Terça-feira, 01 de Julho de 2014
 
O Técnico, ouvido em tribunal, considerou que “o conceito de guarda-corpos perder-se-ia” se a sua altura fosse aumentada desmesuradamente. “Passaríamos de um guarda-corpos para uma parede”, disse.

 

Respondeu segundo a linguagem técnica. Guarda-corpos são aqueles que se encontram implantados na ponte (do Infante, no caso em juízo) e não outros. Se forem outros, já não se chamarão guarda-corpos, mas uma parede, por exemplo.

 

Será assim?

 

Se o guarda-corpos, obedecendo às condições técnicas atualmente em vigor (norma), afinal, não é suficientemente eficaz (incluindo a função inibidora nos casos de suicídio) para guardar corpos, o significante (forma ou palavra) não corresponde ao significado (conteúdo ou conceito) então, das duas uma:

  • ou se acaba com a palavra (significante) de guarda-corpos e atribui-se outro nome (por exemplo: grade) às atuais estruturas que delimitam as pontes;
  • ou alteram-se as condições técnicas do objeto (grade) de modo a cumprir uma das funções primordiais daquele, e que consiste em guardar corpos, passando a haver um mínimo de correspondência entre o significante (palavra) e o significado (conteúdo da palavra).

Portanto, se para guardar corpos numa ponte, eficazmente, for necessário aumentar a altura das grades (como se fosse uma parede, na versão do Técnico), estas novas grades, agora mais altas, serão os verdadeiros guarda-corpos (significante = significado) e não os falsos (significante ≠ significado) como hoje existem.

 

A ser assim (aumento das grades), o conceito (ajustado à realidade) não se perderia, encontrar-se-ia, sim, com o significante.

 

§

 

Rede anti-suicídio para mudar história da ponte Golden Gate



publicado por Paulo Moreira Lopes às 00:00
Domingo, 15 de Dezembro de 2013

 

 

Adoro furadores, pequenos ou grandes e de qualquer cor. Não é a peça em si que eu estimo, é o que representa, é a utilidade subjacente à coisa que me encanta. Tanto assim é que nunca me afeiçoei a um furador em especial. Como dizia, para mim é sinónimo de organização, arrumação.

 

Quando penso numa tarefa cujo processo que a sustenta é um conjunto de folhas soltas, por sistema, antevejo de imediato dificuldades na sua abordagem, mesmo que o assunto seja de menor relevância. A minha salvação é então o furador. Custe o que custar, doa a quem doer (será que as folhas sofrem com os furos?) o processo terá: primeiro, de ficar ordenado (por regra, cronologicamente), a seguir, estudado, concluído e, finalmente, arquivado (uma ótima sensação), e ainda, se possível (haja espaço!), bem longe da vista, para não se confundir com os pendentes.

 

Já agora, não posso deixar de confessar o prazer que me dá tocar num processo depois das folhas terem sido meticulosamente furadas por mim. A prova real do trabalho obtém-se fazendo deslizar, em simultâneo, o polegar sobre a borda da face da primeira folha, e o indicador e o médio sobre a superfície das pontas das folhas[1]. Quando não há pontas maiores que outras, quer dizer que os furos foram executados no sítio certo (as folhas têm sempre o mesmo tamanho). A perfeição até arrepia!

 

Vila Nova de Gaia, 15 de dezembro de 2013.



[1] Pareço um marceneiro a riscar a madeira.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 20:59
Domingo, 15 de Setembro de 2013

 

Odeio gavetas. É verdade. Odeio a gaveta e as gavetas. São, para mim, sinónimo de desleixo e de falta de controlo do mundo que me rodeia. É que eu tenho a certeza que estando uma coisa escondida da minha vista necessariamente a esquecerei. E se for uma coisa importante a situação é grave, muito grave.

 

Por isso, decidi, desde cedo, que as tarefas a realizar têm de estar materializadas em papel e sobre a mesa, bem perto de mim. Tenho de tocar a tarefa, ordenar as folhas e ajustar o clip, caso exista. Apalpá-la e dispô-la de maneira a ser resolvida. Tenho de vê-la constantemente até ao momento em que a ataco, a agarro bem firme com as mãos do pensamento e a resolvo. Leve o tempo que levar, não paro enquanto não estiver resolvida. Depois é um alívio levá-la para o arquivo, bem longe da vista. Fica arrumadinha.

