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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

13.Mar.11

O guarda-redes

 

(Meu caro leitor, desde já te advirto que esta história é muito triste, mesmo muito triste. Tem como mote o poder de autoridade de uma mãe, viúva. Trata-se de um poder originário, contemporâneo da sua condição de progenitora, aceite pela sociedade e posteriormente convertido em Lei (cfr: artigos 1877.º e seguintes do Código Civil). À data dos factos (1978?) pareceu-me que aquele poder tinha sido exercido de modo excessivo e desproporcionado. Hoje, na qualidade de filho e de pai, penso do mesmo modo.)

 

Viviam naquela rua inclinada, exposta aos ventos do sul e à sombra húmida do amanhecer, bem no cimo da encosta do vale, no lugar dos Bacelos.

 

O pai era um homem pequenino que usava sapatos de salto alto. Longe das vistas, anunciava à vizinhança a sua chegada ou partida simplesmente com o caminhar. Muito discreto e cordial não criou animosidade com os vizinhos. A sua morte prematura sobressaltou o lugar e manchou de luto para sempre a companheira.

 

Até ao último suspiro do homem, parecia uma família feliz.

 

Deixou a mulher e quatro rapazes, de idades separadas por um ano.

 

O luto foi superado e os rapazes foram crescendo, muito pouco como os pais, mas foram crescendo.

 

Desde então o homem da casa passou a ser ela: a viúva. Triste, desconfiada, severa e cruel trazia os rapazes com rédea curta. Nenhum lhe escapava ao poder de autoridade: umas vezes em forma de berros, ameaças, outras em forma de cinto e fivela, bem espalhadas pelo corpo indistintamente.

 

O povo tinha dó daquela canalha que crescia ao sabor da dor e da angústia. Mas nada podia fazer. Todos respeitavam a mulher que era como um pai para os pequenos.

 

O mais novo e mais franzino, começou por jogar à bola na baliza, pois à falta de melhor era sempre a vítima para o lugar que ninguém queria. Os jogos corriam sempre bem para ele. As duas pedras que simulavam a baliza beneficiavam-no. Nunca se sabia ao certo por onde teria passado a bola e a discussão sobre a posição da barra imaginária era recorrente, mas de pouca dura. Os rapazes o que queriam era jogar à bola. Para a próxima vez e de maneira a evitar dúvidas teriam de rematar bem forte de modo que passasse por debaixo do corpo do guarda-redes. Só que o guarda-redes era destemido e não tinha receio da dor das quedas no saibro ou na terra. Defendia com exuberância e sucesso.

 

Os jogos tornaram-se famosos entre as equipas do vale. O Boavista, o Vale de Achas e o Susão eram as equipas mais temidas, mas superáveis em momentos de inspiração, bastava o mais novo aparecer.

 

A viúva, no entanto, nem sempre dava o prazer à equipa dos Bacelos de ter o seu grande guarda-redes. Umas vezes porque não, outras vezes porque não convinha, o rapaz ficava em casa a cuidar da pequena horta situada nas traseiras da casa.

 

Era sempre ao sábado à tarde, entre a Primavera e o Outono, que decorriam os grandes jogos nos campos abandonados da encosta.

 

O confronto mais importante da pequenada dos Bacelos seria, porém, numa sexta-feira, por sinal santa, pois o sábado era tarde demais e o feriado vinha a calhar. O adversário era o Boavista e o local escolhido o campo da Cana [1], mais propriamente o recreio da escola primária. O rapaz não podia falhar e a mãe tinha de permitir aquela façanha.

 

Mas aquele dia seria de azar.

 

Estava tudo combinado entre as equipas para se começar às duas horas da tarde, mudava-se aos dez e acabava-se aos vinte.

 

Para o mais novo, o dia nasceu ansioso. Depois de beber o café estreme [2]pela manhã, a mãe chamou-o para lhe dizer que o queria em casa às três em ponto. Às três sem concessões.

 

Teriam de fazer tudo, mesmo tudo, para que o jogo terminasse antes das três horas, porque senão perdiam o seu guarda-redes.

 

À hora aprazada iniciou-se o jogo com muita algazarra, sempre sem árbitro, mas com observância das regras básicas e sem violência entre os contendores. Um golo dum lado, outro do outro e o resultado ia aumentando de forma lenta, ao contrário do habitual. As equipas estavam a aprender a defender-se. Quando se aproximou das três horas, ainda faltavam cinco golos para o desfecho da partida, estando o Boavista à frente. Todos estavam a par de que o filho da viúva tinha de sair um bocadinho antes das três.

