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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

24.Dez.13

A BULA de Dezembro

 

Antes de partir em missão para a Guiné Bissau, Rui Santiago deixou-nos quatro microcontos e um poemaoração. São histórias sobre o começo e o fim, a filiação e a fraternidade, a Paz e a solução. Há ainda o relato da plantação de duas mãos cheias de milagres. As ilustrações ficaram por conta de Glória Marques. A BULA de dezembro, aproveitando a deixa do autor, é para ser lida com a demora com que se beija rosto de gente. Mas caso tenha dificuldades na leitura aconselhamos o uso de instrumento composto de lente para auxílio da vista.

 

Para fazer download basta clicar na imagem.

 

Ver criação d’ A BULA  aqui.

22.Dez.13

Voa um beijo

 

Foi um momento de revelação. Saio do quarteirão e entro na Avenida. Quando endireito o veículo e me acomodo no trânsito avisto sobre a estrada uma gaivota a voar em direção à rotunda.

 

Pois bem, no momento em que a gaivota vai a planar vejo perfeitamente desenhado a parte superior de uns lábios femininos e, imediatamente, associo aquela forma ao verso de Alexandre O´Neill: Ainda palpitante voa um beijo.

 

Vila Nova de Gaia, 22 de dezembro de 2013.

21.Dez.13

Vindima, Miguel Torga

Vasco Fernandes (Grão Vasco), Criação dos Animais

“Um cavalinho branco, que no primeiro plano iniciava o galope, deslumbrava-os (Catarina e Raul) particularmente. Irradiava dele tal pureza, que apetecia tirá-lo dali e soltá-lo num prado de erva tenra.” (página 226)

 

Desta vez[1] perdi o amor[2] ao livro. Fiz a leitura acompanhado de um lápis. Quando surgia uma palavra, frase ou figura de estilo mais interessante, sublinhava-a. Até fiz comentários à margem do texto (será o cúmulo do desamor?). Agora parece um livro de Direito. O que é certo é que os sublinhados, quais atalhos, ajudam a memória a reencontrar-se.

 

21 de dezembro de 2013.


[1] É a terceira vez que faço a leitura, sendo que as duas últimas ocorreram no outono.

[2] Edição de autor de 1994.

 

§

  

 

  

Acabei agora a Vindima. Mais uma boa colheita, é a segunda que faço, sempre com mais fruto e ainda mais saboroso. De capítulo a capítulo, com a duração adequada a podermos assentar as ideias captadas e a ganhar balanço para as vindouras, fez-se o trabalho sem cansaço nem fastio.

 

Convivi com os da Cavadinha, da Junceda e com a roga de Penaguião como se já os conhecesse há largos anos. Cada um representava, na perfeição, o seu papel numa estrutura social muito rígida, delimitada no comboio entre as carruagens de primeira e segunda, e nas quintas entre as casas do senhor e a cardenha[1].

 

Depois de bem pisados os cachos vindimados, pude ver refletido no mosto como que um manifesto contra as desigualdades sociais que tanto chocavam o de S. Martinho de Anta. Intercalado entre a denúncia das indignidades sofridas pelos de Penaguião, da hipocrisia vivida pelos Meneses e da ambição desmedida praticada pelo Lopes pude, ainda, apanhar alguns bagos de poesia. Eram versos curtos, mas prenhes de beleza que adocicavam, espaçadamente, a amargura do poviléu.

 

A paisagem e o estado do tempo impunham-se e condicionavam a vida a todos, rogados ou não, sendo que os primeiros, quando esfriava a festa pagã[2], tinham muitas saudades da Montanha. E às vezes o céu parecia solidário com as tristezas da terra. Houve até um dia em que a trovoada bradou por montes e vales, fulminou, primeiro, e alagou e arrasou, depois[3]. Tenho para mim (sou muito sugestionável) que foi uma reacção do céu à queda no abismo do infeliz do menino Alberto.

