Quinta-feira, 07 de Junho de 2012
 


Era um dia luminoso de cegar, o céu estava liso, “um céu de vidro”[1] como se dizia. A manhã cansada já se tinha ajoelhado aos pés da tarde[2].

 

Mais um dia das férias grandes, daquelas que nunca acabam. Duram, duram. Daquelas que o início das aulas parece irreal de tão longínquo. Um dia em que o desejo de liberdade cavalga de rédeas soltas até à exaustão ou à asneira.

 

Estávamos em Agosto, no mês em que os ramos do salgueiro do lago tremem com a leveza da libelinha, da libelinha azul, a beber o sol pelas asas[3].

 

O lago morava mesmo ali à beira da quelha, onde os primos paravam. E à volta do lago havia um jardim em forma de gomo. E de um lado do gomo passava a nacional 15. Tantos carros em direção a Paredes, Penafiel, Amarante, Vila Real e … Bragança. E as camionetas da Cabanelas[4], em tons verde, e do Albano, em tons vermelhos. Era vê-los e vê-las passar.

 

A estrada era a tela onde se projetava continuamente um filme, umas vezes lento, outras vezes rápido e às vezes parado. O filme da saudade, da troca de olhares breves que nunca se restituíam. Até hoje.

 

Enfim, sigamos. Falemos, então, dos primos que não têm nada para fazer.

 

De tempos a tempos, os funcionários da câmara ainda apareciam para esvaziar o lago e remover o verdete. No final, era vê-los açaimar a fúria da água da companhia, e aquela, em vez de ser um rio a passar, passava a ser um espelho a reflectir[5]. Mas naquele dia, ninguém apareceu.

 

Às vezes, a fábrica de biscoitos Paupério chamava-os para acarretar as caixas de cartão espalmado. Naquele dia, ninguém lhes passou cartão.

 

Apesar disso, sentia-se o cheiro a biscoito no ar, só que nada de serviço, logo nada de raleiro. Portanto, nem uns restinhos de chocolate se podiam procurar naquele amontoado de biscoitos.

 

Por fim, ir a banhos a Couce, só com os mais velhos e esses andavam longe. Não se sabia onde.

 

Restavam os dois, ali à beira-mágoa[6], a verem-se ao espelho em forma de pêra, com um chafariz no meio. Os peixes vermelhos mal os viam, ficavam assustadiços e só se aproximavam à força de migalhas, mas não de raleiro, pois quando havia, era só para eles.

 

Até que tiveram a ideia, não se sabe quem em concreto, nem nunca se saberá, tal era a sintonia de pensamento, de navegarem no lago. De passearem de barco naquelas águas esverdeadas, tingidas pelas folhas do salgueiro.

 

Mas ali não havia nem porto, nem marina, nem barcos. Só ilusões.

 

E entre as ilusões e a pasmaceira da tarde escolheram navegar. Ora, o mais parecido com um barco ou uma barca era o gavetão da cómoda lá de casa. E porque não? Cabiam os dois?! A viagem, podia ser curta, mas ia ser bestial. Ou melhor, fantástico.

 

Primeiro foi pôr a roupa em cima da cama, depois descer as escadas com cuidadinho senão a barca ainda saía de rompante pela porta fora e, por último, chegar triunfante à sombra do salgueiro que chorava não se sabe porquê.

 

A coisa não era assim tão fácil como parecia à primeira vista. Começou logo por meter água entre as frinchas das tábuas. Mas não meteria o suficiente para se afundarem, pensaram. Não. Não seria possível. Não podia ser. Não havia mostrengo que os impedisse de realizar aquela aventura.

 

A vontade de navegar era mais forte que eles. Ali dentro do gavetão eram mais do que eles[7], eram os pequenos vagabundos[8].

 

Só que o gavetão não pôde mais. Quando parecia que ia ganhar balanço e contornar o chafariz virou. Tombaram os três nas águas mornas da pêra. Ainda bem que não estava por ali a Marion-des-Neiges[9]. Ia ser uma grande vergonha.

 

Os passageiros, que agora passaram à categoria de espectadores, assistiam refastelados à cena mais dramática daquela aventura.

 

Banho forçado à parte, ficou ao menos a consolação de, por uns pequenos, talvez breves, brevíssimos, para sermos sinceros, uns ínfimos instantes, os primos se terem convencido que era possível vencer o insustentável peso da realidade.

 

Pior seria depois para encaixar o gavetão na cómoda. Não é que a madeira tinha inchado? Por mais que se empurrasse e torcesse o gavetão não entrava.

 

Agora era pensar numa boa desculpa para aquela desarrumação. O mais novo, que fazia de Patrick[10], estava dispensado das explicações, o mais velho, o cowboy[11], haveria de desenlaçar o imbróglio.


Publicado in Histórias mal contadas 


 

[1] Expressão adaptada do conto “Mãozinhas de seda” de Raduan Nassar, inserto no livro Menina a Caminho, Edições Cotiva, página 76. Não queira o leitor saber a angústia do autor que, ao não anotar a página logo que viu a metáfora, teve de reler todos os contos do livro até finalmente a redescobrir. Em obediência ao princípio do direito natural de dar a cada um o que lhe pertence (suum cuique tribuere – Ulpiano, Digesta) nunca o autor poderia publicar o texto sem a referência à titularidade de tal figura de estilo.

[2] Adaptação do poema com o título “Meio-dia” de César Augusto Romão, in Tanto ar, Propagare, página 30.

