Sábado, 22 de Dezembro de 2012


Para serem lidas nas diversas aceções da palavra. Mas se perguntarem ao autor qual delas corresponde a cada uma das histórias, tendo em conta que no momento da sua escrita o sentido das mesmas ficou entre ele e Deus, e que, entretanto, aquele já se esqueceu do espírito com que as escreveu, terão de perguntar a Deus qual a verdadeira aceção da história. Não se ria o leitor desta advertência, pois o esquecimento não tem graça nenhuma.


publicado por Paulo Moreira Lopes às 14:49
Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

 

 

Cheguei a casa e contei-lhe o que havia ouvido de meu pai:


- Um vizinho tomou conta do terreno que fica em frente à casa dos meus pais. Como o homem tinha de regar a terra e a água da companhia é muito cara, foi buscar, ao balde, água à fonte pública, ali no meio dos Bacelos. Meu pai não suportou vê-lo subir a encosta carregado com os baldes para, de seguida, os despejar nos bidões e assim armazenar a água (fez-lhe recordar coisas passadas e pesadas, por certo!). Por isso, decidiu dar-lhe água do poço de furo.


Na hora de encher os bidões com a água do nosso poço, a mulher do vizinho exclamou: «… parece que foi Deus…!»


Até aqui ela ouviu e nada disse. Continuou entretida com os afazeres domésticos e de costas voltadas para a minha conversa.


Prossegui com mais algumas peripécias e acrescentei que ao sair da casa de meus pais me cruzei com o vizinho agricultor.


Neste momento ela torce o pescoço na minha direção, fixa-me o olhar e pergunta:


- E tu não lhe disseste que eras o filho de Deus?


Respondi-lhe com um sorriso contido.


Entretanto, o tempo fez o seu caminho, a água foi fazendo maravilhas e eu fiz-me esquecido.


Hoje, passados uns meses após aquele comentário, quando cheguei a casa vindo de meus pais carregado com um saco de pencas, tomates coração de boi, vagens e abobrinhas, e sem que ela tivesse tempo para gracejos, antecipei-me:


- São frutos da encosta do vale[1] para a nora de Deus!


Na troca dos frutos restituiu-me o sorriso contido que me havia extorquido à força da graça.

 

Vila Nova de Gaia, 20 de setembro de 2012.



[1] Será o paraíso?



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:56
Domingo, 16 de Setembro de 2012


Cada um de nós tem um conceito próprio do paraíso. Eu não fuja à regra. Devo dizer, aliás, que desde muito novo venho trabalhando para materializar esse lugar. Reconheço, no entanto, que esse lugar acaba por ser, afinal, um estado de alma. Uma paz interior que nos invade depois do dever cumprido.


Assim, o paraíso pode acontecer em qualquer lugar porque se instala na nossa mente e esta, por sua vez, sendo guiada pelo corpo está onde for preciso ou onde for necessário.


Só que há lugares que são propícios a que a dita paz interior aconteça. Dito de outra forma: há sítios que nos impõem o paraíso. Ele como que vem do exterior para o interior da mente.


É o que sucede sempre que vou a Vila Nova de Cerveira.


A entrada no vale e na foz do Lima e o consequente deslumbramento constitui a preparação para a viagem. A seguir, a ascensão pela A28 ao planalto sobranceiro a Viana do Castelo faz-nos aproximar do céu. Ficamos pouco tempo nas alturas e então descemos em direção ao rio Minho. De quando em quando avistamos ao longe o rio e as suas margens verdejantes. Quase no final da auto estrada temos uma descida acentuada e logo depois uma subida e outra descida que nos introduz na EN 13 sem interrupções ou constrangimentos, entenda-se portagem ou rotunda. Na nacional, o percurso é plano e a paisagem espraiada. Agora aparecem rotundas, mas a largueza das margens da estrada torna a condução aprazível.


Mas ainda não chegamos propriamente ao paraíso.


Ele só acontece ou impõe, como se queira, no parque de Vila Nova de Cerveira: é a relva fresca, o arvoredo, o rio sereno e o tempo ameno; são as brisas suaves; são as pessoas que passeiam ou se deitam na relva ou se sentam nos bancos, que conversam em várias línguas ou merendam, que se divertem nos equipamentos ou com a água, que, simplesmente, contemplam tudo o mais, especialmente o deslizar do rio ou a ponte para o outro país (será para o outro mundo?); é o comboio voador que levanta o nosso olhar; é a montanha aveludada que nos protege dos ventos do norte; é o cervo que placidamente nos vigia.


É tudo isto em simultâneo que entra por nós adentro e faz acontecer o paraíso. Eu sinto-me invadido por uma leveza que evapora o passado cheio de memórias e preocupações. Só existe o presente. Nem sequer o futuro por ali se vislumbra.


Eis o paraíso na terra ou a terra do paraíso.


