestia um impermeável azul almofadado e calças de sarja azul, como eu. Intrigado com a situação acelero o passo, o que ele repete de imediato. Como não há trânsito, atravessa a rua sobre a passadeira, tal e qual como eu costumo fazer, o que eu repito. À entrada do jardim reparo que tem os atacadores soltos. Para o alertar do perigo que corre, começo eu a correr. Só que dois passos adiante, tropeço nos atacadores e espalho-me na calçada. O homem, esse, nunca mais o vi.

 

Vila Nova de Gaia, 2 de novembro de 2013.


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publicado por Paulo Moreira Lopes às 01:20
Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

 

Naquele dia fui pela Arrábida. Ao entrar na A20 procurei a fila do meio e apercebi-me que um carro também fazia o mesmo. Mais adiante decido ultrapassar um camião e, em ato contínuo, o veículo faz o mesmo. Vejo pelo retrovisor que é conduzido por uma mulher. Retomo a fila e decido sair em Bessa Leite para voltar a entrar. Na rotunda ela cola-se a mim. Não entro na A20 e sigo em frente. Farto da perseguição paro lá longe, junto ao parque do Lidl, e dirijo-me a ela para saber o que pretende. Ela sai do automóvel, esboça um sorriso, e diz-me satisfeita:

- Se não fosses tu nunca dava com este sítio.

 

Vila Nova de Gaia, 16 de outubro de 2013.


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publicado por Paulo Moreira Lopes às 12:59
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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