Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

03.Out.10

O último cromo

 

 

Eis o domingo do nosso contentamento.


Subíamos os dois de mão dada a rua de Sá da Bandeira. Eu satisfeito pelo dever cumprido. Ele ainda incrédulo com o sucesso da jornada.

A iniciativa fora minha. Para se completar a caderneta ou íamos à feira da Vandoma ou à Praça dos Cavalos. Ele escolheu o domingo e a visita à baixa para trocar os últimos cromos do mundial.


A aproximação ao grupo estacionado em frente ao Rivoli fez-se de modo cauteloso, mas logo que nos denunciámos como interessados na troca passámos a integrar naturalmente as transacções. O primeiro parceiro ficou-nos com mais de trinta cromos e ainda nos pagou a 0,12€ cada um por não ter "repetidos”. A seguir foi uma sequência de trocas em que cedíamos os nossos "repetidos” a outros para conferirem os que faltavam e vice-versa. O Rooney, a dada altura, ficou reservado para um miúdo que alertou o pai da nossa presença. Até que a lista começou a ficar rara de "faltosos” e os interlocutores para a troca a ausentarem-se.

 

Partimos então para a compra.


Aqui entraram em acção os homens das malas. São umas malas fundas e repletas de cromos distribuídos por centenas. Bastava dar-lhes a lista que logo descobriam os faltosos. Já quase no fim, tinha de adquirir 25 cromos a 0,20€ cada, ou seja, teria de entregar 5,00€. Ele anuiu de imediato no negócio. Não se fez rogado e num ápice tirou-me a carteira do bolso de trás das calças e levantou na caixa multibanco 10,00€. Por ele o acordo era para ser celebrado com urgência. Só que eu tinha um dilema. Iria pagar 20 cromos novos e ficava com 40 "repetidos”. Para que serviriam aqueles 40 cromos? Solução final: o vendedor ficou-me com os 40 cromos a 0,10€ cada e eu recebi 20 cromos e entreguei ainda 1,00€. Estávamos quites e ele espantado com a operação financeira.

 

Mas ainda nos faltava um cromo da colecção. Quem o poderia ter, informaram os especialistas, seria o Carlos. E tinha mesmo. Como não possuía algum para troca ofereci 1,00€, mas só aceitou 0,20€. Regras são regras.


E pronto! A caderneta estava completa.


O rapaz não cabia em si de contentamento.

- Parece impossível! Eu nem acredito! – exclamava repetidamente enquanto nos íamos afastando da Praça.

Eu, feliz pelo dever cumprido e surpreendido com tamanha felicidade, olhava-o de cima e pensava:

- Este é o domingo do nosso contentamento.

 

31 de Julho de 2010


Publicado in Histórias mal contadas