Vila Nova de Gaia, 16 de setembro de 2012. Revisto me 16 de outubro de 2012.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 10:03
Sábado, 18 de Agosto de 2012

 


Abri o roupeiro à procura de uma camisa. Virei, na minha direcção, uma a uma, as camisas penduradas nos cabides. À medida que as ia inspeccionando, arrastei-as, uma a uma, até ficarem todas juntas. Ainda hesitante, reparei que a penúltima tinha nas costas uma mancha de cor vermelha escura. E a mancha era recente. Não estava ali quando comecei a passar a revista. Instantaneamente, por mero instinto, olho para a mão direita e vejo o meu calo do dedo mindinho aberto e a sangrar. Não tenho outro remédio senão lavar as mãos com água estreme, secá-las e assim estancar a ferida.


Além daquele calo tenho ainda outro na mão direita. Situa-se na prega entre a falanginha e a falangeta do dedo médio. É achatado e largo. Não tenho a noção da sua idade. Talvez tenha o tempo da escrita e do desenho na minha vida.


O calo do dedo mindinho, alvo da minha atenção inesperada, é mais saliente. Está ali ancorado na dobra da falange e da falanginha, redondinho e rijo. Aguenta, em silêncio, o peso das minhas ideias e dos meus sonhos. Suporta, firme, o meu verboduto[1]. Equilibra as minhas dúvidas e reticências. Resiste aos rabiscos e sublinhados. Para ser mais específico, é o ponto de apoio sobre o qual a minha escrita, qual alavanca, tenta mover o mundo[2]. O meu mundo, convenhamos.


Em tempos, já tive calos a nascerem no princípio da tarde de sábado e a rebentarem no final do dia, espalhando a aguadilha pela palma da mão. Depois é que eram elas! Vinha a dor da fricção entre a pele esticada e a carne viva. A enxada e a cavadeira é que ficavam sempre na mesma: duras e inflexíveis.


Nos pés, os calos magoaram-me a vaidade e, às vezes, também sangraram. Isso foi aqui atrasado. Hoje são os sapatos que se adaptam aos pés. Também já não era sem tempo[3].


E a nódoa de sangue? A ver vamos.


Depois de feito o reportório dos calos continuava sem camisa, mas com a borda do calo escura e seca. De volta ao roupeiro, escolhi, como é óbvio, a camisa suja. Peguei nela com todo o cuidado e passei água fria sobre a mancha até desaparecer e diluir-se na corrente, acabando por se escoar pelo ralo do lavatório. Com o secador, a camisa ficou como nova. Imaculada.


Esqueci aquele incidente. Mas, em contrapartida, passei a lembrar mais vezes o calo do dedo mindinho. A reparar mais nele.


De quando em quando, aquela lembrança da área dura da pele que se tornou grossa e rígida como uma resposta a repetidos contactos e pressões, provocava-me a vontade de escrever, e eu, então, escrevia (como agora), logo, pressionava ainda mais o calo, que se tornava ainda mais rígido, o que me fazia pensar ainda mais nele. E assim sucessivamente. Ad infinitum.


Mas um dia, já calejado, disse:


- Basta!


E assim acabei por ficar insensível à sua presença. Deixei de o sentir. Deixei de pensar nele. Logo já não existe.


Vou ter de aguardar por novo sangramento.


Revisto em 18, 20, 21 e 22 de outubro de 2012.



[1] É o nascer de uma nova palavra por influência dos engenheiros que me rodeiam.

[2] Arquimedes descobriu o princípio da alavanca e a ele é atribuída a citação: "Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo".

[3] É uma expressão corrente na língua portuguesa. Faz parte das figuras de linguagem e consiste na afirmação de uma coisa, afirmando-se o seu contrário - esse tipo de colocação chama-se litotes.

 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 18:01
Sábado, 07 de Julho de 2012

 

O ajustamento económico tem destas coisas. Umas vão outras vêm. De um dia para o outro, melhor dizendo, numa semana, desinstalamos o telefone fixo da PT e mandamos vir outro móvel e da concorrência. Quem vai ao ar perde o lugar, dissemos os três cá em casa.

 

Por minha iniciativa, dirigimo-nos a uma loja e quisemos saber como proceder. Foi tudo muito fácil. Eram só facilidades. A aquisição do novo aparelho fez-se logo ali e veio connosco acondicionado numa caixa de cartão.

 

A substituição ficou agendada para um sábado. Enquanto não chegavam os técnicos foram sendo enviadas SMS a anunciar, para breve, a sua presença na nossa residência.

 

Chegaram, confirmaram os dados indicados na SMS e, em dois tempos: um, para se inteirarem das tomadas e, outro, para arrumarem a tralha, pois a instalação durou poucos minutos, despejaram o nosso antigo hóspede.

 

O novo inquilino passaria a ter o posto de abastecimento de energia no nosso apartamento e ficaria o resto do tempo no andar da mãe dela, mesmo por debaixo do nosso.

 

Nos dias seguintes, quando me dirigi ao piso inferior, estranhei ver a mãe dela sentada no sofá a falar ao telefone com as amigas do lado de lá, tal e qual como fazia anteriormente. Ali, naquele sítio, bem junto ao antigo poiso do telefone fixo, a conversa decorria como se nada fosse.