[3] Adaptação do poema “Agosto” de Francisco Duarte Mangas e João Pedro Mésseder, in Breviário do Sol, Editorial Caminho, 2002, página 12.

[4] Hoje Rodonorte, cuja empresa remonta ao séc. XIX, mais precisamente a 1865. Nessa altura, os serviços de transporte de passageiros eram efetuados por uma diligência puxada a cavalos. Já em 1892, o poeta António Nobre, referenciava no seu poema "Só" (Viagens na minha terra) os serviços da Cabanelas. (cfr: http://www.rodonorte.pt/empresa.php)

[5]Inspirado na definição do rio Nabão por Miguel Torga, in Portugal, 7.ª edição, página 72.

[6] Adaptação de um verso de Fernando Pessoa in Mensagem, página 125, da Oficina do Livro.

[7] Este texto remete-nos para o poema de Fernando Pessoa “O Mostrengo” in Mensagem, da Oficina do Livro página 84 e 85.

[8] Naquela altura estava a ser transmitida a série juvenil Os Pequenos Vagabundos que foi um êxito retumbante entre a criançada.

[9] Era a personagem feminina da série Os Pequenos Vagabundos, que passou na RTP durante os anos 70/80. Nós, os rapazes, andávamos embeiçados pela Marion-des-Neiges, enquanto elas suspiravam (literalmente) pelo Jean-Loup.

[10] Personagem daquela série. Por ser parecido com ele, quando brincávamos, eu fazia sempre de Patrick.

[11] Personagem da mesma série.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 16:27
Domingo, 08 de Maio de 2011

 

 

 

Acordo. Estou vivo! Olho as horas no rádio despertador. 7h 13m. O dia está luminoso. É o início da Primavera. Levanto-me. Vou ao quarto de banho. Depois à cozinha. Como uma maçã. Saboreio o sumo doce. Royal gala. Um regalo! Vou tomar banho. Pego na roupa interior. Ando levezinho para não os acordar. A água tépida sabe bem. Apetece ficar mais tempo debaixo da água. Ela já se levantou. Corto a barba. O rapaz aparece estremunhado. Vai tomar banho. Eu saio. Visto-me. Hoje é dia de diligência judicial. Escolho a gravata bordeaux. Vou para a cozinha. Faço uma sande de queijo e marmelada. É mesmo bom. O leite é morno. Não posso voltar a ficar doente da garganta. Começo a ficar impaciente. Preparo o sumo para o rapaz. Ela leva-lhe o sumo. Apetece-me ir andando. Vou. O elevador chega rápido. O elevador desce como é hábito. Não encontro ninguém. Tiro o carro da garagem. O comando precisa de pilha. Mas ainda abre o portão. Paro à entrada do prédio. Aguardo. Mudo da Antena 1 para a M80. Mudo para a Star FM Valongo. Aguardo. Mudo para a Rádio Nova. A minha rádio jazz. Eles entram no carro. O trânsito está fluído. Abrando junto à António Sérgio. Dois irmãos gémeos. Tanta serenidade. Dois namorados de mão dada. Tanta ansiedade. Raparigas a fumar. Tanto exibicionismo. Rapazes com o cabelo penteado para a frente. Rapazes a abanarem a cabeça. Tanto exibicionismo. Todos com telemóvel. Sem excepção. Mudo para a Antena 1. Ainda não dá a revista da imprensa. Mudo para a M80. Passo os semáforos. Outros semáforos. Outros semáforos. Paro para eles saírem. Ele dá-me um beijo. Húmido e quente. Sabe bem. Ela insiste em acompanhá-lo até à porta do colégio. Paciência. Aguardo por ela. Mudo para a Antena 1. Ela chega. Seguimos. Ouço a revista de imprensa de João Paulo Guerra. Paro para ela sair. Sigo. Mudo para a TSF. Ouço o noticiário das 8h 30m. Aproximo-me da ponte. Tenho cuidado na curva. Abrando. Há fila. Avisto um mamarracho. Depois a Pousada do Porto. A seguir outro mamarracho. Pior é impossível. Ao meu lado segue uma rapariga. Rosto triangular e coração. Vai numa carrinha. Elas gostam de carrinhas. E de jipes. E de minis. E de Smarts. A rapariga põe-se a maquilhar. Pinta os olhos. Passa o batom. Os carros avançam. A rapariga é despachada. Desaparece. O rio está baço. São as águas de Março fechando o Inverno[1]. A encosta do freixo já não tem outdoors. Paisagem limpa. Natural. Estado de alma[2]. Sem ruído. Mas vejo ruído. Um muro com grafite. Detesto grafites. Que pena! Estou mais para lá do que para cá. A ETAR tem a relva cortadinha. Não cheira mal. Só à noite. Deixo a A20. Estou quase. Tenho cuidado com a rampa. Procuro o meu lugar. Gosto de possuir. Estou a possuí-lo. Paro. Desligo o motor. Passo a língua nos lábios. Não me sabe a nada. Mas os lábios estão pegajosos. Aperto os lábios. Colam-se um ao outro. O que têm os lábios? Já sei. É o batom dela. Do beijo dela. Do beijo que me esqueci de registar. Se não fosse o batom onde estaria a lembrança do beijo? O batom nos meus lábios é a prova da existência do beijo. Não o posso negar. Por causa do batom lembro o beijo e por causa do beijo lembro-me dela. Recordo-a. Da sua saída. Dela a passar à frente do carro. Na passadeira. A sorrir. A dizer adeus. Penso nela. Agora sabe-me bem o batom. Saio. Fecho o carro. Acordo para a realidade. Outra realidade. Assumo a pose de advogado. Penso como um advogado. Digo de mim para mim:

- Quem me visse parado dentro do carro a lamber os lábios ir-me-ia surpreender em flagrante deleite[3].(cfr: artigo 256.º do Código de Processo Penal)


Publicado in Histórias mal contadas 


[1] Adaptação de um verso da canção de Tom Jobim Águas de Março.

