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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

17.Jun.14

Dopamina IV

 

 

O que para mim não passava de um desafio à autoridade, acabou por se revelar um caso de saúde pública.

 

Durante meses questionava-me como era possível o proprietário de um estabelecimento de velharias ter a carrinha diariamente estacionada em frente à garagem, ocupando um espaço superior ao correspondente à entrada daquela, sem que fosse interpelado pelas autoridades (polícia municipal ou de segurança pública).

 

O meu raciocínio era o seguinte: beneficiando o dono do estabelecimento do direito à rampa e consequente proibição de terceiros de aí estacionar, aproveitava-se daquela vantagem (impossibilidade de estacionamento) para fazer uso privativo do domínio público (espaço em frente à rampa) sem pagar qualquer compensação (taxa).

 

Para mim, estar-se-ia a pagar somente a taxa devida pela implantação da rampa (disponibilidade do acesso à via pública), mas usufruindo, ininterruptamente (a carrinha estava sempre ali estacionada) do espaço público que lhe permitia aceder à garagem, que, afinal de contas, estava preenchida com velharias, não permitindo o estacionamento no seu interior daquela carrinha ou de outro veículo.

 

Como a carrinha já constituía um prolongamento do interior da garagem, uma vez que também albergava velharias, o estabelecimento comercial expandia-se até ao domínio público.

 

Isto era o que eu pensava, mas pensava mal.

 

Num domingo à noite (1 de junho?), ao passear com o rapaz no local, deparei com o espaço público situado em frente à garagem e reservado ao estacionamento, delimitado por barreiras de proteção da C. M. de V. N. de Gaia.

 

Vim a saber, por intermédio dos condóminos do prédio ao qual pertencia a garagem, que no dia seguinte os serviços camarários iriam proceder à remoção de todos os objetos que o inquilino tinha depositado durante anos no interior daquela.

 

Em conclusão: o que se via à entrada da garagem era só uma amostra, pois o interior, constituído por cerca de 690 m2, encontrava-se totalmente atulhada com velharias (móveis, candeeiros e outros objetos de utilização doméstica).

 

Além disso, e ao contrário do que supus, a rampa já havia sido removida, dado que a garagem deixara de ter a utilidade normal (estacionamento de veículos) e passara a estabelecimento comercial. Nunca reparei na rampa. Só atentava no pavimento em blocos de pedra que ligavam a garagem à guia do passeio.

 

Os condóminos tinham razão: estávamos perante uma grave ameaça à segurança de pessoas e bens, atenta as características de combustível dos objetos que recheavam a garagem.

 

Na segunda feira seguinte (2 de junho?) começou então a limpeza da garagem, que ainda decorre, por sinal, e que o rapaz nos vai relatando quando chega a casa depois das aulas. No início, segundo ele, foi um grande aparato de polícias de ambos os lados da rua, mas aparentemente desnecessário, uma vez que o inquilino da garagem se mostrou colaborante no acarretar dos objetos para os contentores que estavam dentro das ditas barreiras de proteção.

 

Do que vejo, a carrinha já desapareceu, contudo as barreias ainda se mantêm. O despejo está para durar, presumo.

 

Analisando o caso à distância, acabei por passar do âmbito jurídico da situação (taxas e utilização privativa do domínio público), para o âmbito da saúde pública e privada.

 

Agora questiono-me: não estaremos, afinal, perante um caso de acumulação compulsiva?

 

Certo certo, é que nos últimos dias, e agora mesmo durante a redação deste texto, quando represento a limpeza da garagem e do espaço em frente à mesma, a produção da dopamina aumenta transmitindo-me uma sensação de bem estar, de limpeza, para ser mais preciso.

 

Vila Nova de Gaia, 16 de junho de 2014.

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