Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

19.Out.13

A prioridade

Como sei que naquele local a entrada é muito difícil, face à intensidade do tráfego, quando fui confrontado com a prioridade sugeri-lhe, com um gesto suave, para encaminhar o outro condutor.

 

O outro agradeceu, seguiu-a, entrou na minha fila, e a prioridade, de costas voltadas para mim, passou a orientar o veículo que entretanto apareceu em sentido contrário. Este e outros que entretanto surgissem iriam ser conduzidos por ela até não ter mais ninguém para orientar e passar a encaminhar-me a mim, que pretendia virar à esquerda.

 

Eu só tinha de esperar. Enquanto isso ficaria a apreciar a habilidade da prioridade a guiar os outros condutores. Nada se perde, tudo de aproveita, pensei.

 

Mas tal não sucedeu.

 

O que subia abrandou e, com um aceno discreto, sugeriu à prioridade para me acompanhar até ao outro lado. Ela deu meia volta e ficou de frente para mim. Reparei então que já não era a mesma de quando cheguei. Tinha agora um sorriso rasgado e gestos delicados. Irradiava uma alegria cujo contágio não pude esconder. Agradeci, segui-a e alcancei a outra estrada.

 

E assim vim à minha vida contagiado pela nova prioridade.

 

Braga, 10 de outubro de 2013.

13.Out.13

Diálogos conjugais VIII

- Sobes-me o estendal, se faz favor.

- Fica a meio ou no máximo?

- Fica sempre a meio!

 

Se fica sempre a meio, por que será que a corda tem vários nós, conforme as posições? Daí a minha dúvida recorrente. Às vezes, parece que perguntar ofende.

 

Vila Nova de Gaia, 13 de outubro de 2013.

13.Out.13

O elogio

 

No meio da conversa, à distância, ela conta-me:

 

- Sabes, comprei O Livro dos Elogios. O que achas?

 

Sabe sempre bem ouvir um elogio, mesmo que seja de uma prima.

12.Out.13

Criancices


Íamos os dois em direção à rotunda dos Aviadores. Avisto no passeio o candidato independente à junta de freguesia e que acabaria por não ser eleito. Um homem muito simpático, que nos costuma cumprimentar[1] logo que entramos no seu raio de visão; sempre bem aprumado e, presumo, bem-falante, pois nunca lhe ouvi uma palavra. E comento:

 

- Ali está o nosso presidente putativo!

 

Ele reage:

 

- Por ser uma criança?

 

O rapaz, que já não é puto nenhum (a mãe diz que me passou as palhetas), às vezes surpreende-me com a pertinência das questões.


Vila Nova de Gaia, 11 de outubro de 2013.


[1] Espero que a sua não eleição não afete a sua postura dentro da comunidade.

11.Out.13

A obsessiva tirania do mental

 

Não tenho lido uma linha, mas mesmo assim, a minha cabeça não descansa suficientemente, mesmo banhando (?) os olhos na permanente tranquilidade azul da ria.

 

António Ramos Rosa, Ilha de Faro, 17 de julho de 1979, in JL de 2 a 15 de outubro de 2013, página 14.