 

Afinal, o dom da mobilidade do aparelho que (julgávamos nós) iria alterar o lugar do diálogo com os ausentes, não tinha pernas para andar. Por isso, em respeito pelo lugar natural das coisas, o extremo do sofá deixou de ser apelidado como o lugar do telefone e passou a ser designado como o lugar da conversa.


A crise tem destas descobertas.

 

Vila Nova de Gaia, 7 de julho de 2012



publicado por Paulo Moreira Lopes às 12:24
Sábado, 30 de Junho de 2012
 

 

Estampado no colete do homem que empurra os carrinhos das compras podia ler-se: Outsourcing Paquete. (Outsourcing quer dizer de fora e dispensável) Leio e prossigo. (e sem vínculo jurídico)

 

Aproximo-me das portas de vidro automáticas, estas abrem, dou mais uns passos e deixo-me conduzir pelo tapete rolante. (Mas mais importante: sem compromisso afetivo ou efetivo)

 

Reparo em quem desce. (É indiscutível que a dignidade daquele homem foi substituída por uma inscrição, em especial pelo termo Outsourcing). Caminho mais um pouco e aproveito, mais uma vez, outro tapete rolante. (Ali não estava um homem) Reparo novamente em quem desce do outro lado. (Ali estava uma coisa que arrumava carrinhos de mão e era nessa qualidade (máquina) que era visto por aqueles que o contrataram)

 

Já estou sentado a saborear o café amargo da Sical (0,50€) e a folhear o jornal. (No tempo dos romanos o senhor tinha sobre o escravo o ius utendi, fruendi et abutendi, isto é, o direito de usar, gozar e dispor)

 

Não consigo ler nada de jeito. (O escravo, hoje, é o Paquete). Levanto-me e venho-me embora frustrado.

 

Desta vez sou eu a descer pelos tapetes rolantes.

 

Cá fora não vejo o Paquete. Quase o esqueço. Volto a ser guiado por outra passadeira deslizante que me arrasta para o interior da garagem subterrânea. No pavimento firme avisto o Paquete a arrumar os carrinhos dispersos. Tento olhá-lo de frente, mas os seus movimentos são esquivos e automatizados. Furta-se ao confronto. Voluntaria ou involuntariamente? Não consigo decifrar. Deixo-o para trás. Saio do parque e paro nos semáforos. (Para ele, que carrega às costas a condição, para mim e para todos aqueles que a leram e vão continuar a ler, a mensagem transmitida é curta e cruel: vós sois coisas dispensáveis).

 

Chego a casa e dirijo-me ao computador para arrumar a cabeça. (Trata-se de uma advertência para levar a sério?) Teclo as ideias dispersas e, tal como o Paquete, empurro-as articuladas por aqui abaixo:

 

O PAQUETE

 

Estaciono o carro no parque subterrâneo. Caminho em linha reta até à saída. Vejo, a dirigir-se para a passadeira rolante, um homem a empurrar carrinhos de compras encaixados uns nos outros.

 

Aproveito a boleia e sigo atrás dele. Nas costas do colete pode ler-se Outsourcing Paquete, o que me pareceu despropositado e até humilhante. Talvez por isso, num relance, pois a viagem foi curta e o homem logo desapareceu no cimo da passadeira, creio ter visto as costuras do colete de fora. Tinha de o avisar.

 

À superfície o homem inverte a marcha e os carrinhos gingam como os autocarros articulados. No final da manobra, dá de caras comigo.

 

- Tem o colete do avesso! – Digo-lhe de modo discreto.

 

Ele fixa-me o olhar e o rosto contrai-se. Naquele instante sinto que não me observa, que se limita a refletir sobre a minha advertência. De seguida, como que a consciência de si vem à tona das pupilas. Os olhos, quais dois ós, dilatam-se e sobre eles, em forma circunflexa, as sobrancelhas amortece-lhes o espanto. Por fim, refeito da novidade, o rosto relaxa-se. O homem, então, mira-me sob o efeito dos sentimentos alternados da humildade e do desafio. Balbucia:

 

- Obrigado!

 

Enquanto dou meia volta para retomar a direção da entrada principal, ainda assisto ao homem a despir o colete. E, de costas voltadas para o Paquete, prossigo o meu destino. Vou de mãos livres e um parêntesis curvo em cada canto da boca.

 

Vila Nova de Gaia (e outros lugares), de 9 a 24 de junho de 2012



publicado por Paulo Moreira Lopes às 17:01
Domingo, 04 de Setembro de 2011

 

No fim da leitura do conto Liliana, inserto n “A Fábrica da Noite” de Cláudia Clemente, fiquei com uma sensação do tipo murro no estômago, muito em voga no linguajar português, em especial no mundo político e jornalístico. Tive falta de ar, seguida de uma dor profunda, tão profundo foi o impacte do murro.

 

Tinha lido vários contos de Cláudia Clemente, mas aquele marcou-me por muito tempo. Sempre que o vazio de ideias ameaçava aparecer, saltava-me para a mente, como se fosse uma mola, a história adulterada de Liliana. Se conduzia numa longa reta e não tinha preocupações de grande monta, pensava nela por momentos. O mesmo sucedia em casa e depois, com mais frequência, em férias.