[2] Cfr: definição de paisagem por Miguel Torga in Portugal, 7.ª edição, Publicações Dom Quixote, página 14.

[3] Em 1929, Fernando Pessoa enviou a Ophelia Queiroz uma fotografia em que aparece a beber vinho na adega de Abel Pereira da Fonseca. Na fotografia escreve a seguinte inscrição: «Fernando Pessoa em flagrante delitro» (cfr: http://cafedassextas.blogspot.com). Trocadilhos. Qual deles o melhor?



publicado por Paulo Moreira Lopes às 00:12
Sábado, 02 de Abril de 2011

Dizem que foi fundada pelos Romanos e depois mantida, ampliada, refundada e expandida pelos Suevos, Muçulmanos, e, finalmente, pelos portugueses. Pudera! é uma das cidade mais antigas de Portugal.

 

Fica entre dois vales: o do rio Este e o do rio Cávado. Tem muitas igrejas e uma Sé. E ruas, muitas ruas e mais ruas que dão a todos os lados e a lado nenhum.

 

Quem chega e quer entrar na cidade, não sabe por onde. Hesita, contorna rotundas, atrás de rotundas e depois arrisca. O centro está algures e em parte nenhuma. Segue-se uma rua, depois outra e outra. A dada altura, andasse em círculo. É isso! É uma cidade circular.

 

Quer-se encontrar a baixa e ela move-se. Anda entre o Campo da Vinha, a rua do Castelo, a Praça da República (Arcada) e a Avenida da Liberdade. Ninguém a agarra.

 

E depois está toda furada. Com túneis e salões subterrâneos, onde se guardam carros e de onde saem homens e mulheres que se elevam à superfície com malas na mão ou puxadas sobre rodas.

 

Caminha-se e a seguir a uma esquina não aparece uma praça ampla ou um descampado. O espaço visível à nossa frente é curto demais para podermos espreguiçar o olhar. Não dá para nos enquadrar na paisagem. Nem com o sol, nem com a lua a ajudar. O melhor é fazer o trajeto de regresso antes que nos percamos nalguma igreja ou porta aberta.

 

E se tivermos que pleitear e subir as escadas do Palácio de Justiça vamos ficar irritados e perturbados com a escassez do chão dos degraus. Se tivermos que consultar um processo e aceder ao interior das secções ficaremos deslumbrados com a sinuosidade e o desnível dos corredores. São provas à nossa capacidade de resistência ao non sense daquela mui ilustre arquitetura.

 

A desorientação barroca contagiou toda a cidade. Andam todos de cabeça perdida. Os residentes andam com a cabeça à roda, os forasteiros põem as mãos na cabeça.

 

Chegados a este ponto (não retorno?) faço minhas, com a devida vénia, as palavras de Hipidroxérnus: “não se poderá jamais ordenar a vida de uma comunidade se as pessoas continuarem a se mover num labirinto de vielas e becos imundos, e a residir em casarios confusos, anarquicamente edificados”.[1]

 

Cá para mim, talvez tenham de pedir ajuda a nomes famosos como Renler e Tasco, especialistas em psicanálise de cidades, novo ramo da ciência urbana, decorrente das patologias citadinas diagnosticadas ultimamente.[2]

 

Mas descansem os mais céticos. Tudo se resolverá. Não se sabe quando, exatamente, a cidade não escapará ao aluimento do seu núcleo como consequência direta e necessária do esfarelar do cimento podre dos buracos. O material tem sempre razão e não é eterno. As igrejas, monumentos, portas abertas e fechadas serão engolidas pela terra e aí nascerá um campo verde, sem vinha, onde se poderá passear e, quem sabe, pastorear algumas ovelhas sobrevivas.

 

Entretanto ainda poderemos desfrutar da sublime sensação que é deixar para trás (no caminho certo) a Roma portuguesa, saborear o alívio de não se sentir perdido e exultar com a sinalização que nos conduz a casa.

 

E depois, a espaços entre as barreiras acústicas, vislumbrar ao km 35+400 da A3 o Minho no seu esplendor: com verdura, esteios, ramadas, videiras, árvores, igrejas, casas de granito, espigueiros e a neblina esfarrapada e rasteira a acariciar os telhados vermelhos.[3]


Publicado in Histórias mal contadas 


[1] Parte do texto do conto Adrixerlinus, inserto na página 116, do livro Cidades Inventadas de Ferreira Gullar, da Ulisseia.

[2] Parte do texto retirado do conto Tuxmu inserto na página 60 do livro Cidades Inventadas de Ferreira Gullar, da Ulisseia.

[3] Este texto foi inspirado na leitura dos vários contos que compõem o livro com o título Cidades Inventadas de Ferreira Gullar, publicada pela Ulisseia (Outubro 2010). Há muito que pretendia escrever sobre a desorientação da cidade dos Arcebispos, que constitui um facto público e notório. Depois de ler aqueles contos tornou-se muito mais fácil retratar a capital do Minho. Entre a realidade e a ficção sobram desencontros devidamente justificados.