 

Vê-se que o de S. Martinho sofreu muito com as injustiças do Doiro e não podia deixar passar a oportunidade para as por a nu. Escrever este romance talvez tenha sido uma forma de aliviar a tensão, a revolta que o roía desde pequeno. Ele, que tinha visto a luz, queria abrir os olhos àquelas toupeiras de Penaguião e arredores. Coitados, andavam às turras às paredes[4].

 

E quanto ao amor, aos afetos e ao sexo? Neste aspeto há uma confusão ou fusão (talvez seja o termo mais apropriado), entre o sentimento que resulta da atração entre as pessoas, chamar-lhe-emos amor, e o bem, a verdade. Por isso, amar alguém com verdade, sem artifícios, sem segundas intenções (mais próprio dos homens que se aproveitam da ingenuidade das mulheres) é alvo de respeito e veneração pelos comparsas. Aos verdadeiros amantes tudo é consentido porque natural. Assim foi com o Gustavo e a Glória que puderam desfrutar na plenitude os benefícios de uma aventura espontânea e pura. O mesmo já não sucedeu à lorpa da Guiomar, também apelidada de pano de armar ou reca[5], que se deixou enganar pelas falinhas mansas do dr. Bruno. As más intenções do médico transformaram a perdição da menina num escândalo e numa humilhação para aquela e para a família.

 

É de admirar a clareza e sinceridade com que a história é contada, sem concessões ao facilitismo ou à ligeireza. De princípio a fim lê-se como quem vê um pedreiro a colocar pedra sobre pedra num muro de suporte. É evidente, para quem lê, que o pedreiro, em tempo corrijo para escritor, esforça-se por fazer uma obra reta, firme e perene, sem deixar de ser bela, ou melhor, por ser reta, firme e perene. E consegue-o. Palavra de escanção.

 

9 de dezembro de 2011.

[1]O Dicionário da Língua Portuguesa 2003, da Porto Editora, regista o termo cardenha, mas remete para cardanha, o vocábulo preferível. Trata-se de um regionalismo e significa «casa térrea onde os jornaleiros [trabalhadores a quem se paga um salário diário] dormem». Sobre a origem, o dicionário pergunta se vem «de cardar», dizendo que cardar vem «do lat[im] cardāre, ou de cardo+-ar». Por sua vez, cardo deriva «do lat[im] cardu-, "cardo; alcachofra"» O Dicionário Eletrônico Houaiss também registra cardenho (regionalismo de Portugal) e diz que se trata de «casebre pobre; cardanha, cardanho». Acolhe também cardanha, com significado semelhante («casa térrea e humilde»). Por extensão de sentido, também diz que é «casa onde dormem os jornaleiros». Quanto à origem, este dicionário resolve o problema considerando que é de «origem duvidosa» A forma masculina cardanho é equivalente a cardenho, mas significa igualmente «roubo de pequena monta, furto», «casa que se assaltou ou vai assaltar», «dedo, unha ("meter o cardanho")» (ibidem). in http://ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=22692 

[2]Cfr: página 8 da 5.ª edição de autor.

[3]Cfr: página 229 da 5.ª edição de autor.

[4]Cfr: página 242 da 5.ª edição de autor.

[5]Cfr: página 219 da 5.ª edição de autor.

18.Dez.13

João Pedro Marnoto

 

Para o João Pedro, o Porto, a sua cidade natal, é o seu porto de abrigo. Já navegou por muitos e variados mares (faz jus ao nome) e, nos últimos tempos, tem viajado entre Trás-os-Montes e o vale do Douro, mas regressa sempre ao lugar onde se sente mais seguro: Paranhos (por pouca soava a paramos). É a sua zona de conforto. Por influência da família, os seus interesses não se limitaram ao espaço urbano, daí a explicação das incursões pelo meio rural, que agora se revelam no seu trabalho mais recente, a cores e às vezes, poucas, a preto e branco.