 

Havia motivos.

 

Saiba o leitor que aquela conta, como diria A. M. Pires Cabral, baseia-se em fundamentos inverídicos, para não dizer falsos, pois é uma palavra muito forte (apesar de já dita). Não digo isto de ânimo leve, como quem atira uma atoarda a ver se cola. Afirmo por conhecimento próprio. Daí a dor imensa do soco que quase me perfurava a barriga, mesmo por cima do umbigo.

 

A história, verdade verdadinha, contada pelos seus protagonistas, sucedeu como a seguir se descreve e no melhor português que sei escrever, mas o suficiente para desmentir a Cláudia.

 

Vamos então, antes de mais, enquadrar o momento e o local em que soube, por boca própria, os contornos de tão encantador relato dos antecedentes de uma relação amorosa em vias de se consagrar no altar de uma igreja sita nos arredores do Porto.

 

Eu e a minha mulher integramos o Centro de Preparação para o Matrimónio (CPM), na vigararia de Vila Nova de Gaia. De tempos a tempos, somos convocados (creio que é o termo correcto), para reunir, acompanhados de outro casal mais experiente, com noivos que pretendem contrair matrimónio pela igreja. Em várias sessões, no mínimo cinco, encontramo-nos na paróquia de Mafamude com os candidatos ao estado de casado, na dificílima, digo, grandiosa, minto, na exigente tarefa de os ajudar a solidificar o seu amor à luz dos princípios da fé católica.

 

Conheci a Luísa Ana e o João Pedro num desses cursos. Seria no de Maio? Não tenho a certeza, pois acabo invariavelmente por confundir os noivos, quando não raras vezes os acasalo erradamente, salvo seja, junto temporariamente um noivo com a noiva de outro noivo (vá se lá saber porquê).

 

Apareceram ambos sorridentes e de mão dada. Pareciam dois namorados muito sequiosos do seu amor. Das cadeiras espalhadas na sala, em forma de meia-lua, escolheram as centrais, mais por vontade dela do que por ele, que ficou tentado a sentar-se nas do canto. Vinham ambos de calça de ganga e de camisa (agora já me lembro: foi no mês de Maio). A dela tinha uns bordados nas mangas. A dele tinha um padrão aos quadrados azuis muito miudinhos. Percebia-se, à distância, que eram educados e inteligentes.

 

Ele era alto, magro e moreno. O cabelo castanho e liso estava dividido do lado esquerdo, dele, por uma linha bem saliente. Não queria, mas notava-se que era tímido e, em certos momentos, nervoso. Deleitava-se a ouvir e a ver a noiva a falar.

 

A rapariga, mais baixa, também era magra e morena. Contrastava, contudo, quanto ao comportamento. Muito divertida e faladora, mais para o tagarela - tipo feminino bem vincado -, estava constantemente a mexer nos longos cabelos castanho-escuros e ondulados, partidos ao meio em ziguezague.

 

Falava com prazer, torcendo, às vezes, os lábios carnudos em sinal de mimo. Uma menina mimada com certeza!

 

Era ela que tomava a iniciativa, pelo menos ali.

 

Narrou por vontade própria, antecipando as dicas dos animadores, os motivos que os tinham levado àquelas sessões. Num ápice, sem que nos déssemos conta, passou a manipular o grupo e a falar sofregamente do início do namoro. Teve de ser contida. Em termos técnicos: teve de ser interrompida, é claro!

 

Outro casal de noivos, que não deixou passar a oportunidade, interveio a relatar a sua experiência. Entretanto, a Luísa Ana foi-se aproximando mais do João Pedro, encostou a cabeça ao seu ombro e com a mão direita livre, porque a esquerda dela dava-se à direita dele, acariciou o braço direito dele. Trocaram olhares cúmplices e lânguidos. A história estava prestes a desenrolar-se. O tempo urgia e nós estávamos todos ansiosos por conhecer tão empolgante encontro.

 

Depois de ouvidas várias versões, concedemos a palavra ao João Pedro para quebrar o seu silêncio.

 

E ele então falou e disse:

- Durante a nossa infância e a adolescência vivíamos um em frente ao outro. Eu, num prédio já antigo e apertado entre outros tantos. A Luísa Ana habitava um palacete herdado dos avós, com um muro alto a esconder um jardim denso e envelhecido. Era a menina rica da rua. Não se dava connosco, nem com outros miúdos que se visse. Ou passeava no jardim depois das aulas ou lia, ininterruptamente, à noite.

 

Neste momento, a noiva, com ar malandro, acrescentou:

- Fingia! – e prosseguiu – Para dizer a verdade, desde que me conheço que sentia um fraquinho pelo João Pedro. A única maneira de chamar a sua atenção foi fazer de conta que lia durante a noite. Lia com as persianas de madeira abertas. Ele não podia ignorar a minha presença. Alguma vez haveria de reparar em mim. E reparou!

 

Depois daquela descrição, a curiosidade era mais que muita e não pude evitar um comentário/interrogação:

- Então vocês os dois durante todo esse tempo não se falaram?