 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:06
Domingo, 20 de Março de 2011

 

 

 

Naquela segunda-feira fria de Dezembro, fui acordado pela fria luz que precede a madrugada[1].


Tinha uma diligência judicial agendada para as 9h 30m em Coimbra, mas antes queria aproveitar para pagar a assinatura anual da Revista de Legislação e Jurisprudência na Coimbra Editora, ali na rua do Arnado.


Por isso, saí bastante cedo para localizar a rua e estacionar com tempo e evitar contratempos.


Sim! porque sair na A1 em Coimbra Norte, seguir pelo IC2 e desaguar na rotunda que antecede a avenida Fernão de Magalhães, era quase certo enganar-me no trajecto. Da última vez galguei do vale pelas encostas daqueles mudos montes[2] - para ser mais directo - andei perdido na rua da Figueira da Foz e de Aveiro. Sempre que ali chego sou como um pulso sem cabeça ao volante a guiar[3]. As setas, desvios, marcas, sinais, semáforos, bandeiras, outdoors, mupis, carros, carrinhas, camionetas, camiões, motos, são tantos que fico atarantado. Eu bem quero circum-navegar em direcção à baixa, mas aquela é a rotunda das minhas tormentas. O homem sonhou, a obra nasceu e agora Deus é quem me atura[4].


Só que desta vez, ao me aproximar da saída Coimbra Norte, lembrei-me do conselho da minha colega que em Novembro último, tendo presenciado ao vivo mais um desacerto, me sugeriu a saída Sul. Decidi arriscar e segui em frente. Tirando umas hesitações antes de atravessar o rio Mondego, o trajecto pela saída Sul foi muito fácil e simples. Valeu a pena. Tudo vale a pena, quando a vontade não é pequena.[5]


É importante salientar que, por mero acaso, levava comigo um exemplar da última versão das “Histórias mal contadas” que no dia anterior tinha acabado de rever.


Quando cheguei a Coimbra, um frio vento passava por aquela fria terra[6]. O que me aguentava era o casaco tipo canadiana comprado recentemente.

Depois de umas voltas entre as ruas da Sofia, João Machado e João de Ruão, acabei por estacionar por detrás do Pingo Doce, uma viela feia e suja atribuída a Rosa Falcão. E logo uma senhora, por sinal doutora.


A pé calcorreei as mesmas ruas. Primeiro cumpri a minha obrigação pecuniária. A seguir deambulei entre varas e juízos até atinar com a secção e dar por satisfeita a minha outra obrigação: a profissional.


No regresso ao carro, a meio caminho entre o Palácio de Justiça e a Torre Arnado Business Center, na rua Dr. Manuel Rodrigues, entretive-me junto à paragem de autocarros a ver as gordas das primeiras páginas encavalitadas no quiosque instalado à entrada de um edifício. Não sei porquê – ainda hoje não encontro explicação para o sucedido -, olho para o meu lado esquerdo e avisto ao virar da esquina, vindo da rua da Sofia, um sujeito alto, seco de carnes, magro como um espeto e carrancudo, todo embrulhado num sobretudo. Aquele nariz adunco e queixo saliente eram-me familiares. Aquele perfil de contrabandista espanhol dizia-me qualquer coisa, quer dizer, já tinha dito.


Entretanto, aproxima-se e fica ao meu lado a apreciar as últimas.


A dada altura passa um estranho e salva-o:

- Bom dia doutor!


Ele retribui, mas de forma abreviada, sem atribuir qualquer título.


Ora ali estava eu diante do otorrinolaringologista Adolfo Correia da Rocha, que também usava o nome de Miguel Torga.


Ganhei coragem e perguntei-lhe se estava interessado em dar uma olhadela à minha primeira obra. Quis saber se era possível perder um pouco do seu tempo contado para comentar aquelas quatro histórias (se calhar mal contadas).


- Não me importo! Só espero que valha o acaso.


Enquanto me acompanhava ao carro foi-me dizendo que era contra os caçadores de autógrafos, que o seu forte era mesmo o ser do “contra”, mas que nunca tinha feito uma tratantice a um colega das letras[7]. Ainda bem! pensei eu.


Dei-lhe um exemplar de capa branca, sem qualquer mácula. Guardou-o no bolso largo e fundo do sobretudo e despedimo-nos sem mais. Não havia mais nada para dizer, não fosse ele melindrar-se com alguma observação inocente da minha parte.


Encetei a viagem de regresso cismento com o encontro e curioso em saber a opinião daquele pintor frustrado (foi ele quem me contou).

A resposta não tardou, veio direitinha pelo correio plasmada numa folha branca e com letra de máquina.


 

          “Coimbra, 13 de Dezembro de 2010

 

Meu prezado Camarada:

 

          Muito agradeço o exemplar do seu livro “Histórias mal contadas”. Li-o logo que cheguei ao consultório.

          Li-o e gostei dele. A sua sensibilidade é de tipo igual à do José Régio – é confundida, em si mesma, com a inteligência. O que em si é ainda por aperfeiçoar é o modo de fazer uso dessa sensibilidade. Há que separar mais os dois elementos, que naturalmente a compõem; ou que confundi-los ainda mais. Uma análise instintiva que coloque a sensibilidade desintelectualizada perante a inteligência dessensibilizada, em contraste, diálogo e reparo; ou uma síntese em que desapareçam os traços de haver dois.

          Não creio impossível que qualquer, ou ambos, destes processos sejam por si atingidos num futuro próximo da sua consciência de si mesmo.