 

As gavetas que mais odeio (nisto também há graus) são aquelas que tenho em casa e em que acumulo, dia após dia, coisas que vou recebendo no correio ou que vejo no exterior (folhetos, bilhetes de cinema, catálogos de exposições, etc). Guardo-as naqueles lugares fechados até que a coragem me chegue para as eliminar. E o dia chega. Tem de chegar, pois forço-me a revisitar tais lugares ocultos. É um sacrifício mexer naqueles pedaços da memória, optar por aqueles que irão morrer para sempre. São vários os momentos que ocorrem em contínuo: olho a coisa (geralmente papel), revisito a memória, localizo a sua história, avalio a sua necessidade na minha vida (os prós e os contra), tomo a decisão sempre sem remorsos e zás: ou rasgo-a, se for papel, ou deito-a ao lixo, se for outro objeto. Se houver hesitações durante o processo então fica em pousio, até nova monda. As que sobrevivem são mais uma vez tocadas, acarinhadas ou folheadas. Quando fecho a gaveta sinto-me em paz.

 

Com as gavetas dela e do rapaz a situação é de autêntica guerra familiar. Quando sugiro arrumações (a ele imponho) eles parecem outros, transformam-se. Olham-me furiosos e desafiam-me a manter o status quo. Acabo por vencer (com ela o convencimento, às vezes, dura dias). Depois é uma luta gaveta a gaveta, papel a papel, coisa a coisa. São negociações atrás de negociações. No final, a vitória tem um sabor muito amargo. Se, por um lado, fico sempre insatisfeito, pois, invariavelmente, acho que podíamos ir mais longe no rasganço das coisas deles. Por outro, quando fecho as gavetas deles sinto-me muito culpado. É uma situação que tenho de rever.

 

Por fim, há os casos das gavetas menos más. São aquelas em que por questões de eficiência a cada gaveta corresponde um tipo de coisas, geralmente vestuário. E se o seu conteúdo é uniforme, sem hipóteses de opção (meias todas pretas ou camisolas interiores todas brancas) então a gaveta é quase boa, quase minha amiga. Esta última situação é muito cómoda, pois se penso num objeto associo logo àquela gaveta. Não falha. Daí dizer que a gaveta é quase minha amiga.

 

A exceção a esta repulsa continua a ser o gavetão do meu primo que quase flutuava no lago. É a única gaveta de que gosto muito e da qual sinto saudades.

 

Vila Nova de Gaia, 15 de setembro de 2013.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 22:57
Domingo, 18 de Agosto de 2013

 

¿Qué hace que un objeto cotidiano se convierta en un héroe oculto?

 

Debe de ser algo relacionado con una idea ingeniosa, aunque fácilmente comprensible. Los héroes ocultos son objetos que se han fabricado millones de veces, pero que siguen siendo indispensables en el día a día. Han demostrado su valía una y otra vez y, en esencia, han permanecido inalterables durante décadas. Dicho de otro modo, son clásicos cotidianos.

 

in Héroes ocultos Inventos geniales. Objetos cotidianos

 

A Coruña, 17 de agosto de 2013.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 21:48
Sexta-feira, 28 de Junho de 2013


Ela comprou dois pares de sandálias. Um de cor azul e outro de cor bege. Ambos tinham o mesmo número e estavam confortáveis. Podiam era ficar mais ajustados aos pés. Depois de apertada a fivela, havia uma pequena folga que seria facilmente eliminada com mais um furo.


De uma das saídas à praia, no regresso a casa e sem mim, ela procurou um super rápido e furou as hastes de um dos pares.


As sandálias ficaram perfeitas.


O outro par ficaria igual. Desta vez fui com ela e com o rapaz ao sapateiro. Era um homem de raça eslava (talvez ucraniano). Os olhos azuis, o cabelo louro e as entradas profundas e redondas denunciavam-no. O sotaque acabaria por tirar todas as dúvidas. Com uma das mãos pegou na sandália e com a outra agarrou num instrumento que espetou na haste até abrir um buraco. Estava assim criado o furo necessário para apertar à justa a sandália.


