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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

21.Fev.13

Azul nebulizado

 

É noite e está frio, muito frio. Estranhamente ainda não chegou o nevoeiro. Há de chegar, tenho a certeza, eu é que não vou esperar por ele. Já foi tempo em que do cimo da encosta o via inchar de mansinho como claras em castelo. Às vezes crescia tanto que me encarcerava os sonhos. Outras inundava as torres da igreja matriz e deixava à mostra duas cruzes (não bastava uma, eram duas), quais mastros do barco que eu comandava até encalhar no travesseiro, perdido de sono.

 

É noite, como dizia, e eu estou no fundo do vale. Passo sobre o rio Simão e entro na auto estrada. À força do gasóleo, subo, subo e continuo a subir[1]até atingir a garganta da serra e, de um só trago, ser engolido pela voracidade do outro mundo. Digo outro porque é um mundo estranho, não é o mundo onde vivi diariamente até aos 29 anos e que me formou.

 

Enfim, com isto tudo já estou na praça da portagem de Ermesinde a deslizar entre as cabines. Deixo para trás, além do vale, a Susana Félix que me sussurra, na TSF, que para bom entendedor meia palavra basta.

 

Já falta pouco, só restam mais três músicas e logo logo estarei em casa, na outra casa, para ser mais preciso.

 

Quando chego, à entrada, e sem lhe perguntar nada, ela diz-me:

- Foi há minutos[2]!

Abro a porta e por efeito da luz azulada do aparelho nebulizador, vejo-lhe (também podia ter escrito beijo-lhe) o rosto mascarado de serenidade. Não resisto e enfio, devagarinho e sob o olhar apreensivo dela, os galhos[3] da mão na floresta dourada que lhe plantei no alto da testa. E não acorda. Encalhou no travesseiro, perdido de sono (dizem-me os olhos dela). Eu é que nunca me poderia deitar sem fechar o gesto que ficou suspenso desde a hora do almoço. E ela compreendeu.

 

Valongo, Baguim do Monte, Ermesinde, Águas Santas, S. Mamede Infesta, Pedrouços, Paranhos, Campanhã, Oliveira do Douro, Mafamude e Santa Marinha, 14 de fevereiro de 2013.



[1] Ainda pensei em repetir o verbo até que o tempo da viagem coincidisse com o tempo da leitura, mas desisti, pois tinha pressa em chegar a casa.

[2] A Susana sempre tinha razão.

[3] Segundo João Pedro Mésseder, uma mão faz-se de galhos, in Versos com reversos, Editorial Caminho, 1998, página 37.