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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

21.Jan.12

Breviário das almas, de Joaquim Mestre

 

 

São histórias tristes, onde abunda a morte, natural ou provocada. O destino é certo e está escrito, ou melhor, pode ler-se nos vários sinais que se revelam subtilmente às personagens que, umas vezes, o vão ignorando, outras se esforçam por o esquecer ou então o antecipam.

 

São relatos de vidas sem palavras difíceis, esquisitas ou eruditas. As frases são curtas ou adequadamente extensas para não se olvidar o princípio. Não são complexas, nem contêm à partes ou derivações. Os comentários, juízos morais, sermões ou ditames, tão usados e abusados por outros, aqui contam-se pelos dedos de uma mão, no máximo, das duas. De repente, lembro-me: “Mas a vida era mesmo assim. (fazer a lida da casa, dar conta dos dois filhos, da burra e do porco)” (cfr: página 53); “A caça também era isso (comer, conversar, rir e beber) (cfr: página 55); “Fez o que habitualmente os homens fazem, fugiu.” (cfr: página 89) e “Como se um homem para se matar precisasse de razões.” (cfr: página 99).

 

Da leitura deduz-se que o escritor é calmo, sereno e paciente. Os textos não foram forçados. Explicando melhor: não foram formulados, reformulados e assim sucessivamente, com troca incessante de palavras (verbos e adjetivos). É que uma reflexão mais profunda sobre o discurso iria torná-lo artificial e postiço, estranho ao falar das gentes do monte e da vila.

 

Por fim, falemos, é como quem diz, abordemos a lida da casa. Sim, o modo como se arrumam os utensílios no interior da habitação, como se confeccionam as refeições e se cuida dos animais. Ora, neste breviário das almas, nos entretantos e ao ritmo da planície[1], também há lugar para relatar aquelas tarefas que despertam a vida no quotidiano, sob pena de se adormecer à espera da morte (cfr: página 50 e 100).

 

Um livro para reler e reler[2].

 

Vila Nova de Gaia, 20 de janeiro de 2011



[1] Não creio que estes textos pudessem ter sido escritos por um homem da montanha, habituado a distrair o olhar nas colinas e nos vales.

[2] João Aguiar (1943-2010) fala de um prazer quase gastronómico da leitura (cfr: Prefácio, página 13).