Findo o serviço perguntei-lhe como se chamava a peça usada para furar a haste. Disse que não sabia. Eu disse-lhe que também não (por isso tinha perguntado). Mas tinha na ponta da língua uma palavra parecida: era sediela (escreve-se sedela).


Há muito tempo, não sei quando ou a que propósito, já tinha ouvido o nome da coisa, que acabei por não associar a nada em concreto, por exemplo a um lugar ou a uma pessoa. A palavra andou sempre perdida na minha cabeça. Vagueava ao Deus dará. Nunca encaixou em parte alguma. Não era de admirar, pois não havia criado uma caixa para ela.


Por isso, viemos para casa com dois furos, mas sem palavra.


Mais tarde, por força de investigação, acabaria por redescobrir a palavra sovela com que se nomeia a coisa. Porém, o termo que melhor descreve aquela ferramenta é a de furador ou de agulha de sapateiro (a associação entre a função e o nome resulta melhor).


Creio, sinceramente, que estamos perante um caso de rejeição mútua. A coisa não combina com sovela e esta última não tem nada a ver com o ato de furar couro, cabedal ou outro material.


Um desajustamento congénito, o qual, por mais furos que se façam, nunca se há-de remediar. A folga, aqui equivalente ao esquecimento, poderá crescer tanto que um dia destes a coisa se descalça definitivamente daquele vocábulo.


Armação de Pêra (Silves), 28 de junho de 2013.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 15:23
Segunda-feira, 24 de Junho de 2013

 

Há palavras cujo sentido(s) ganha mais sentido(s) com o correr do tempo. Vamos atrás do tempo e eis senão quando a propósito de uma atividade ou de um acontecimento a palavra fica mais preenchida, mais rica. É como se nós tivéssemos para cada palavra uma caixa[1] e fossemos guardando nela o que fossemos vendo e sentindo.


Foi o que se passou com a palavra rodapé.


Na caixa/palavra rodapé guardei, então, os seguintes significados:


1. Espécie de cortina que cobre o âmbito da cama até ao chão.

2. Barra de madeira colocada ao longo da parte inferior das paredes.

3. Faixa da madeira, na parte ínfero-interior das grades de uma janela de sacada.

4. Parte inferior das páginas de um livro, jornal ou revista.

5. [Televisão] Texto corrido que surge na parte inferior ou superior do ecrã durante a emissão de um programa televisivo.

 

Pois bem, o segundo significado (barra de madeira) acabou por incorporar o sentido da função do próprio objeto. A revelação ou epifania, como se queira, foi contemporânea das várias obras de colocação de parquê que fui assistindo nos últimos anos. Ao ser confrontado com o desalinho dos tacos junto às paredes, percebi então que a barra se destinava a tapar a feiura do remate do parquê. Ou seja, o sentido da palavra a guardar na caixa deixou ser somente o da coisa (barra de madeira), passando a incorporar também o da causa da coisa.


Assim, acrescentei um sexto sentido à palavra:


6. Forma de ocultar a feiura do desalinho dos tacos junto às paredes, ou, somente, forma de esconder a fealdade.

 

Por contribuir, sem o saber, para o embelezamento discreto dos lugares da nossa vida, é por este que tenho mais simpatia e admiração.

 

Vila Nova de Gaia e Armação de Pêra (Silves), 24 de junho de 2013.



[1] Há quem lhe chame casa. 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 13:06
Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

 

 

As coisas são como são. E para mim, até há bem pouco tempo, duas das portas cá de casa eram duas coisas que rangiam. Chiavam, direi melhor.


Um dia, já saturado daquele gemido, no regresso a casa saí na saída seguinte à habitual e comprei um spray para lubrificar as dobradiças das portas.


Na companhia do rapaz (há coisas só de homens!) aplicamos o spray, alternadamente, eu numa porta, ele noutra.


No final, abrimos e fechamos ambas as portas sem qualquer ruído. O produto tinha cumprido uma das cinco funções anunciadas na frente da lata. Guardei-a na despensa e nunca mais pensei no assunto.


Nunca mais pensei no assunto até ao momento em que comecei a servir-me das portas e deixei de as ouvir. Ora, como tinha dito anteriormente, para mim, aquelas portas eram duas coisas que rangiam. Passando ao estado de mudas, as portas já não eram portas, tinham deixado de existir.


Afinal eu tinha comprado, não um produto que elimina ruídos, mas que apaga portas.


