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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

01.Fev.13

As rotundas da ternura


Chego mais cedo do que ela. Aguardo na rotunda que o meu rapaz apareça. Não aparece o meu rapaz, mas aparece o dela. Logo que entra na rotunda corre o olhar de uma ponta à outra e outra vez, de uma ponta à outra, agora em sentido inverso. A ausência da mãe fá-lo encostar a angústia à esquina do banco. Sofro com ele a espera dela. E ela aparece com os olhos a estalar de ternura que incendeiam de ternura os olhos dele que fazem ricochete nos meus. Nisto, o meu rapaz já me está a entrar pela porta de trás a perguntar pela mãe. Digo-lhe que a vamos buscar à outra rotunda. Mas mesmo assim liga-lhe (quase nunca percebo aqueles diálogos de monossílabos). Estamos, agora, os dois noutra rotunda à espera dela. E ela aparece. Vem com os olhos a estalar de ternura para nós (?) e um pouco envergonhada (apanhei-a em flagrante!). Dá uma corrida em direção ao carro, entra e é esganada pela saudade dele. Faço-me desentendido. Quer dizer: mostro-me atento à condução. Enquanto se recompõem sinto um calafrio a percorrer-me a espinha. Tal e qual como me sucedia quando a minha mãe, para me acordar, me enfiava as mãos frias pelas costas abaixo e depois se ria, com os olhos a estalar de ternura, do meu estremunhar maternal.


Rotunda do Largo dos Aviadores e de Pádua Correia, Vila Nova de Gaia, 31 de janeiro de 2013.