          Intelectualmente – e portanto artisticamente – falando (a arte não é mais que uma manifestação distraída da inteligência), a sensibilidade é o inimigo. Não o inimigo que se nos opõe, como na guerra, mas o inimigo a quem nos opomos, como no amor. Há que vencer, pois, não por esmagamento, mas por sedução ou domínio. Chamar a sensibilidade para dentro da casa da inteligência; ou fazer a inteligência montar casa externa à sensibilidade. Imagens? Como o universo…

          Mas, em suma, gostei do seu livro, e por ele o felicito.

Com a melhor camaradagem e apreço,

Miguel Torga[8]

         

Apesar das felicitações, não gostei da comparação com José Régio, nem da brincadeira das imagens.

 

- Ia eu agora – um ser inteligente - montar casa externa à sensibilidade!? - Desabafei.

 

Por isso, não esperou pela demora e na volta do correio escrevi-lhe simplesmente:

 

         A “consciência de si mesmo” num escritor, quando tomada num sentido exagerado, como o seu, aniquila toda a expressão sincera e desconcertante.

          E qualquer elevação num escritor de tal ordem, é convencional e flagrantemente postiça.”[9]

 

Escrevi “postiça” a negrito e sublinhado, propositadamente, para realçar a minha profunda discordância quanto ao conceito de literatura perfilhado. Não obstante estarem preenchidos os requisitos previstos no artigo 502.º do C.P.C., até à data, não houve lugar a réplica.

 

Assim, da próxima vez que for a Coimbra vou ver se o encontro de novo e, quem sabe, surpreendê-lo num dia a “favor”.

 

Publicado in Histórias mal contadas



[1]Adaptação de um verso de Fernando Pessoa do poema “Viriato” in Mensagem, página 37, da Oficina do Livro.

[2]Do poema “Fernão de Magalhães” in Mensagem, página 93, da Oficina do Livro.

[3]Idem.

[4]Do poema “Infante” in Mensagem, página 79, da Oficina do Livro.

[5]Do poema “Mar português” in Mensagem, página 97, da Oficina do Livro.

[6]Do poema “D. Fernando, Infante de Portugal” in Mensagem, página 55, da Oficina do Livro.

[7]Cfr: páginas 98 a 100 da”Fotobiografia de Miguel Torga”, de Clara Rocha, da Publicações Dom Quixote.

[8]Adaptação da carta de Fernando Pessoa dirigida a Miguel Torga in “Fotobiografia de Miguel Torga”, de Clara Rocha, da Publicações Dom Quixote, página 52.

[9]Adaptação da resposta de Miguel Torga à carta de Fernando Pessoa in “Fotobiografia de Miguel Torga”, de Clara Rocha, da Publicações Dom Quixote, página 54.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 13:02
Domingo, 13 de Março de 2011

 

(Meu caro leitor, desde já te advirto que esta história é muito triste, mesmo muito triste. Tem como mote o poder de autoridade de uma mãe, viúva. Trata-se de um poder originário, contemporâneo da sua condição de progenitora, aceite pela sociedade e posteriormente convertido em Lei (cfr: artigos 1877.º e seguintes do Código Civil). À data dos factos (1978?) pareceu-me que aquele poder tinha sido exercido de modo excessivo e desproporcionado. Hoje, na qualidade de filho e de pai, penso do mesmo modo.)

 

Viviam naquela rua inclinada, exposta aos ventos do sul e à sombra húmida do amanhecer, bem no cimo da encosta do vale, no lugar dos Bacelos.

 

O pai era um homem pequenino que usava sapatos de salto alto. Longe das vistas, anunciava à vizinhança a sua chegada ou partida simplesmente com o caminhar. Muito discreto e cordial não criou animosidade com os vizinhos. A sua morte prematura sobressaltou o lugar e manchou de luto para sempre a companheira.

 

Até ao último suspiro do homem, parecia uma família feliz.

 

Deixou a mulher e quatro rapazes, de idades separadas por um ano.

 

O luto foi superado e os rapazes foram crescendo, muito pouco como os pais, mas foram crescendo.

 

Desde então o homem da casa passou a ser ela: a viúva. Triste, desconfiada, severa e cruel trazia os rapazes com rédea curta. Nenhum lhe escapava ao poder de autoridade: umas vezes em forma de berros, ameaças, outras em forma de cinto e fivela, bem espalhadas pelo corpo indistintamente.

 

O povo tinha dó daquela canalha que crescia ao sabor da dor e da angústia. Mas nada podia fazer. Todos respeitavam a mulher que era como um pai para os pequenos.

 

O mais novo e mais franzino, começou por jogar à bola na baliza, pois à falta de melhor era sempre a vítima para o lugar que ninguém queria. Os jogos corriam sempre bem para ele. As duas pedras que simulavam a baliza beneficiavam-no. Nunca se sabia ao certo por onde teria passado a bola e a discussão sobre a posição da barra imaginária era recorrente, mas de pouca dura. Os rapazes o que queriam era jogar à bola. Para a próxima vez e de maneira a evitar dúvidas teriam de rematar bem forte de modo que passasse por debaixo do corpo do guarda-redes. Só que o guarda-redes era destemido e não tinha receio da dor das quedas no saibro ou na terra. Defendia com exuberância e sucesso.

 

Os jogos tornaram-se famosos entre as equipas do vale. O Boavista, o Vale de Achas e o Susão eram as equipas mais temidas, mas superáveis em momentos de inspiração, bastava o mais novo aparecer.

