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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

16.Set.12

Vila Nova do Paraíso


Cada um de nós tem um conceito próprio do paraíso. Eu não fuja à regra. Devo dizer, aliás, que desde muito novo venho trabalhando para materializar esse lugar. Reconheço, no entanto, que esse lugar acaba por ser, afinal, um estado de alma. Uma paz interior que nos invade depois do dever cumprido.


Assim, o paraíso pode acontecer em qualquer lugar porque se instala na nossa mente e esta, por sua vez, sendo guiada pelo corpo está onde for preciso ou onde for necessário.


Só que há lugares que são propícios a que a dita paz interior aconteça. Dito de outra forma: há sítios que nos impõem o paraíso. Ele como que vem do exterior para o interior da mente.


É o que sucede sempre que vou a Vila Nova de Cerveira.


A entrada no vale e na foz do Lima e o consequente deslumbramento constitui a preparação para a viagem. A seguir, a ascensão pela A28 ao planalto sobranceiro a Viana do Castelo faz-nos aproximar do céu. Ficamos pouco tempo nas alturas e então descemos em direção ao rio Minho. De quando em quando avistamos ao longe o rio e as suas margens verdejantes. Quase no final da auto estrada temos uma descida acentuada e logo depois uma subida e outra descida que nos introduz na EN 13 sem interrupções ou constrangimentos, entenda-se portagem ou rotunda. Na nacional, o percurso é plano e a paisagem espraiada. Agora aparecem rotundas, mas a largueza das margens da estrada torna a condução aprazível.


Mas ainda não chegamos propriamente ao paraíso.


Ele só acontece ou impõe, como se queira, no parque de Vila Nova de Cerveira: é a relva fresca, o arvoredo, o rio sereno e o tempo ameno; são as brisas suaves; são as pessoas que passeiam ou se deitam na relva ou se sentam nos bancos, que conversam em várias línguas ou merendam, que se divertem nos equipamentos ou com a água, que, simplesmente, contemplam tudo o mais, especialmente o deslizar do rio ou a ponte para o outro país (será para o outro mundo?); é o comboio voador que levanta o nosso olhar; é a montanha aveludada que nos protege dos ventos do norte; é o cervo que placidamente nos vigia.


É tudo isto em simultâneo que entra por nós adentro e faz acontecer o paraíso. Eu sinto-me invadido por uma leveza que evapora o passado cheio de memórias e preocupações. Só existe o presente. Nem sequer o futuro por ali se vislumbra.


Eis o paraíso na terra ou a terra do paraíso.


Vila Nova de Gaia, 16 de setembro de 2012. Revisto me 16 de outubro de 2012.