Quinta-feira, 09 de Setembro de 2010

 


Foi uma desgraça cá em casa!


Ele estava, como de costume, no meio da sala de rabo para o ar, a folhear de trás para a frente e da frente para trás a caderneta. Colava cromos, recontava cromos, conferia cromos. Faltava muito pouco para o "soltem a parede”. De repente começa aos gritos lancinantes. O leite que a mãe lhe tinha dado para beber tinha caído sobre a caderneta. O desespero apoderou-se do seu olhar. E continuou a berrar, a berrar aflito. Fomos auxiliar a vítima.

 

A avó, alertada pelo insólito, também veio em socorro do seu menino, e muito perturbada diz:

- Compra-se uma caderneta nova e se for preciso uma caixa de cromos.


Entretanto, pai e mãe põem-se de secador em punho a tentar salvar o que resta daquele incidente. Ele vai e vem. Entra e sai da cozinha sempre na esperança de que a coisa se resolva da melhor maneira. Não há "soltem a parede” que consiga atenuar aquele sofrimento. No rescaldo, perdeu-se uma ou outra selecção sem importância, mas a Argentina, completada dias antes, estava incólume. O Ronaldo ficou um bocado estragado, o que era ultrapassável pois havia muitos repetidos. Na hora de deitar, o seu olhar era de uma profunda tristeza. Só nessa altura caímos em nós. O desgosto tinha deformado o espelho da nossa felicidade. A mãe adormeceu-o com falinhas mansas e sempre, sempre a desvalorizar aquela perda.

 

De manhã, quando voltamos a ver-nos ao espelho, uma dor cruel fez calar a nossa esperança. Continuava muito infeliz e de olhar distante.


Durante o dia a situação foi-se compondo. À hora do almoço já tinha uma caderneta nova, que se transfigurara noutra caderneta por artes de "corte e cola” das mulheres da casa. Ao fim da tarde telefonou, todo entusiasmado, a contar que o jogo estava a começar. À noite ainda teve direito a uns cromos repetidos de um menino com quem me cruzei. Desta vez não houve leite na sala e antes de terminar "soltem a parede” já dormia inundado pelas emoções fortes do dia.

 

12 de Junho de 2010


Publicado in Histórias mal contadas



publicado por Paulo Moreira Lopes às 22:08
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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