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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

01.Fev.15

Atravessadouros

Biblioteca Almeida Garrett

O tempo era de chuva e o guarda-chuva tinha ficado em casa. Não tive outra alternativa. Fui sempre a correr atrás dos outros. Quando me apercebi já estava no meio do atravessadouro. De novo uma sensação de culpa. Atenuante: não tinha guarda-chuva.

 

Atravessadouro entre a entrada dos jardins do Palácio de Cristal e a Biblioteca Municipal Almeida Garrett, 1 de fevereiro de 2015.

 

§

  

   

 

Não sei desde quando, talvez desde sempre, que tenho aversão aos atravessadouros. São como uma infração ou irregularidade que não devo cometer, nem permitir que se materializem em meu redor. Na infância e adolescência, quando ia com os meus amigos passear nos campos e montes de Valongo, S. Martinho do Campo ou Rebordosa, e tínhamos que passar pelos carreiros ficava com receio de ser surpreendido pelos proprietários. Caminhava com um olho no trilho e outro nas redondezas. Tinha a consciência de que estava a ir por maus caminhos, de que não devia ir por ali, de que, em alternativa, devia seguir pelas ruas, estradas, estradões ou caminhos vicinais públicos.

 

Já em adulto a sensação repete-se. Se tenho de atravessar uma rua e está por perto uma passadeira sinto-me forçado a atravessar sobre ela e se não o faço sinto-me mal. Se tenho de contornar um jardim e vejo um atalho, raramente sigo por este e se o faço fico envergonhado.

 

Nunca tive explicação para esta atitude auto repressiva e que acaba por ser a aplicação prática do ditado popular: quem vai por atalhos mete-se em trabalhos.

 

Será uma herança normativa e social?

 

Tendo a pensar que sim, pois a alteração legislativa que aboliu os atravessadouros entrou em vigor no ano em que nasci[1]. Não sendo aquela uma resposta incontestável é, pelo menos, uma referência conjuntural que não posso renegar.

 

Vila Nova de Gaia, 24 de maio de 2013.



[1] Os atravessadouros foram abolidos em 1967, mais propriamente com a entrada em vigor do Código Civil, cujo artigo 1383.º determinou: consideram-se abolidos os atravessadouros, por mais antigos que sejam, desde que não se mostrem estabelecidos em proveito de prédios determinados, constituindo servidões.