 

A viúva, no entanto, nem sempre dava o prazer à equipa dos Bacelos de ter o seu grande guarda-redes. Umas vezes porque não, outras vezes porque não convinha, o rapaz ficava em casa a cuidar da pequena horta situada nas traseiras da casa.

 

Era sempre ao sábado à tarde, entre a Primavera e o Outono, que decorriam os grandes jogos nos campos abandonados da encosta.

 

O confronto mais importante da pequenada dos Bacelos seria, porém, numa sexta-feira, por sinal santa, pois o sábado era tarde demais e o feriado vinha a calhar. O adversário era o Boavista e o local escolhido o campo da Cana [1], mais propriamente o recreio da escola primária. O rapaz não podia falhar e a mãe tinha de permitir aquela façanha.

 

Mas aquele dia seria de azar.

 

Estava tudo combinado entre as equipas para se começar às duas horas da tarde, mudava-se aos dez e acabava-se aos vinte.

 

Para o mais novo, o dia nasceu ansioso. Depois de beber o café estreme [2]pela manhã, a mãe chamou-o para lhe dizer que o queria em casa às três em ponto. Às três sem concessões.

 

Teriam de fazer tudo, mesmo tudo, para que o jogo terminasse antes das três horas, porque senão perdiam o seu guarda-redes.

 

À hora aprazada iniciou-se o jogo com muita algazarra, sempre sem árbitro, mas com observância das regras básicas e sem violência entre os contendores. Um golo dum lado, outro do outro e o resultado ia aumentando de forma lenta, ao contrário do habitual. As equipas estavam a aprender a defender-se. Quando se aproximou das três horas, ainda faltavam cinco golos para o desfecho da partida, estando o Boavista à frente. Todos estavam a par de que o filho da viúva tinha de sair um bocadinho antes das três.

 

O mais novo, perante o resultado do jogo e a iminência dos Bacelos perderem o embate, e para espanto de todos, decidiu manter-se na baliza. E foi defendendo, defendendo, até que o Bacelos passou para a frente. Estava 18-17.

 

Já passava meia hora das três, e tudo apontava para a vitória dos Bacelos.

 

Mas, de repente, surge a viúva à entrada do campo com uma chibata na mão.

 

Todos, de uma só vez, olham para a mulher. Param. Deixam a bola correr à sorte. De seguida dirigem o olhar para o filho que se encontra no extremo do campo. Este, perante as atenções de todos, olha para o chão e depois deixa cair a cabeça.

 

Um silêncio de medo amordaça a rapaziada. Os corpos suados esfriam de temor enquanto o sol é encoberto por nuvens traiçoeiras [3]que o vento vai empurrando. O sacrifício estava eminente. Para resistirem, mordem os lábios salgados.

 

De cabeça baixa, o guarda-redes abandona a baliza e caminha em direção à mãe. Abre-se uma clareira entre ambos. O percurso é feito de modo lento, sem hesitação e de olhos cravados no chão.

 

Chegado à presença da mãe, esta só pergunta:

- Não te disse para chegares às três?

 

Em ato contínuo, sem esperar pela resposta, vibra de forma enérgica e certeira com a chibata no rapaz. Este ainda tenta fugir, mas é intercetado com novas vergastadas. Rende-se. Deixa-se bater [4]. Impassível toma o caminho de regresso a casa.

 

Não há lágrimas, mas os lábios passaram a saber a vinagre.

 

Ela não olha para os rapazes e como um íman segue-o.

 

Ninguém fala. Só se ouve o silêncio.

 

Os dois descem a rampa calados, com os vizinhos a esconderem-se por detrás das vidraças. Dentro de casa a cena repete-se.

 

No campo da Cana, o jogo termina com a derrota de todos.

 

Daí por diante, nunca mais vão poder olhar de frente para o guarda-redes. O seu olhar ficou cravado no saibro, enquanto a sua alma ferida pela chibata vagueará naquela encosta do vale até que a memória dos rapazes, narrador incluído, se apague e a tinta desta folha seja safada pelo tempo.

*

Uma última, pequena, singela e enigmática nota: em Valongo, depois destes anos todos (1978?), ainda há quem afirme e jure a pés juntos, com os joelhos dobrados e as palmas das mãos encostadas uma à outra, que naquele dia, durante a noite, ouviu o pai dos rapazes subir e descer a rampa a soluçar.

 

Post-scriptum: No dia 26-02-2011, já depois de fixado este texto, tive conhecimento, em casa dos meus pais, que o guarda-redes tinha falecido em 2010. Perturbado, dirigi-me ao alpendre, olhei a serra de Santa Justa - minha confidente -, e depois de um suspiro, ambos pensamos: "Mas Deus leva os que ama/Só Deus tem os que mais ama.” (cfr: http://www.tugamusica.com/trovante-cifra-125-azul#).


Publicado in Histórias mal contadas


[1]Jogamos em vários sítios, mas nunca no lugar do Calvário. Talvez por ser um lugar muito sujeito a invasões de campo.

[2]Esta palavra esteve no banco de suplentes durante vários anos, até que ao parágrafo 15.º entrou em campo, leia-se folha. O jogo, entenda-se escrita, ficou mais genuíno, mais puro, sem misturas. Não confundir com "estrema”, sempre titular nos jogos de direito de demarcação (cfr: artigo 1353.º do Código Civil).

