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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

14.Jan.13

Paizon

 

Há uns tempos a esta parte, o rapaz, para imitar os rapazes do 9.º andar (são filhos da Andrea e do Xico, passe a publicidade), começou a tratar-nos, a mim e à mãe, pelo nosso nome próprio.


Passei a ser o Paulo, ou seja, como se fosse um amigo.


Às vezes, para o irritar, respondia-lhe para ir chamar Paulo ao padrinho (é o tio e também se chama Paulo).


Hoje, ao início da tarde, depois do almoço, tive uma surpresa.


Ouvi-o chamar-me por pai. Achei estranho, confesso (não estava habituado, ou melhor, desabituei-me). Lá segui o som e dei com o meu filho (já não era amigo) na sala, ajoelhado, em frente ao aparelho da Zon.


O sinal da internet não estava disponível e ele, desesperado, vinha agora pedir ajuda ao pai. O amigo Paulo, se calhar, não deveria perceber nada do assunto. Andamos, literalmente, às voltas com o aparelho e, para tirar dúvidas, desligamos e voltamos a ligar a corrente elétrica.


Consultado o computador confirmava-se a falha, agora com o esclarecimento de que tinha ocorrido uma avaria do tipo 2.


Tive então de telefonar, na qualidade pai, para a assistência técnica e soube, de fonte segura, que tinha ocorrido um apagão aqui na zona. A incomunicabilidade ia durar até às 18h e 35m.


O rapaz ficou triste, mas conformado. Era uma questão de horas.


Eu, que havia reconquistado o estatuto de pai (será de Paizon?) e, em consequência, passado a usufruir dos privilégios a ele inerentes, é que fiquei sem saber até quando duraria o efeito do apagão que tinha ocorrido dentro do meu filho.


Vila Nova de Gaia, 13 de janeiro de 2013.

05.Jan.13

Notícias de Oletsac

 

Chama-se Anunciação, tem 85 anos, vive na rua Direita e já nos conhece há 16 anos.


Somos sempre nós quem reata a conversa suspendida desde a última visita. Voltamos a falar da animação da Vila, da saúde e da família. Soubemos, desta vez, que tinha acabado de ser bisavó de uma menina de nome Joana.


No meio daquela troca de desabafos, ouvi e registei: quando lhe custa adormecer é frequente lembrar-se de nós (já seremos um dos espíritos do lugar?).


Suspensa a conversação, fizemos a visita da praxe, sendo que desta vez fomos até Oletsac[1].


Diziam que era um mundo fantástico. Porém, ao passar a Porta da Talhada, sinceramente, não senti qualquer diferença. Para mim, a Vila e Oletsac são a mesma coisa. Aliás, o Obiólogo, o Matusalém, o Druida, o Gáveas, o Ardina e a Princesa Urraca são, há muito, muito tempo, meus amigos do peito, do coração e, como óbvio (ia a escrever Óbido), da imaginação. Vê-los por ali não foi surpresa alguma (os dedos fogem-me para nenhuma, mas a revisora cá da casa não deixa). Ia a dizer, sempre por ali andaram. Só não os via quem não podia ou, cúmulo das infelicidades, quem não queria.


É-me igual, portanto, a Vila e Oletsac, o que difere é o bilhete para entrar neste último.


Como igual continua a ser o magnetismo da Várzea da Rainha. É a paisagem que mais tranquilidade me inspira. Impressiona-me aquele mar de terra sereno. Questiono-me sempre: quem me bebe o olhar[2]?

 

 

Depois do lanche e sob um crepúsculo púrpura deixamos a Vila.


Guiados pelo cruise control fizemos a viagem de regresso entre o relato do Estoril vs F. C. Porto (TSF) e a Smooth FM (sintonizada quando o rapaz adormecia).


Não pude, contudo, deixar de pensar no desabafo da nossa antiga senhoria. Já seremos um dos espíritos do lugar? A resposta só pode ser afirmativa. E lá continuaremos a fazer-lhe companhia sempre que o sono se atrasar.


Telheiro da Praça de Santa Maria e cerca do Castelo, Óbidos, 30 de dezembro de 2012.


[1] Castelo escrito ao contrário.

[2] Verso de João Pedro Mésseder in A cidade incurável, Caminho, 1999, página 24.

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