- É verdade! Eu não falava com ninguém da rua e o João Pedro também nunca me procurou. Amamo-nos em segredo ao longo da nossa infância e adolescência.

 

A afirmação, além de ser muito emotiva e piegas, era genuína. E a rapariga dizia-o com orgulho. Por sua vez, o rapaz assentiu com uma expressão cheia de ternura ao olhar meigo que ela lhe dirigiu.

 

Chegados a este ponto, estávamos todos reféns da restante fase pré-namoro. Quer os animadores, onde eu me incluía, quer os outros noivos, queríamos agora saber, afinal, como é que aqueles dois atados se teriam decidido a falar, porque o namorar, estava mais que visto, iria acontecer lá para as calendas gregas.

 

Os dois não se fizeram rogados e toca de retomar o enredo, suspenso por aquele cruzar de olhares apaixonados, os deles, e expectantes, os nossos.

 

- Ela não está a contar tudo. Eu ainda tentei chegar à fala com ela. Quis saber onde estudava, por sinal um colégio de freiras, sempre vigiada pelos funcionários e entregue e recolhida pelos pais. Até que uma rapariga lá da rua, uma tal Cláudia Clemente, gabou-se de se dar com aquela gente e de conhecer um primo da Luísa Ana. Viu-me assim muito caidinho pela nossa vizinha (era do domínio público) e, como benemérita, segredou-me que se chamava Liliana. Deve ter sido para gozar. Só pode! Não tive mais nada. Como andava na fase do desespero, nessa mesma noite, escrevi ao longo do muro do seu jardim “AMO-TE LILIANA” nas letras maiores que fui capaz de desenhar.

 

Risota total. O grupo descompôs-se. Os visados, com cara de caso, assistiam à descompressão daquele momento. Todos falavam com todos. Comentavam a inocência dele, o espanto dela e a brincadeira da outra, a amiga do primo, como se estava a ver.

 

Luísa Ana, não Liliana, não achou graça nenhuma, pois aquele incidente foi muito doloroso, uma vez que tinha assistido aos preparativos da pintura.

 

- Foi um grande desgosto de amor – balbuciou, com aquele ar de mimo, a boca torcida e o olhar fixado no chão – Passei a noite muito ansiosa para saber o que o João Pedro teria escrito no muro. Quando vejo o nome dessa Liliana, não pude acreditar. Não pude acreditar! Não era possível! Tinha descoberto que gostava de outra. Acabou-se a encenação. Nunca mais abri as persianas.

 

Ao riso de há bocado, sucedeu-se uma deceção, uma tristeza, mais nas noivas, diga-se a verdade. A situação piorava e não havia maneira deles se falarem, quanto mais iniciarem o namoro.

 

- Eu não reagi bem àquela rejeição, entre aspas (fez o gesto com os indicadores e os médios juntos das duas mãos). As persianas fechadas eram um sinal, mais do que evidente, que a Luísa Ana não correspondia ao meu sentimento. Eu fiz tudo para mostrar que era eu a escrever aquelas palavras. Ela sabia que tinha sido eu escreve-las. Se, depois disso, não se deixava mostrar, não queria que eu gostasse dela. Sempre fui muito orgulhoso. Se ela não gostava de mim, ou podia não vir a gostar, então havia que partir para outra. E assim fiz.

 

Fez uma expressão triste e prosseguiu:

- Estávamos no final do 12.º ano. Na altura das inscrições para a faculdade e, de modo a esquecer aquela perdição, escolhi o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. A situação não era assim tão má. Diziam muito bem da escola e eu tinha uns familiares na capital que me podiam ajudar. Além disso, o meu pai também me queria ver longe dali, para acabar de vez com aquela obsessão pública e notória. A minha mãe ficou triste, claro!

 

- E eu ainda mais, João Pedro! – observou ela, um pouco amuada. – Por causa do meu desgosto, pois eu já não queria viver mais naquele sítio, os meus pais acabaram por vender a casa e viemos viver aqui para Gaia, junto à praia. Quando o João Pedro regressou ao Porto, nas férias do Natal, a casa já tinha sido vendida.

 

Quebrando todas as boas regras de animação de grupos, não pudemos passar ao lado desta incrível intermitência do amor. Ninguém nos iria permitir que mudássemos de assunto. Ninguém aceitaria a vez para falar. Por isso, havia que prosseguir. O tempo escoava-se e o reencontro era aguardado.

 

- Bem, agora, todos querem saber como nos reencontramos, ou melhor, como nos encontramos, pois até aí ainda não nos tínhamos conhecido, era tudo platónico – esclareceu João Pedro.

 

- Mas antes desse dia lindo, inesquecível, muitos dias, semanas, meses e anos passaram. Toda a gente me dizia que tudo não passava de uma paixão da adolescência, passageira e fugaz. Mas quanto a mim, eu falo por mim, era algo mais sério, e também por ti, não é João Pedro? – questionou a rapariga.

 

Da parte dele, viu-se um olhar de anuência e resignação àquela certeza. Ficou-se por ali.

