Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

24.Jun.13

Rodapé

 

Há palavras cujo sentido(s) ganha mais sentido(s) com o correr do tempo. Vamos atrás do tempo e eis senão quando a propósito de uma atividade ou de um acontecimento a palavra fica mais preenchida, mais rica. É como se nós tivéssemos para cada palavra uma caixa[1] e fossemos guardando nela o que fossemos vendo e sentindo.


Foi o que se passou com a palavra rodapé.


Na caixa/palavra rodapé guardei, então, os seguintes significados:


1. Espécie de cortina que cobre o âmbito da cama até ao chão.

2. Barra de madeira colocada ao longo da parte inferior das paredes.

3. Faixa da madeira, na parte ínfero-interior das grades de uma janela de sacada.

4. Parte inferior das páginas de um livro, jornal ou revista.

5. [Televisão] Texto corrido que surge na parte inferior ou superior do ecrã durante a emissão de um programa televisivo.

 

Pois bem, o segundo significado (barra de madeira) acabou por incorporar o sentido da função do próprio objeto. A revelação ou epifania, como se queira, foi contemporânea das várias obras de colocação de parquê que fui assistindo nos últimos anos. Ao ser confrontado com o desalinho dos tacos junto às paredes, percebi então que a barra se destinava a tapar a feiura do remate do parquê. Ou seja, o sentido da palavra a guardar na caixa deixou ser somente o da coisa (barra de madeira), passando a incorporar também o da causa da coisa.


Assim, acrescentei um sexto sentido à palavra:


6. Forma de ocultar a feiura do desalinho dos tacos junto às paredes, ou, somente, forma de esconder a fealdade.

 

Por contribuir, sem o saber, para o embelezamento discreto dos lugares da nossa vida, é por este que tenho mais simpatia e admiração.

 

Vila Nova de Gaia e Armação de Pêra (Silves), 24 de junho de 2013.



[1] Há quem lhe chame casa. 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.