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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

27.Set.12

A nora de Deus

 

 

Cheguei a casa e contei-lhe o que havia ouvido de meu pai:


- Um vizinho tomou conta do terreno que fica em frente à casa dos meus pais. Como o homem tinha de regar a terra e a água da companhia é muito cara, foi buscar, ao balde, água à fonte pública, ali no meio dos Bacelos. Meu pai não suportou vê-lo subir a encosta carregado com os baldes para, de seguida, os despejar nos bidões e assim armazenar a água (fez-lhe recordar coisas passadas e pesadas, por certo!). Por isso, decidiu dar-lhe água do poço de furo.


Na hora de encher os bidões com a água do nosso poço, a mulher do vizinho exclamou: «… parece que foi Deus…!»


Até aqui ela ouviu e nada disse. Continuou entretida com os afazeres domésticos e de costas voltadas para a minha conversa.


Prossegui com mais algumas peripécias e acrescentei que ao sair da casa de meus pais me cruzei com o vizinho agricultor.


Neste momento ela torce o pescoço na minha direção, fixa-me o olhar e pergunta:


- E tu não lhe disseste que eras o filho de Deus?


Respondi-lhe com um sorriso contido.


Entretanto, o tempo fez o seu caminho, a água foi fazendo maravilhas e eu fiz-me esquecido.


Hoje, passados uns meses após aquele comentário, quando cheguei a casa vindo de meus pais carregado com um saco de pencas, tomates coração de boi, vagens e abobrinhas, e sem que ela tivesse tempo para gracejos, antecipei-me:


- São frutos da encosta do vale[1] para a nora de Deus!


Na troca dos frutos restituiu-me o sorriso contido que me havia extorquido à força da graça.

 

Vila Nova de Gaia, 20 de setembro de 2012.



[1] Será o paraíso?

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