 

- Posso dizer – prosseguiu ela – (não é segredo nenhum), que ainda tentei namorar com outros rapazes, mas acabavam todos por ter sempre muitos defeitos. Não se pareciam nada com o meu príncipe encantado. Eram desilusões atrás de desilusões.

 

- Por mim, reconheço que ainda consegui namorar com uma rapariga, por sinal aquela que me enganou no nome da Luísa Ana. É verdade! Acabei por namorar com a Cláudia quando foi estudar cinema para Lisboa. Estávamos os dois muito sozinhos, muito distantes de casa, desamparados. Enfim, muito carentes. Mas eu sentia como que um complexo de culpa quando estava com a Cláudia, parecia que estava a trair a Luísa Ana. Explicando melhor: a minha mulher ideal que até àquela data era encarnada pela Luísa Ana. Foi uma relação fortuita. – concluiu o noivo com uma cara desgostosa e a fitar o chão com vergonha.

 

Uma noiva mais atrevida, farta daquelas deambulações sentimentais, foi direta ao assunto e questionou, para nosso alívio, quando é que, afinal, se deu o reencontro ou encontro, como se queira chamar.

 

- Foi num sábado de manhã, num centro comercial, em Matosinhos, que voltei a vê-la. Já deviam ter passado uns dez anos. Para vossa informação, foi como antes, como se nada tivesse mudado. Voltei a sentir as pernas a tremer. Fiquei durante poucos segundos a enxergar o vazio e a recordar.

 

Chegados a este ponto, diria ponto-rebuçado, os olhos das noivas arregalaram-se e os pescoços esticaram-se ainda mais para tentar avistar de frente os palestrantes. Os rapazes e homens, é que alguns já eram entradotes, mantinham-se incrédulos e refastelados nas cadeiras, até um pouco incomodados com a curiosidade das respetivas.

 

Nós, os orientadores do curso, estávamos a gostar e não víamos a maneira de descobrir o fim à história.

 

- A ti, João Pedro, tremeram-te as pernas. A mim, faltou-me o ar. Tal como antes. Mas não queiram saber a felicidade que senti. Parecia que uma nova vida iria começar. Mas não fui capaz de me aproximar. Como estávamos numa livraria, sentei-me de imediato num sofá ao calha, a fingir que lia (já tinha muita prática). Não pude contudo evitar vários relances para saber para onde é que ele ia, e como estava. Tão lindo que estava! Ainda hoje consigo descrever a roupa toda que vestia. Até que, ao contrário do que pretendia a Cláudia, ele decidiu vir ter comigo. Agora não conto mais, não sou capaz. Choro sempre.

 

Todos, de uma só vez, olharam ansiosos o João Pedro. Até os noivos. Digo com propriedade, até os noivos queriam saber como o parceiro reconquistou a rapariga.

 

- Eu também fico um bocado emocionado, mas aguento-me. Como ela dizia, eu cheguei-me ao pé dela. Foi um impulso, uma coisa mais forte que eu. Assim sem pensar. Zás. Não podia perder aquela oportunidade. Imaginei aquele momento milhares de vezes. Corri todos os centros comerciais em que havia livrarias, pequenas ou grandes, com a certeza absoluta que um dia a haveria de encontrar, solteira, casada ou divorciada, quem sabe. Mas haveria de a encontrar. Eu tinha a certeza. Como ela era maluca por livros, supunha eu, teria de os ir procurar naqueles sítios. E o momento chegou. Sentei-me ao pé dela e quando nos olhamos de frente só disse…

 

A rapariga não resistiu e chorou leve, levezinho, como quem quer passar despercebida. De olhar pregado no chão, foi limpando, com os dedos longos e delicados, as lágrimas que caiam. Umas vezes, com os dedos da mão direita, outras vezes, com os dedos da mão esquerda. Para o final, com os dedos das duas mãos. Uma ou outra rapariga também se emocionou.

 

- …só disse «AMO-TE LILIANA».[1]

 

---*---

 

Ver a versão de “Liliana” de Cláudia Clemente, in “Fábrica da Noite”, página 51, Ulisseia in http://www.revistapessoa.com/artigo.php?id=81

 

Depois de lida a versão de Cláudia Clemente poderá o leitor, agora, compreender melhor até onde pode ir a fantasia feminina quando está em causa a disputa do parceiro sexual.

 

V. N. de Gaia, Armação de Pêra e Castelo de Vide, Verão de 2011.

 


[1] A história acaba aqui. A declaração de amor coincide com a entrada na sala do Padre Emanuel Brandão para nos questionar sobre o atraso no desfecho da primeira sessão. Naquele momento não tive oportunidade de o esclarecer, o que faço agora e aqui de modo pormenorizado.

 

Revisto em 11 de novembro de 2012.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:09
Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

 

Logo que terminou a minha diligência judicial, em Penafiel, liguei-lhe para saber como estava. Lembro-me perfeitamente. Eu vinha a falar ao telemóvel na avenida principal, do lado oposto às epígrafes de Urbano Tavares Rodrigues. Tudo estava a correr bem, mas, disse-me ela, precipitada, tinha de desligar porque no outro telemóvel estava a receber uma chamada, muito provavelmente do tribunal, pois naquele dia estava de escala.


