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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

23.Ago.13

Isaac

Ele era o seu filho mais amado. O desejado. Sua mulher lho dera como recompensa pela espera. E chegara a hora do sacrifício. Era assim! Ninguém questionava. Ninguém ousava desviar-se da tradição. Dele todos esperavam que fizesse o mesmo. O sacrifício! Iria viver como morto os restos dos dias que lhe sobravam. Tinha de ser! Dividido, entre o presente e o passado, subiu a montanha com o filho a seu lado deixando para trás o povo ansioso. Lá no cimo, quando lhe pegou no braço, o menino reagiu incrédulo, piedoso. Tinha pressentido o fim e ali se despedia do pai, que ficaria com os outros. Seria assim? Então o homem abraçou a criança, deu-lhe um beijo profundo na testa e disse-lhe para ir à sua vida. A seguir desceu ao povoado. Os outros esperavam-no com a raiva nos olhos e a justiça nas mãos. O que seria agora deles? Como reagiria deus? Além disso, até àquela data, todos os pais tinham sacrificado os seus primogénitos. Ele não, porquê? Se discordava, por que não o disse? Não respondeu. O amor não se comparava: era o que vinha pensando ultimamente. Enfrentou-os, corpo a corpo, mas por estar sozinho (a mulher ficara em casa à espera da notícia da sua morte) foi incapaz de os vencer. Morreu às mãos deles. Foi o sacrificado. Isaac, que partira em sentido contrário ao da sua aldeia, nunca esqueceria o amor do Pai.

 

Vila Nova de Gaia, 22 de agosto de 2013.