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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

19.Fev.12

Os Amantes e Outros Contos, David Mourão-Ferreira

 

 

É a segunda vez, este ano, que leio os contos. São oito narrativas, mas somente duas consigo recordar com clareza (O Viúvo e os Amantes). Das restantes seis ficou-me uma vaga ideia, uma lembrança de conversas com ou sobre mulheres.

 

O que mais retive das leituras foi a utilização perfeita dos sinais de pontuação, em especial das vírgulas. O lugar do sinal coincide com o fim ou início de uma ideia ou imagem que se lê. Podemos afirmar, com propriedade, que se trata de uma escrita afinada. Também me apercebi que muitas frases se iniciam pelo verbo, omitindo-se o pronome. São palavras contadas, sem desperdício e redundâncias.[1]

 

O que mais me encanta e dá prazer na leitura é a elegância (no sentido de esguio[2]) e a delicadeza do texto. Soletra-se de um modo simples e claro[3], a um ritmo vagaroso, sem pressa, quase sussurrado[4]. Indo direto ao assunto: lê-se (ouve-se) como se o autor estivesse ao nosso lado a contar-nos a história com toda a calma do mundo. Tem-se a nítida sensação de que o escritor tira prazer do que escreve e de como o escreve.

 

E quanto aos temas (o que escreve), é inegável que David Mourão-Ferreira fala do que sabe. Trata-se de um saber de experiência feita. Sem complexos ou culpabilidade assume-se como um galã. Escreve para divulgar a arte da sedução e consegue-o de modo muito fiel e convincente (como parece ter acontecido na vida real).

 

Podemos afirmar, com algum arrojo, que David Mourão-Ferreira, tal como sucedia enquanto homem, despe (risca, apaga) o texto de elementos dispensáveis (pronomes e outros), pondo a nu o essencial da mensagem que pretende transmitir. Em conclusão, o usus scribendi[5] do autor é a continuação, agora sobre o papel, da arte de sedução daquele.

 



[1] Antes da leitura destes contos, já tinha lido Tens visto o Antão e Meias de seda… de António Manuel Couto Viana e acabei por identificar algumas semelhanças entre o estilo de ambos que, diga-se, eram compagnon de route.

[2] A contribuir para esta sensação temos a forma estreita e alta do livro.

[3] A cor branca do papel também ajuda.

[4] Os parágrafos raramente são longos, o que permite relaxar o olhar no vazio da página e ganhar fôlego para a próxima investida literária.

[5] Descobri esta expressão latina no prefácio de Francisco Saraiva Fino ao Livro de Joaquim, de Daniel Faria, Edições Quasi, página 11.