Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

14.Set.14

À esquerda do Peso da Régua

 

Vinha de Tabuaço pela EN 222 em direção ao Peso da Régua. Do meu lado direito corria o rio Douro. Ao chegar às pontes (A24+EN2+estrada desativada) que ligam aquela cidade e o sul do rio Douro, o meu pensamento lógico encaminhou-me para a próxima saída à direita. Digo à direita para alcançar o outro lado do rio, a cidade do Peso da Régua. Só que nada disso aconteceu. Tive de virar à minha esquerda e depois outra vez à esquerda para, finalmente, seguir em frente sobre a ponte (EN2).

 

Travou-se naquele percurso uma luta entre a lógica do meu pensamento que não aceitava a insistência na viragem à esquerda (duas vezes) e a sinalização que me guiava (a realidade dos factos) para a esquerda.

 

Por um lado, o pensamento lógico dizia-me que estava errado, que não podia ser, por outro os sinais de orientação obrigavam-me a seguir naquele sentido, o único sentido de regresso a casa.

 

No final venceram os sinais. Mas não fiquei convencido. A minha lógica não se deu por vencida.

 

Aqui relembro as aulas de filosofia sobre Emanuel Kant. É indiscutível que possuo uma categoria a priori (pensamento lógico?) que me orienta num certo sentido, ou seja, se venho do lado direito da estrada e pretendo atingir a margem do rio sita do meu lado direito então tenho que iniciar a marchar de travessia do meu lado direito (talvez por ser o caminho mais curto?).

 

Só que a realidade contradiz aquela categoria.

 

Quem está errado: a categoria à priori ou a realidade?

 

Só pode ser a realidade.

 

Em conclusão: trata-se de uma solução rodoviária incongruente, que a escassez de recursos financeiros ou a falta do engenho humano assim obrigaram a materializar naquele local para mal da harmonia da nossa lógica mental.

 

NOTAS FINAIS:

  1. Eu acredito que aquela anomalia afeta quem por lá passa, não sei em que medida, mas que desafia a lógica e, consequentemente, provoca mal estar, provoca. E as pessoas daquele lugar de tanto virarem à esquerda, quando deviam virar à direita, ficarão com comportamentos distintos dos restantes? Seguindo a teoria do Possibilismo (Geografia Regional ou Determinismo mitigado) de Vidal de La Blache, depois partilhada em Portugal por Orlando Ribeiro, eu tenho a certeza que sim, em que medida é que não posso quantificar.
  2. Inseri este post na categoria Dopamina na esperança de um dia ainda poder assistir ao desatar daquele nó, o que me transmite sempre alguma satisfação.

Peso da Régua, 11 de setembro de 2014.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.