Vila Nova de Gaia, 11 de setembro de 2012.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:12

 

Durante uma semana, aquando das limpezas gerais, tivemos a cozinha sem cortinas. Tudo seria normal se do outro lado da rua não existisse um outro edifício com quase a mesma altura do nosso. O último andar do prédio em frente está ao nível do nosso que é o penúltimo.


Portanto, os nossos vizinhos do outro lado da rua poderiam assistir a tudo o que acontecia na nossa cozinha. Não sei as vantagens que daí retirariam. Sei, isso sim, os inconvenientes que aquela nudez trouxe para os da casa, em especial os adultos.


Passamos todos a ter mais cuidado no modo de nos vestir (mais agasalhados).


Quanto a mim, foi uma semana em que me senti constantemente vigiado por alguém que nunca vi, pois nem sequer olhava para o exterior. Sempre que me aproximava da cozinha preparava-me mentalmente para me esmerar nos atos e evitar omissões.


Nunca, como naquela semana, deixei restos em cima do balcão para depois os despejar no saco do lixo que está na lavandaria. Eram imediatamente arrumados. Uma autêntica limpeza. Não ouve mais esquecimentos e consequentes amuos conjugais.


Durante a manhã, o pequeno almoço era tomado com muito mais calma.


À noite, o jantar era mais organizado, todos ajudavam a pôr e a levantar a mesa e conversávamos mais.


Estivemos todos à prova.


A ausência das cortinas foi real, o mesmo já não direi dos olhares dos nossos vizinhos que, seguramente, não passaram a semana toda em vigília, consecutiva ou alternada, à nossa cozinha.


Mesmo assim, a transparência de um dos palcos onde se desenrolam as cenas da nossa vida conjugal e filial afetou positivamente o nosso desempenho.


Primeiro, tomamos consciência plena dos nossos deveres enquanto membros de uma comunidade e depois quisemos cumpri-los pontualmente para benefício da mesma.


Colocadas as cortinas, deixamos de ter sobre nós os supostos olhares dos nossos vizinhos, para passarmos a ter o olhar incisivo e implacável da nossa consciência que não nos perdoa qualquer fingimento ou contradição.


Se pensávamos que estávamos mal sem as cortinas, agora estamos ainda pior com elas. É que a todo o momento podemos ser atingidos pelas esporas da culpa que nos picam a alma sem dó nem piedade.


Vila Nova de Gaia, 11 de setembro de 2012.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 02:36
Segunda-feira, 13 de Agosto de 2012

 

Ficou-nos caro aceitar a oferta.

 

Desembrulhamos a caixa e lá surgiu o equipamento, na gíria técnica gadget. A surpresa ficou para o fim: a ficha de alimentação de energia tinha três pernos. Um no cimo e dois na parte inferior. O entusiasmo arrefeceu e uma faísca de irritação acendeu. Tratava-se de uma ficha usada no mercado inglês.

 

Era caso para pensarmos: talvez aquela avaria fosse, entre outras, uma das motivações da oferta.

 

Fomos resolver a falta de encaixe a uma loja da especialidade. Só que em vez de trazermos para casa a ficha certa, viemos carregados com três tipos de fichas: a inglesa (agora eram duas), a americana e a da europa continental.

 

Em conclusão, ficamos com um adaptador.

 

A ficha inglesa da geringonça encaixa na americana e esta, por sua vez, na da europa continental. De fora fica a outra ficha inglesa que vinha com o adaptador (ao menos o adaptador é universal).

 

São três intrusos, três parasitas, melhor dizendo, com que passamos a conviver em casa. Só existem porque os homens não se querem entender quanto ao modelo universal de ficha a utilizar. São os frutos da discórdia. Um desperdício para os consumidores e um negócio para os fornecedores.

 

A nós tanto nos importava que fosse o tipo inglês, americano ou europeu, mas para outros (incluindo países), a manutenção das diferenças, representa a sua sobrevivência. Por isso, haverá sempre alguém (será um castigo de Deus?) a fomentar estas e outras divergências.

 

A normalização (lei geral e abstrata) é, assim, um imperativo de justiça em permanente construção e reconstrução, tal como a Torre de Babel.

 

Vila Nova de Gaia, 12 de agosto de 2012.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 01:02
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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