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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

05.Jan.13

Notícias de Oletsac

 

Chama-se Anunciação, tem 85 anos, vive na rua Direita e já nos conhece há 16 anos.


Somos sempre nós quem reata a conversa suspendida desde a última visita. Voltamos a falar da animação da Vila, da saúde e da família. Soubemos, desta vez, que tinha acabado de ser bisavó de uma menina de nome Joana.


No meio daquela troca de desabafos, ouvi e registei: quando lhe custa adormecer é frequente lembrar-se de nós (já seremos um dos espíritos do lugar?).


Suspensa a conversação, fizemos a visita da praxe, sendo que desta vez fomos até Oletsac[1].


Diziam que era um mundo fantástico. Porém, ao passar a Porta da Talhada, sinceramente, não senti qualquer diferença. Para mim, a Vila e Oletsac são a mesma coisa. Aliás, o Obiólogo, o Matusalém, o Druida, o Gáveas, o Ardina e a Princesa Urraca são, há muito, muito tempo, meus amigos do peito, do coração e, como óbvio (ia a escrever Óbido), da imaginação. Vê-los por ali não foi surpresa alguma (os dedos fogem-me para nenhuma, mas a revisora cá da casa não deixa). Ia a dizer, sempre por ali andaram. Só não os via quem não podia ou, cúmulo das infelicidades, quem não queria.


É-me igual, portanto, a Vila e Oletsac, o que difere é o bilhete para entrar neste último.


Como igual continua a ser o magnetismo da Várzea da Rainha. É a paisagem que mais tranquilidade me inspira. Impressiona-me aquele mar de terra sereno. Questiono-me sempre: quem me bebe o olhar[2]?

 

 

Depois do lanche e sob um crepúsculo púrpura deixamos a Vila.


Guiados pelo cruise control fizemos a viagem de regresso entre o relato do Estoril vs F. C. Porto (TSF) e a Smooth FM (sintonizada quando o rapaz adormecia).


Não pude, contudo, deixar de pensar no desabafo da nossa antiga senhoria. Já seremos um dos espíritos do lugar? A resposta só pode ser afirmativa. E lá continuaremos a fazer-lhe companhia sempre que o sono se atrasar.


Telheiro da Praça de Santa Maria e cerca do Castelo, Óbidos, 30 de dezembro de 2012.


[1] Castelo escrito ao contrário.

[2] Verso de João Pedro Mésseder in A cidade incurável, Caminho, 1999, página 24.