Furador
Adoro furadores, pequenos ou grandes e de qualquer cor. Não é a peça em si que eu estimo, é o que representa, é a utilidade subjacente à coisa que me encanta. Tanto assim é que nunca me afeiçoei a um furador em especial. Como dizia, para mim é sinónimo de organização, arrumação.
Quando penso numa tarefa cujo processo que a sustenta é um conjunto de folhas soltas, por sistema, antevejo de imediato dificuldades na sua abordagem, mesmo que o assunto seja de menor relevância. A minha salvação é então o furador. Custe o que custar, doa a quem doer (será que as folhas sofrem com os furos?) o processo terá: primeiro, de ficar ordenado (por regra, cronologicamente), a seguir, estudado, concluído e, finalmente, arquivado (uma ótima sensação), e ainda, se possível (haja espaço!), bem longe da vista, para não se confundir com os pendentes.
Já agora, não posso deixar de confessar o prazer que me dá tocar num processo depois das folhas terem sido meticulosamente furadas por mim. A prova real do trabalho obtém-se fazendo deslizar, em simultâneo, o polegar sobre a borda da face da primeira folha, e o indicador e o médio sobre a superfície das pontas das folhas[1]. Quando não há pontas maiores que outras, quer dizer que os furos foram executados no sítio certo (as folhas têm sempre o mesmo tamanho). A perfeição até arrepia!
Vila Nova de Gaia, 15 de dezembro de 2013.
