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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

02.Abr.11

A cidade circular

Dizem que foi fundada pelos Romanos e depois mantida, ampliada, refundada e expandida pelos Suevos, Muçulmanos, e, finalmente, pelos portugueses. Pudera! é uma das cidade mais antigas de Portugal.

 

Fica entre dois vales: o do rio Este e o do rio Cávado. Tem muitas igrejas e uma Sé. E ruas, muitas ruas e mais ruas que dão a todos os lados e a lado nenhum.

 

Quem chega e quer entrar na cidade, não sabe por onde. Hesita, contorna rotundas, atrás de rotundas e depois arrisca. O centro está algures e em parte nenhuma. Segue-se uma rua, depois outra e outra. A dada altura, andasse em círculo. É isso! É uma cidade circular.

 

Quer-se encontrar a baixa e ela move-se. Anda entre o Campo da Vinha, a rua do Castelo, a Praça da República (Arcada) e a Avenida da Liberdade. Ninguém a agarra.

 

E depois está toda furada. Com túneis e salões subterrâneos, onde se guardam carros e de onde saem homens e mulheres que se elevam à superfície com malas na mão ou puxadas sobre rodas.

 

Caminha-se e a seguir a uma esquina não aparece uma praça ampla ou um descampado. O espaço visível à nossa frente é curto demais para podermos espreguiçar o olhar. Não dá para nos enquadrar na paisagem. Nem com o sol, nem com a lua a ajudar. O melhor é fazer o trajeto de regresso antes que nos percamos nalguma igreja ou porta aberta.

 

E se tivermos que pleitear e subir as escadas do Palácio de Justiça vamos ficar irritados e perturbados com a escassez do chão dos degraus. Se tivermos que consultar um processo e aceder ao interior das secções ficaremos deslumbrados com a sinuosidade e o desnível dos corredores. São provas à nossa capacidade de resistência ao non sense daquela mui ilustre arquitetura.

 

A desorientação barroca contagiou toda a cidade. Andam todos de cabeça perdida. Os residentes andam com a cabeça à roda, os forasteiros põem as mãos na cabeça.

 

Chegados a este ponto (não retorno?) faço minhas, com a devida vénia, as palavras de Hipidroxérnus: “não se poderá jamais ordenar a vida de uma comunidade se as pessoas continuarem a se mover num labirinto de vielas e becos imundos, e a residir em casarios confusos, anarquicamente edificados”.[1]

 

Cá para mim, talvez tenham de pedir ajuda a nomes famosos como Renler e Tasco, especialistas em psicanálise de cidades, novo ramo da ciência urbana, decorrente das patologias citadinas diagnosticadas ultimamente.[2]

 

Mas descansem os mais céticos. Tudo se resolverá. Não se sabe quando, exatamente, a cidade não escapará ao aluimento do seu núcleo como consequência direta e necessária do esfarelar do cimento podre dos buracos. O material tem sempre razão e não é eterno. As igrejas, monumentos, portas abertas e fechadas serão engolidas pela terra e aí nascerá um campo verde, sem vinha, onde se poderá passear e, quem sabe, pastorear algumas ovelhas sobrevivas.

 

Entretanto ainda poderemos desfrutar da sublime sensação que é deixar para trás (no caminho certo) a Roma portuguesa, saborear o alívio de não se sentir perdido e exultar com a sinalização que nos conduz a casa.

 

E depois, a espaços entre as barreiras acústicas, vislumbrar ao km 35+400 da A3 o Minho no seu esplendor: com verdura, esteios, ramadas, videiras, árvores, igrejas, casas de granito, espigueiros e a neblina esfarrapada e rasteira a acariciar os telhados vermelhos.[3]


Publicado in Histórias mal contadas 


[1] Parte do texto do conto Adrixerlinus, inserto na página 116, do livro Cidades Inventadas de Ferreira Gullar, da Ulisseia.

[2] Parte do texto retirado do conto Tuxmu inserto na página 60 do livro Cidades Inventadas de Ferreira Gullar, da Ulisseia.

[3] Este texto foi inspirado na leitura dos vários contos que compõem o livro com o título Cidades Inventadas de Ferreira Gullar, publicada pela Ulisseia (Outubro 2010). Há muito que pretendia escrever sobre a desorientação da cidade dos Arcebispos, que constitui um facto público e notório. Depois de ler aqueles contos tornou-se muito mais fácil retratar a capital do Minho. Entre a realidade e a ficção sobram desencontros devidamente justificados.

 

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