Domingo, 15 de Setembro de 2013

 

Odeio gavetas. É verdade. Odeio a gaveta e as gavetas. São, para mim, sinónimo de desleixo e de falta de controlo do mundo que me rodeia. É que eu tenho a certeza que estando uma coisa escondida da minha vista necessariamente a esquecerei. E se for uma coisa importante a situação é grave, muito grave.

 

Por isso, decidi, desde cedo, que as tarefas a realizar têm de estar materializadas em papel e sobre a mesa, bem perto de mim. Tenho de tocar a tarefa, ordenar as folhas e ajustar o clip, caso exista. Apalpá-la e dispô-la de maneira a ser resolvida. Tenho de vê-la constantemente até ao momento em que a ataco, a agarro bem firme com as mãos do pensamento e a resolvo. Leve o tempo que levar, não paro enquanto não estiver resolvida. Depois é um alívio levá-la para o arquivo, bem longe da vista. Fica arrumadinha.

 

As gavetas que mais odeio (nisto também há graus) são aquelas que tenho em casa e em que acumulo, dia após dia, coisas que vou recebendo no correio ou que vejo no exterior (folhetos, bilhetes de cinema, catálogos de exposições, etc). Guardo-as naqueles lugares fechados até que a coragem me chegue para as eliminar. E o dia chega. Tem de chegar, pois forço-me a revisitar tais lugares ocultos. É um sacrifício mexer naqueles pedaços da memória, optar por aqueles que irão morrer para sempre. São vários os momentos que ocorrem em contínuo: olho a coisa (geralmente papel), revisito a memória, localizo a sua história, avalio a sua necessidade na minha vida (os prós e os contra), tomo a decisão sempre sem remorsos e zás: ou rasgo-a, se for papel, ou deito-a ao lixo, se for outro objeto. Se houver hesitações durante o processo então fica em pousio, até nova monda. As que sobrevivem são mais uma vez tocadas, acarinhadas ou folheadas. Quando fecho a gaveta sinto-me em paz.

 

Com as gavetas dela e do rapaz a situação é de autêntica guerra familiar. Quando sugiro arrumações (a ele imponho) eles parecem outros, transformam-se. Olham-me furiosos e desafiam-me a manter o status quo. Acabo por vencer (com ela o convencimento, às vezes, dura dias). Depois é uma luta gaveta a gaveta, papel a papel, coisa a coisa. São negociações atrás de negociações. No final, a vitória tem um sabor muito amargo. Se, por um lado, fico sempre insatisfeito, pois, invariavelmente, acho que podíamos ir mais longe no rasganço das coisas deles. Por outro, quando fecho as gavetas deles sinto-me muito culpado. É uma situação que tenho de rever.

 

Por fim, há os casos das gavetas menos más. São aquelas em que por questões de eficiência a cada gaveta corresponde um tipo de coisas, geralmente vestuário. E se o seu conteúdo é uniforme, sem hipóteses de opção (meias todas pretas ou camisolas interiores todas brancas) então a gaveta é quase boa, quase minha amiga. Esta última situação é muito cómoda, pois se penso num objeto associo logo àquela gaveta. Não falha. Daí dizer que a gaveta é quase minha amiga.

 

A exceção a esta repulsa continua a ser o gavetão do meu primo que quase flutuava no lago. É a única gaveta de que gosto muito e da qual sinto saudades.

 

Vila Nova de Gaia, 15 de setembro de 2013.



publicado por Paulo Moreira Lopes às 22:57

 

- Pai, por que é que estás sempre a ouvir essa senhora?

 

Ele chamou senhora à Rita Lee. Soou-me tão mal! Se ao menos tivesse dito: rapariga, garota, mulher, cantora, artista ou rainha do rock em língua portuguesa. Também podia ter-lhe chamado Emília (do Sítio do Pica-Pau Amarelo)[1]. Agora senhora?!



[1] Ver entrevista ao GNT (24:20).



publicado por Paulo Moreira Lopes às 22:02
São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
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