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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

11.Set.12

As cortinas

 

Durante uma semana, aquando das limpezas gerais, tivemos a cozinha sem cortinas. Tudo seria normal se do outro lado da rua não existisse um outro edifício com quase a mesma altura do nosso. O último andar do prédio em frente está ao nível do nosso que é o penúltimo.


Portanto, os nossos vizinhos do outro lado da rua poderiam assistir a tudo o que acontecia na nossa cozinha. Não sei as vantagens que daí retirariam. Sei, isso sim, os inconvenientes que aquela nudez trouxe para os da casa, em especial os adultos.


Passamos todos a ter mais cuidado no modo de nos vestir (mais agasalhados).


Quanto a mim, foi uma semana em que me senti constantemente vigiado por alguém que nunca vi, pois nem sequer olhava para o exterior. Sempre que me aproximava da cozinha preparava-me mentalmente para me esmerar nos atos e evitar omissões.


Nunca, como naquela semana, deixei restos em cima do balcão para depois os despejar no saco do lixo que está na lavandaria. Eram imediatamente arrumados. Uma autêntica limpeza. Não ouve mais esquecimentos e consequentes amuos conjugais.


Durante a manhã, o pequeno almoço era tomado com muito mais calma.


À noite, o jantar era mais organizado, todos ajudavam a pôr e a levantar a mesa e conversávamos mais.


Estivemos todos à prova.


A ausência das cortinas foi real, o mesmo já não direi dos olhares dos nossos vizinhos que, seguramente, não passaram a semana toda em vigília, consecutiva ou alternada, à nossa cozinha.


Mesmo assim, a transparência de um dos palcos onde se desenrolam as cenas da nossa vida conjugal e filial afetou positivamente o nosso desempenho.


Primeiro, tomamos consciência plena dos nossos deveres enquanto membros de uma comunidade e depois quisemos cumpri-los pontualmente para benefício da mesma.


Colocadas as cortinas, deixamos de ter sobre nós os supostos olhares dos nossos vizinhos, para passarmos a ter o olhar incisivo e implacável da nossa consciência que não nos perdoa qualquer fingimento ou contradição.


Se pensávamos que estávamos mal sem as cortinas, agora estamos ainda pior com elas. É que a todo o momento podemos ser atingidos pelas esporas da culpa que nos picam a alma sem dó nem piedade.


Vila Nova de Gaia, 11 de setembro de 2012.

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