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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

15.Mar.13

Carla Anjos


Tem as raízes em Silvares, mas cedo estendeu os ramos a Penafiel e a Matosinhos. Foi na penúltima que fez o ninho de onde agora se lança a planar sob os céus das artes plásticas. Como uma ave! dirão uns. Como um anjo! dirão outros. Como uma fada das artes! Diremos nós. E que dizer dos frutos variados que despontam em cada estação? Na essência, têm o mesmo saber, respondem todos. 

13.Mar.13

Santiagu

 

É um caso raro. Migrou ao contrário, ou seja, do litoral para o interior. Enquanto os demais saturavam no trânsito ele voava em direção à terra de Pascoaes e Souza-Cardoso. Com o lápis na mão transforma-se: tanto pode ser um engenheiro social como um carrasco. E transforma também (pode ler-se: tão bem) os outros. Ou será que os deforma? Os prémios dizem que não. Eles, os radiografados, são de todos os lados. Ele, o autor, andou e anda por muitos lados, mas é no papel que tem o seu domicílio profissional.

11.Mar.13

Limar arestas

Foi tudo muito rápido e à falsa fé.


Era sábado de manhã e estávamos os três no dentista, dentro do consultório.


Quando chegou a vez dela, como se tratava de uma simples limpeza, nem sequer dei muita atenção ao trabalho do médico. Por isso, ao contrário do habitual, não fiz muitas perguntas e entretive-me com o rapaz.


Quase no final, falaram os dois sem partilharem o assunto connosco, em especial comigo. Vi-a dar o seu assentimento gestual a uma proposta dele, cujo conteúdo me era completamente estranho. Não seria nada de importante, convenci-me. Mas foi. E muito grave, aliás.


Ela tem os incisivos superiores grandes e largos, como duas tacholas. E, além de serem mais compridos que os caninos e os restantes, tinham a base oblíqua. E foi aqui que intervieram e sem o meu consentimento.


O dentista limou as duas arestas até ficarem ao mesmo nível, ambas com um ângulo raso.


Quando os dois pensavam que me iriam agradar, tiveram um desgosto, bem menor do que o meu, é certo. Não gostei do resultado, por mais perfeito que parecesse. É que nunca me importei ou fiz caso daquela aparente imperfeição. Até achava graça (ela é que não devia achar graça nenhuma).


Para mim, era o estado de perfeição dela. E mais não digo.


Argoncilhe, Santa Maria da Feira, 2010.

10.Mar.13

Rui Santiago

 

Tudo neste homem é uma revelação. Ele próprio, enquanto ser em potência que esmaga e conforma o mundo, deixou de existir. Ele foi consumido pelo lugar onde nasceu e cresceu e pelas pessoas com quem conviveu na infância. Até o apelido se sobrepôs a qualquer veleidade nominativa. Para não falar dos olhos que mais parecem duas janelas abertas ao infinito. Quem o lê pressente que anda por aqui a pastorear, hoje nas Devesas, amanhã noutro sítio qualquer, umas vezes serra acima, outras serra abaixo, em qualquer dos sentidos: esperança adentro.

08.Mar.13

Francisco Duarte Mangas

 

Quisemos saber quem é e o que faz por aqui. A resposta veio recheada de palavras. Todas bem pesadas e bem medidas. À justa. Sem desperdício. Por serem caras? Não sabemos. O que sabemos é que o corpo que as abriga anda por cá a ouvir o rumor da imaginação dos pastores da serra de Marouço. Às vezes dedica-se à caça de grahlas e a afrontar o ladrão de palavras. É verdade! Não estamos a mangar. Confirme.

06.Mar.13

Fedra Santos

 

A princípio ainda se pensou tratar-se de um pseudónimo. Mas não. Foi uma partida que a mãe, por gostar da mitologia grega e de nomes pequenos, pregou a esta freamundense. Chamar-se-ia e dar-se-ia pelo nome de Fedra. Apaixonou-se perdidamente pela ilustração (Hipólito nunca a convenceu) e entre dois riscos, respondeu a sete perguntas que lhe colocamos via e-mail. Eis as respostas.