Assim seria.


Por mim, não pensei mais no assunto. Fiz a viagem de regresso com as mãos no volante, os olhos na plataforma da estrada e a cabeça no expediente que me aguardava no escritório.


Ao fim da tarde, quando íamos os três no carro para casa, na ocasião de pormos a conversa em dia, voltamos a falar da referida escala.


Eu fiz-me de ouvidor, enquanto o rapaz assumiu o papel de perguntador. Queria saber tudo sobre a convocatória da mãe para acompanhar o oficioso no tribunal. E, tim tim por tim tim, ela foi desenrolando os meandros daquela aventura judicial, com algumas interrupções para que ele pudesse ser devidamente esclarecido quanto ao modus operandi do processo. Ficou a perceber um pouco mais da legis artis da progenitora, mas sempre com novas interrogações.


Porém o dia não chegava para tudo e a conversa pedagógica cessou com a entrada na garagem colectiva.

 

Ainda dentro do automóvel, agora dirigindo-se também a mim, ela rematou o assunto com uma revelação, a qual foi precedida de um certo ênfase. Ficamos os dois curiosos. E ela prosseguiu emocionada.


Ao que parece, ou melhor, segundo o que nos informou, pois aqui o que parece é[1], estava presente no tribunal uma familiar do oficioso. Depois de concluído o serviço (com sucesso, pelos vistos), a senhora ter-lhe-á confidenciado:


- A senhora doutora não sabe o que rezei durante toda a noite para que aparecesse uma advogada como a senhora!? – e rematou – E fui atendida. Graças a Deus!


A reboque da citação pareceu-me ver os olhos dela a brilhar, mas fiz de conta, para não entornar a comoção. Saí do carro e fui abrir o portão da garagem individual.


Quando subíamos no elevador e estávamos todos mais relaxados, não pude conter a minha admiração adiada para aquele momento ascendente (que ainda hoje julgo ter sido o mais oportuno), e questionei:


- Quer dizer, então, que também estavas de escala lá em cima?


Bom, o resto não conto, pois ficou furiosa, como se eu estivesse a duvidar da versão dela, quer dizer, da senhora.


Atualizado em 27 de novembro de 2012.


[1] É como na política ou será como na religião?

 

 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 10:08
Domingo, 21 de Agosto de 2011


Fui buscá-la ao escritório no final do dia e dei-lhe boleia até ao parque de estacionamento do Seminário de “Cristo Rei”. Durante a boleia foi-me contando que tinham estado a cortar as ervas do pavimento do parque e que lhe haviam pedido para deixar o veículo em local diferente do habitual, o que fez.


Chegados ao interior do Seminário, parei junto ao carro dela e apercebi-me, imediatamente, que o vidro da frente do lado do acompanhante estava partido, mais propriamente: todo estilhaçado.


Ficamos ambos perturbados (ela mais do que eu, para ser sincero), e logo arranjei uma explicação para o sucedido: não tinha sido um acto de vandalismo ou de furto, pois o rádio estava intacto e não havia sinais do interior ter sido devassado, pelo que só poderia resultar dos trabalhos do corte da vegetação do logradouro.


E, nisto, vemos ao longe o responsável pela limpeza do parque que nos saudou e veio ao nosso encontro. Pude então reconhecê-lo como um dos ministros extraordinários da comunhão que, com muita frequência, nos acompanhava nas cerimónias religiosas em que participávamos na igreja de “Cristo Rei”.


Soubemos, depois, contado por ele, que foi surpreendido com a quebra do vidro enquanto passava a máquina de fio de corte sobre as ervas enraizadas nas juntas dos paralelepípedos. Não se apercebeu do embate de qualquer pedra no vidro, mas assumia a culpa do incidente, por uma questão de nexo causal, argumentou.


Como eu já tinha deduzido inicialmente, uma pedra do chão teria sido projectada pelos fios de corte da máquina contra o vidro do carro.

Estava tudo explicado, esclarecido e mais que visto. O que não tem remédio remediado está, pensei. Havia que esquecer o incidente e actuar.


Por isso, contactei, via telemóvel, uma empresa de substituição de vidros que constava da carta verde e logo ali ficou decidido apresentar, no dia seguinte, o veículo na oficina.


Esquecidas as culpas, muito atenuadas ou mesmo excluídas, atenta a gratuitidade do estacionamento, ficou combinado informá-lo dos futuros acontecimentos, em especial se o seguro incluí-a o pagamento de quebra de vidros que, naquele momento, ignorávamos.


À despedida quisemos saber como se chamava e o nome, com a mesma naturalidade com que estendia a mão para nos cumprimentar, não se fez esperar:


- Irmão Ribeiro.


Surpreendidos com a denominação, nada dissemos, nem revelamos estranheza.


Em casa, conversamos e decidimos que, independentemente do seguro pagar ou não a substituição, nós iríamos assumir o custo da mesma, tanto mais que tínhamos acabado de ganhar um irmão.


