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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

21.Jul.13

À esquina do CCB

 

Da última vez que estive no Centro Cultural de Belém saí pelas traseiras passando a caminhar pela Praça do Império. Chegado à esquina do prédio, que corresponde ao início da rampa para a entrada das viaturas oficiais, percorri com o olhar o espaço circundante desde a margem do Tejo até parar na esquina do Mosteiro dos Jerónimos. Então fui surpreendido com a falta de esquadria dos dois edifícios: o CCB tinha sido implantado à frente do Mosteiro. A intrusão era de poucos metros (3/4 metros), o suficiente para não passar despercebida. Fiquei irritado.

 

Até àquele momento ninguém me tinha feito mal nenhum. Antes pelo contrário, a visita ao Museu Berardo na companhia do rapaz (as mães andavam perdidas nas restantes salas) tinha sido muito proveitosa. Foram várias dezenas de minutos repletos de boas sensações, principalmente quando contemplei o quadro de Mondrian: Tableau. Apesar do quadro conter algumas infrações aos princípios teóricos do artista (a banda preta em cima, à esquerda, não fecha completamente a superfície amarela), o que é certo, é que as linhas pretas em esquadria e as cores primárias: vermelho, amarelo e azul, deixaram-me relaxado e tranquilo. Estava tudo a encaixar na perfeição (a viagem, o estado do tempo ameno, a exposição e a companhia) até chegar à esquina do CCB.

 

O que sei é que não dei importância nenhuma à infração de Mondrian em não ter fechado completamente a superfície amarela, mas fiquei irritado com a falta de esquadria dos edifícios.

 

A diferença das reações talvez resida na diferença da dimensão das infrações: uma pequena e justificável pelo esquecimento ou rebeldia do artista (será?), enquanto a outra é tão grande que até se vê do céu (Google Earth) e constitui uma manifestação de incompetência dos técnicos na implantação da obra (erro grosseiro na abertura dos caboucos), pois se foi intencional então a situação ainda é mais grave (há dolo na ofensa ao património mundial da Unesco).

 

Valha-nos Mondrian!

 

Belém (Lisboa), Junho de 2012.

 

Post Scriptum: Ainda sobre esta zona de Belém (a mais bonita de lisboa), será que ninguém pensou em demolir o quarteirão que se situa entre a rua Belém e a rua Vieira Portuense, unindo completamente os jardins da Praça do Império e Afonso de Albuquerque?

 

Esta é outra das situações arquitetónicas que me perturbam quando estou naquele lugar, mas tolerável, admito.

 

Vila Nova de Gaia, 20 de junho de 2013.