[3]Sempre que leio a expressão "nuvens traiçoeiras” sou tentado a ler "nuvens passageiras”, o que me remete para a canção da telenovela "O Casarão” (1976) com o título "Nuvem Passageira” (cfr: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermes_Aquino). À força de cantar e ouvir o refrão, parece que a palavra "nuvem” passou a estar associada a "passageira”.

[4]Tal como Ele, o mais novo deve obediência aos pais (cfr: n.º 2, do artigo 1878.º do Código Civil, ab initio).



publicado por Paulo Moreira Lopes às 23:19
Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

 

Foi um final de dia surpreendente.


A tarefa era morosa e se calhar árdua. Por isso tínhamos pedido reforços: mais dois adultos para o que desse e viesse. Os móveis de escritório tinham que ser levados dali para fora, mais precisamente dali para baixo. Começamos por desaparafusar as estantes com chaves universais. Mas o trabalho não rendia.


Lembrei-me então de transportar as coisas pelo elevador. Só o simples pensar na solução transmitiu-me uma sensação de alívio. O meu corpo relaxou com a perspectiva da facilidade. Fomos comparar os espaços e percebemos que seria à justa. Mesmo assim arriscamos.

 

Acondicionada a estante no interior da cabine, faltava fechar a porta e deixar ir cabo abaixo. O rapaz, como era o único que cabia no espaço livre, lá se instalou. Contudo, a porta recusava-se a fechar, apesar não ter nenhum obstáculo à sua frente. A explicação era simples: o sensor, situado um pouco no interior, incidia na estante e não fazia retorno. A máquina não tinha ordem para actuar, digo fechar. Os outros ainda desistiram. Mas eu não fiquei convencido. Se a função do sensor era proteger os utilizadores do embate inesperado da porta, em especial as crianças, ela estava cumprida e mais que cumprida. Não havia motivo para não seguir viagem. Era preciso convencer a máquina que estava tudo bem, que não havia problema. Não sendo possível o convencimento, a solução seria a ilusão.

 

Como iludir o sensor? Como enganá-lo? Parei um pouco e deixei o pensamento procurar uma solução. Eureka! O retorno do sinal só poderia ser possível com um espelho. Sim! um espelho. Era preciso um espelho. Indagou-se em tudo quanto era sítio e ele acabou por dar a cara, como quem diz, aparecer.


Regressados à posição inicial, o rapaz colocou o espelho e o logro concretizou-se: a porta fechava-se.

 

Inesperadamente, outro problema ainda mais grave se me colocou. O rapaz ia no elevador sem mim. Podia acontecer alguma avaria e ele ficava sozinho e trancado entre a estante e a parede da cabine. Ainda vi se o outro elevador estava presente, ainda me disseram que não demorava nada a chegar, mas foi impossível iludir a aflição. Desatei a correr pelas escadas abaixo sempre a convencer-me que tudo estaria bem. Foram seis andares, muitas escadas e patamares corridos com a culpa nas mãos. Tinha pensado em tudo, menos nele. Quase no final da descida ouço o elevador a abrir e chamo por ele, respondendo-me que estava tudo bem. Deixo cair a culpa, talvez no piso dois, e depressa chego à sua presença. Agarro-lhe a cabeça contra o meu peito, liberto-a e dou-lhe um beijo na testa.


- Boa MacGyver! – Disse aliviado.

 

13 de Novembro de 2010.


Publicado in Histórias mal contadas



publicado por Paulo Moreira Lopes às 00:25
Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010

 

Àquela hora chegar a casa é um tirinho.

 

Enquanto a maioria via o telejornal, nós circulávamos na A1 sem dificuldades e congestionamentos.

 

A dada altura, entre o km 300 e o 299, o trânsito começa a abrandar. Talvez fosse algum condutor menos habilidoso a embaraçar aquela fluidez. Entre os habituais fura filas e a lentidão forçada lá fomos esperando o próximo desvio.

 

Por coincidência, o dito empecilho também seguia a nossa direção.

 

Pronto! Não havia nada a fazer. Era só ter paciência, pois dentro em breve o percurso terminaria.

 

Foi no momento em que nos aproximávamos do "desmancha-prazeres” que soubemos a explicação daquela condução tão cautelosa.

 

No interior, ele ia à frente e ela atrás muito atenta ao bebé deitado na cadeirinha.

 

Para onde fossem iriam sempre assim. A cuidar do seu tesouro.

 

Aquele condutor, contrariamente ao inicialmente pensado por nós, seguia de modo que, atendendo à carga transportada, pudesse, em condições de segurança, fazer parar o veículo no espaço livre e visível à sua frente (cfr: artigo 24.º do Código da Estrada).

 

Agora, com a estrada toda livre à nossa frente, deixamos de ter pressa e pusemo-nos a pensar no tesouro que nos aguardava lá em casa.

 

20 de Junho de 2010


Publicado in Histórias mal contadas 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 22:48
Segunda-feira, 01 de Novembro de 2010

 

 

Aquele momento costuma ser mágico, relaxante e inspirador. Cheguei e escolhi a parte do banco duplo virada para a esplanada. Nas minhas costas estavam dois homens a conversar. Iniciei a leitura pelo jornal. A revista fica sempre para último. A folhas tantas, apercebi-me que o banco se abanava. De imediato pensei que estaria manco.

 

Talvez tivesse uma perna mais curta que as restantes. Mas o movimento repetia-se e agora de modo mais rápido. Concentrei-me e senti que os solavancos eram provocados pelo meu vizinho. O homem, já de idade avançada, tinha com certeza um problema de saúde.

