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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

25.Fev.12

Antígona Vs José António Saraiva

 

 

Naquela manhã de sábado (11-02-2012) fui fazer sala para o café e passei os olhos pelo Sol (o jornal da casa[1]), dando de caras com a crónica de José António Saraiva, intitulada Um corpo e ilustrada pela imagem de Rosalina Ribeiro morta.

 

Aquando da publicação da fotografia, na primeira página do Sol, senti uma profunda repugnância pela atitude leviana e provocatória com que ofendiam a dignidade da vítima. Por isso, fui tentado a ler o que aí vinha escrito. A surpresa, primeiro, e a reprovação, depois, voltaram a mexer comigo.

 

De acordo com as palavras do autor de tal ato: "Antes do fecho da edição, elementos do Conselho de Redacção vieram pedir-me para não publicar a fotografia."

 

Afinal, José António Saraiva foi alertado pelos colaboradores (não foi um, foram vários) para a anormalidade/irregularidade/inconveniência (mais adjetivos existirão) da publicação. Teriam aqueles (católicos, ateus, agnósticos, liberais ou conservadores?) pensado como eu e a maioria das pessoas (de sensibilidade mediana?) que a publicação da fotografia, naquele sítio, ofendia a dignidade de Rosalina Ribeiro? Teriam aqueles, como eu e muitos mais (talvez bonus pater familiae?) se revisto, com sofrimento, naquele corpo inanimado e abandonado à beira da estrada (para não falar da cara cingida ao chão) e considerado indevida a manchete? Teriam aqueles (um deles seria uma mulher e chamar-se-ia Antígona?), sem consultarem previamente o livro de estilo, o código civil, a constituição da república, a declaração dos direitos do homem ou a bíblia, sentido, como senti, que aquela publicação fazia mal e deveria ser evitada?

 

A resposta só pode ser afirmativa.

 

Digam o que disserem, justifiquem como quiserem, aquele ato provoca nas pessoas um mal estar, uma incomodidade que podia ser evitada.

 

Podem alegar que não há lei que qualifique aquele ato como ilícito (criminal, contraordenacional ou civil). Podem ainda juntar pareceres dos mais eminentes juristas a defenderem a legalidade da publicação. Pode o Pleno do Supremo Tribunal de Justiça fixar jurisprudência uniformizadora (sem votos de vencido) no sentido de que a exibição daquela fotografia na primeira página de um qualquer jornal não ofende a moral e os bons costumes. Pode até o L´osservatore Romano escarrapachar a foto na primeira página.

 

Nunca, em momento algum, os colaboradores de José António Saraiva, eu e muitos mais deixaremos de considerar que aquele ato é ofensivo da dignidade humana e que podia e devia ter sido evitado. Foi um ato contra a natureza humana, interprete-se esta no sentido mais erudito ou mais popular do termo.

 

José António Saraiva sabia que ia causar dor aos familiares e amigos da vítima, bem como ao público em geral, mas, apesar de interpelado para reconsiderar a sua decisão, prosseguiu de forma livre, voluntária, firme, tenaz e irrevogável na concretização daquele propósito.

 

Depois do mal feito, ele sabe que nunca irá ser punido pelos homens que têm o poder de aplicar o direito positivo. Mas também sabe e tem plena consciência que fez mal. Sabe, por fim, que os seus colaboradores, eu e outros anónimos reprovamos aquele ato.

 

De futuro, falo por mim, resta-me evitar tudo o que aquele possa escrever ou fazer, pois, mais tarde ou mais cedo, irá reincidir e, para ser incomodado, como fui, já me basta a crueza da realidade que eu não posso evitar.



[1]Para efeitos estatísticos: fui um leitor compulsivo do Expresso (até ganhar juízo), frequente do PÚBLICO e esporádico do Sol (até passar para os escandalosos 3,00€). Vou lendo, agora, o JN (não sei até quando, pois as mudanças gráficas não combinam com o meu estilo), e o i (para aproveitar o excelente grafismo, antes que acabe).

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