Ficava tudo em família, concluímos.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 00:24
Quinta-feira, 07 de Julho de 2011

 

Lisboa, 25 de Novembro de 2009

 

Meu caro A. M. Pires Cabral, vinha avisá-lo que face à inexistência de activo e passivo por parte da editora Nova Nórdica, a Conservatória do Registo Comercial de Lisboa declarou simultaneamente a sua dissolução e o encerramento da liquidação no dia 24 de Novembro de 2009. Como poderá comprovar, o atestado de óbito, com a devida comparação, foi emitido por uma autoridade competente. Dito de um modo simplista: a Nova já era.[1]


Assim, deixa V. Ex.a de ter qualquer motivo para persistir em manter nas notas à edição de “O Diabo veio ao enterro[2] referências pouco elogiosas à breve vida civil e económica da sua antiga editora. Portanto, pare de fustigar uma entidade, no caso colectiva, que cá não está para se poder defender.


Tanto mais que V. Ex.a não informou aquela Conservatória sobre eventuais créditos ou direitos que detinha sobre a sociedade, bem como se tinha conhecimento de bens e direitos de que aquela fosse titular.[3]


Sem prejuízo do acima exposto, e em abono da verdade, não posso deixar de fazer algumas confissões.


Tem razão quando afirma que Lisboa não chegou a dar conta da saída de “O Diabo veio ao enterro”, naquele ano de 1985. Efectivamente, naquela altura, a editora era composta por três doutores, os quais, a meu mando, analisavam os manuscritos e propunham a sua publicação. Foi debaixo de uma grande discussão literária que se tomou a decisão final de dar à estampa a sua obra. Foi muito custoso para todos os membros da empresa.


Eu explico porquê.


Os citados três doutores tinham acabado de chegar da faculdade de letras de Lisboa, muito habituados à linguagem conceptual e hermética do curso.


Evitando eufemismos, eram uns puristas cheios de pruridos e moralismos. Por isso, o discurso popular que perpassava no seu livro, recheado de elementos de etnoficção transmontana e condimentado aqui e ali com alguns palavrões, foi para eles um choque. Um escândalo! Todos eles se recusaram a dar letra de forma a semelhante rol de nomes feios, mas eu, como sócio-gerente, insisti. Aliás, decidi.


Devo, no entanto, reconhecer que aqueles doutores tinham alguma razão. É que o obstáculo não era só a linguagem, mas a frontalidade, rudeza e brejeirice com que as contas eram descritas. Creio que as histórias podiam ser ditas de outro modo, mais consentâneo com o pudor e a educação da maioria das pessoas. Não havia necessidade. De facto, em muitas situações estávamos ao nível do calão. E, calão por calão, é preferível o oral. Entra por um lado e sai por outro. Enquanto se for escrito: verba volant, scripta manent. Pergunto: alguém que esteja habituado a uma linguagem cuidada e expurgada de asneiras é capaz de passar o dia a trabalhar sobre um texto carregado delas? Os três doutores não se sentiram habilitados a tamanha empreitada.


Olhe, a edição coube então ao pessoal administrativo lá da casa. Mal ou bem a coisa tinha de ser feita, mesmo contra a vontade do parecer dos entendidos editoriais.


Não estranhe por isso que os trabalhos de edição tenham sido tão atribulados.


Tem também razão quando afirma que aqui em Lisboa torcemos o nariz ao livro. É verdade! Os meus funcionários quando se referiam à sua obra apertavam sempre a ponta do nariz. V. Ex.a lá saberá porquê.


Garanto, por fim, que os dois terços da tiragem não ficaram a apodrecer no armazém. Muito provavelmente devem ter sido usados… V Ex.a entende.


Nestas andanças nós, às vezes, temos necessidades. Mais não digo. É que, por este andar, corro o risco de poder sujar o lustre dos meus sapatos. Enfim, V. Ex.a, melhor do que eu, saberá como.

 

Com os meus sinceros cumprimentos e votos dos melhores êxitos editoriais,

 

Lutgardo Guimarães de Caires[4]



[1] A Editora Nova Nórdica, L.da, com o NIF 501611649, sita na Rua Ruben A. Leitão, 4-A 3º-Esqº, 1200-392 Lisboa, GPS: 38.714193,-9.149681, e Telefone: 213 471 672 foi dissolvida no dia 24-11-2009 conforme anúncio em http://publicacoes.mj.pt/Pesquisa.aspx

[2] Cfr: Nota à 2.ª Edição na página 7 de “O Diabo veio ao enterro”, de A. M. Pires Cabral, publicado por Âncora Editora, 3.ª edição, Maio de 2010.

[3] Anúncio também publicado in http://publicacoes.mj.pt/Pesquisa.aspx com data de 09-07-2009.

[4] Versão masculina da poetisa por quem se apaixonou, literariamente falando, claro, o tio Florindo. A não perder a história do tio por afinidade, julgo que literária, de A. M. Pires Cabral in “O Porco de Erimanto”, das Edições Cotovia, Abril de 2010, a páginas 244 e seguintes.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 22:02
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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