 

Eu podia mudar de banco, mas optei por ficar. Só que não fiquei por ali. Deixei-me embalar pelos pensamentos que me conduziram ao alto mar do futuro. E vi claramente visto a possibilidade de ficar assim: vacilante.

 

Desperto para o jornal, passei a aceitar com naturalidade aquele balançar. Conclui que, afinal, estávamos os dois no mesmo barco. E desejei que aquela doença, se algum dia aportar na minha ilha, me permita flutuar com dignidade e, se calhar, descobrir novos mundos.

 

Quando cheguei a casa e me perguntaram onde estive, respondi:

- Estive no Intervalo… da realidade!


Publicado in Histórias mal contadas



publicado por Paulo Moreira Lopes às 22:15
Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

 

 

 

ELA tinha planeado aquela aquisição há algum tempo. Pediu ao cunhado - o engenhocas -, as referências do aparelho, pois sozinha não era capaz de tamanha façanha.

Foi num sábado de manhã que me entrou pela casa dentro com o olhar radiante e um sorriso a afundar-lhe as covinhas das faces. Vinha abraçada a uma caixa de cartão, enquanto o rapaz vinha atrás muito surpreendido com a alegria dela.

Mais surpreendido fiquei eu com aquela eficiência e autonomia conjugal. Contou que fora muito simples. Chegou à loja do hipermercado; deu a referência e pronto!, comprou o tão desejado aspirador de água. Acabava-se a freima dos sacos de papel.

Fomos os dois para a cozinha abrir a caixa e montar o dito aparelho: peça a peça. Tudo muito fácil.

 

AMBOS satisfeitos, eu fui tomar banho e ela dar braços à inovação. Quando ia a entrar no chuveiro chamou-me preocupada com o aparelho porque, afinal, não funcionava. Devia ter algum problema. Devia estar avariado. Com o olhar muito aflito, mostrava-me como tudo estava bem encaixado. Retirava e punha as peças. Mas o aspirador não aspirava. Fazia barulho, mas nada de puxar o pó. Olhei o depósito da água e reparei que estava quase cheio. E ela sempre a mexer nas peças. Então, sem consultar o manual de instruções, peguei no aspirador e concentrei-me no depósito. Lá estava bem visível uma linha horizontal encimada pelas letras "MAX H2O”. A água que tinha posto inundava, largamente, aquele limite.

 

OLHÁMO-NOS e rimo-nos. Ela tinha previsto tudo, menos aquele pormenor. Estava rendida aos benefícios da cooperação conjugal. Depois daquela braçada luminosa, eu já podia ir tomar banho ainda mais satisfeito. Ao largo do seu olhar, sob a precipitação, ria-me daquele golpe de visão que me tinha salvado a manhã.

 

 

 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 00:10
Domingo, 03 de Outubro de 2010

 

 

Eis o domingo do nosso contentamento.


Subíamos os dois de mão dada a rua de Sá da Bandeira. Eu satisfeito pelo dever cumprido. Ele ainda incrédulo com o sucesso da jornada.

A iniciativa fora minha. Para se completar a caderneta ou íamos à feira da Vandoma ou à Praça dos Cavalos. Ele escolheu o domingo e a visita à baixa para trocar os últimos cromos do mundial.


A aproximação ao grupo estacionado em frente ao Rivoli fez-se de modo cauteloso, mas logo que nos denunciámos como interessados na troca passámos a integrar naturalmente as transacções. O primeiro parceiro ficou-nos com mais de trinta cromos e ainda nos pagou a 0,12€ cada um por não ter "repetidos”. A seguir foi uma sequência de trocas em que cedíamos os nossos "repetidos” a outros para conferirem os que faltavam e vice-versa. O Rooney, a dada altura, ficou reservado para um miúdo que alertou o pai da nossa presença. Até que a lista começou a ficar rara de "faltosos” e os interlocutores para a troca a ausentarem-se.

 

Partimos então para a compra.


Aqui entraram em acção os homens das malas. São umas malas fundas e repletas de cromos distribuídos por centenas. Bastava dar-lhes a lista que logo descobriam os faltosos. Já quase no fim, tinha de adquirir 25 cromos a 0,20€ cada, ou seja, teria de entregar 5,00€. Ele anuiu de imediato no negócio. Não se fez rogado e num ápice tirou-me a carteira do bolso de trás das calças e levantou na caixa multibanco 10,00€. Por ele o acordo era para ser celebrado com urgência. Só que eu tinha um dilema. Iria pagar 20 cromos novos e ficava com 40 "repetidos”. Para que serviriam aqueles 40 cromos? Solução final: o vendedor ficou-me com os 40 cromos a 0,10€ cada e eu recebi 20 cromos e entreguei ainda 1,00€. Estávamos quites e ele espantado com a operação financeira.

 

Mas ainda nos faltava um cromo da colecção. Quem o poderia ter, informaram os especialistas, seria o Carlos. E tinha mesmo. Como não possuía algum para troca ofereci 1,00€, mas só aceitou 0,20€. Regras são regras.


E pronto! A caderneta estava completa.


O rapaz não cabia em si de contentamento.

- Parece impossível! Eu nem acredito! – exclamava repetidamente enquanto nos íamos afastando da Praça.

Eu, feliz pelo dever cumprido e surpreendido com tamanha felicidade, olhava-o de cima e pensava:

- Este é o domingo do nosso contentamento.

 

31 de Julho de 2010


Publicado in Histórias mal contadas



publicado por Paulo Moreira Lopes às 00:44
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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