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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

18.Mai.13

Equilíbrio consistente

 

O tempo tem destas coisas, tende para o equilíbrio.

 

Há uns anos atrás, mais de quatro, depois de terem ocorrido vários assaltos na garagem coletiva decidimos reforçar o fecho da porta da nossa garagem individual. Além da fechadura existente, acrescentamos uma outra em que o linguete entrava pelo chão adentro.


Para nossa surpresa, desde aquele dia, a porta basculante deixou de ficar imediatamente suspensa quando empurrada até cima. Passou a descair logo que chegava ao limite. Por isso, se eu estava sozinho, tinha de a segurar até que finalmente se equilibrasse (dava tempo ao tempo). Nos momentos em que estava acompanhado, alguém fazia de escora enquanto tirava o carro.

 

E assim andamos anos.

 

A situação intrigava-nos. Todos os nossos vizinhos levavam a porta das suas garagens até ao cimo e aquelas, naturalmente, ficavam suspensas. A nossa? nem pensar! Criamos várias teorias, sendo que uma delas, a da ala feminina, era a de que a responsabilidade teria sido do responsável (valha a redundância) pela colocação da nova fechadura (tinha danificado qualquer coisa, dizia ela com convicção).

 

Um dia, aproveitei a presença do proprietário da garagem contígua à minha e questionei-o sobre o equilíbrio da porta dele (como é engenheiro teria mais conhecimentos sobre o assunto, pensei). Não havia truques, disse-me, enquanto subia, suspendia e descia a sua porta. Depois, a meu pedido, comparamos ambas as portas e verificamos que, afinal, eram iguaizinhas, sem tirar nem por, com uma exceção: a minha estava bastante oleada. Deduzimos, então, que o técnico que tinha incorporado a nova fechadura havia espalhado massa a mais nas molas, o que impedia a suspensão normal da porta quando atingia a posição horizontal (ela tinha identificado o responsável, mas não a causa).

 

- Um trabalho perfeito, sim senhor! - Dissemos em uníssono.

 

Não me restou outra alternativa senão a de esperar que a massa consistente se fosse tornando mais rígida (teria de dar tempo ao tempo).


Nesta última semana a porta prendeu à primeira. De início, a medo, larguei-a e esperei que caísse, o que não sucedeu. Nos dias seguintes, com confiança, logo que atingiu a posição horizontal, soltei-a e entrei à vontade para o carro.

 

Tirando os inconvenientes da situação anterior (normal, atendendo ao excesso de massa consistente), tenho de admitir e registar alguns benefícios resultantes da falta de equilíbrio da porta.

 

Por um lado, de um ano para o outro, o rapaz passou a antecipar-se à mãe e a segurar na porta (foi também uma boa maneira de nos apercebermos do seu crescimento). Por outro, pensava mais vezes em renovar, a tempo e horas, o seguro do automóvel contra todos os riscos (agora acrescia o risco do desequilíbrio). E, por último, foram momentos em que reforcei, ainda mais, a confiança no tempo como a solução para o desequilíbrio.

 

Por ter dado tempo ao tempo, ele encarregou-se de equilibrar a porta por mim.


Vila Nova de Gaia, 13 de maio de 2013.

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