 

O mais novo, perante o resultado do jogo e a iminência dos Bacelos perderem o embate, e para espanto de todos, decidiu manter-se na baliza. E foi defendendo, defendendo, até que o Bacelos passou para a frente. Estava 18-17.

 

Já passava meia hora das três, e tudo apontava para a vitória dos Bacelos.

 

Mas, de repente, surge a viúva à entrada do campo com uma chibata na mão.

 

Todos, de uma só vez, olham para a mulher. Param. Deixam a bola correr à sorte. De seguida dirigem o olhar para o filho que se encontra no extremo do campo. Este, perante as atenções de todos, olha para o chão e depois deixa cair a cabeça.

 

Um silêncio de medo amordaça a rapaziada. Os corpos suados esfriam de temor enquanto o sol é encoberto por nuvens traiçoeiras [3]que o vento vai empurrando. O sacrifício estava eminente. Para resistirem, mordem os lábios salgados.

 

De cabeça baixa, o guarda-redes abandona a baliza e caminha em direção à mãe. Abre-se uma clareira entre ambos. O percurso é feito de modo lento, sem hesitação e de olhos cravados no chão.

 

Chegado à presença da mãe, esta só pergunta:

- Não te disse para chegares às três?

 

Em ato contínuo, sem esperar pela resposta, vibra de forma enérgica e certeira com a chibata no rapaz. Este ainda tenta fugir, mas é intercetado com novas vergastadas. Rende-se. Deixa-se bater [4]. Impassível toma o caminho de regresso a casa.

 

Não há lágrimas, mas os lábios passaram a saber a vinagre.

 

Ela não olha para os rapazes e como um íman segue-o.

 

Ninguém fala. Só se ouve o silêncio.

 

Os dois descem a rampa calados, com os vizinhos a esconderem-se por detrás das vidraças. Dentro de casa a cena repete-se.

 

No campo da Cana, o jogo termina com a derrota de todos.

 

Daí por diante, nunca mais vão poder olhar de frente para o guarda-redes. O seu olhar ficou cravado no saibro, enquanto a sua alma ferida pela chibata vagueará naquela encosta do vale até que a memória dos rapazes, narrador incluído, se apague e a tinta desta folha seja safada pelo tempo.

*

Uma última, pequena, singela e enigmática nota: em Valongo, depois destes anos todos (1978?), ainda há quem afirme e jure a pés juntos, com os joelhos dobrados e as palmas das mãos encostadas uma à outra, que naquele dia, durante a noite, ouviu o pai dos rapazes subir e descer a rampa a soluçar.

 

Post-scriptum: No dia 26-02-2011, já depois de fixado este texto, tive conhecimento, em casa dos meus pais, que o guarda-redes tinha falecido em 2010. Perturbado, dirigi-me ao alpendre, olhei a serra de Santa Justa - minha confidente -, e depois de um suspiro, ambos pensamos: "Mas Deus leva os que ama/Só Deus tem os que mais ama.” (cfr: http://www.tugamusica.com/trovante-cifra-125-azul#).


Publicado in Histórias mal contadas


[1]Jogamos em vários sítios, mas nunca no lugar do Calvário. Talvez por ser um lugar muito sujeito a invasões de campo.

[2]Esta palavra esteve no banco de suplentes durante vários anos, até que ao parágrafo 15.º entrou em campo, leia-se folha. O jogo, entenda-se escrita, ficou mais genuíno, mais puro, sem misturas. Não confundir com "estrema”, sempre titular nos jogos de direito de demarcação (cfr: artigo 1353.º do Código Civil).

[3]Sempre que leio a expressão "nuvens traiçoeiras” sou tentado a ler "nuvens passageiras”, o que me remete para a canção da telenovela "O Casarão” (1976) com o título "Nuvem Passageira” (cfr: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermes_Aquino). À força de cantar e ouvir o refrão, parece que a palavra "nuvem” passou a estar associada a "passageira”.

[4]Tal como Ele, o mais novo deve obediência aos pais (cfr: n.º 2, do artigo 1878.º do Código Civil, ab initio).

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