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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

09.Fev.13

Do retrovisor


Paro no sinal vermelho (é quase sempre assim quando saio de casa[1]). Olho pelo retrovisor e vejo-o, entusiasmado, a comentar com ela algo sobre os carros adormecidos no stand da Mercedez. Estica o pescoço para ver melhor através da janela do lado dela, enquanto ela, de olhar vazio, o ouve sem reagir. E junta ao falar, os gestos da mão direita dele. E ela continua de olhar vazio. Não está a ver nada. Não está nem ali. Eu, com um olho no retrovisor e outro no semáforo, aguardo ordem de partida. Passa a verde e avanço. Estou a chegar ao outro semáforo, também com sinal vermelho e, outra vez pelo retrovisor, vejo-os, só agora, a iniciar a descida. O tempo da ausência deles gastei-o eu a alcançar o novo semáforo[2]. Não posso é garantir se a ausência dela se prolongou por mais tempo, pois o sinal passou a verde e eu avancei.

 

Vila Nova de Gaia, 3 de janeiro de 2013.



[1] Ao Jorge Sousa Braga sucede sempre o mesmo quando chega a casa. (cfr: O semáforo vermelho in O Novíssimo Testamento e outros poemas, Assírio & Alvim, abril de 2012, página 47)

[2] Esta frase foi inspirada numa outra frase: O tempo que demorou a descrição gastámo-lo nós a chegar, da autoria de Carlos de Oliveira, in O aprendiz de feiticeiro, Assírio & Alvim, (Chuva) página 82.