Há quem queira banir do léxico do linguajar comum dos nossos comentadores, deputados, autarcas, governantes o uso dos termos "autista" ou "autismo".
Ver aqui e aqui.
Dizem os defensores daquele apelo (só apelo, por enquanto) que «não é aceitável o recurso a um termo de caracterização médica para categorizar a política. Ofende pessoas doentes, pessoas diferentes e as suas famílias. Um autista é uma pessoa com qualidades próprias que não a torna inferior a mais ninguém».
De acordo com Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, autismo é um termo medicinal e define o estado mental caracterizado pela tendência a alhear-se do mundo exterior e ensimesmar-se.
Creio que os políticos, comentadores e o público em geral não usam o termo no seu sentido pejorativo, e que consistira em qualificar outrem como doente, ou dizendo de outo modo, diferente das pessoas normais.
Sinceramente, não creio. É minha convicção que todos usam o termo, eu incluído, para definir alguém que não enfrenta a realidade, que não quer ver a verdade dos factos.
Quando Álvaro Vasconcelos escreve que “A União (Europeia) não se pode construir sem os europeus, numa espécie de autismo vanguardista.”, para um declaratário normal (incluindo autistas e familiares), não é intenção do autor ofender as pessoas portadoras daquelas características (sentido medicinal).
Resultado: temos, por um lado, as pessoas que não contactam diretamente com o mundo do autismo, para as quais o uso do termo autista ou autismo não tem qualquer sentido pejorativo [nem sequer pensaram nele (dolo eventual?)] e, por outro, os “doentes” e as suas famílias para quem aquelas palavras estão associadas à diferença e ao sofrimento.
Para estas últimas os termos carregam consigo um significado tão negativo que devia ser banido, mesmo admitindo que o mesmo contém outros significados neutros.
Levando este meu entendimento ao exagero, quer dizer que para certas pessoas o significante, ou seja, a parte física da palavra que se manifesta por sinais gráficos ou sons, deveria, ela própria, ser banida, extinta do mundo, quem sabe se na esperança de que o significado (a outra realidade) também desaparecesse.
Reconheço que o assunto é muito delicado, sendo muito compreensível a posição das pessoas que sofrem de modo direto ou indireto os efeitos desta diferença, mas tenho dúvidas quanto à legitimidade e à eficácia do apelo em banir aquelas palavras (significantes). Tenho dúvidas.
Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto, Vila Nova de Gaia, 30 de maio de 2014.
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Nem de propósito. A não perder a entrevista de Josef Schovanec que diz, de si, Je suis à L’Est!.
Vila Nova de Gaia, 8 de junho de 2014.