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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

01.Fev.15

Duas flechas cravadas no Corgo

 

Entrei no Reino Maravilhoso eram 8h 10m. Sozinho, sem ninguém à minha frente. Depois de ter ultrapassado vários pesados, iniciava a viagem por um novo percurso. Hoje iria passar sobre o rio Corgo pelo novo viaduto.

 

A experiência é simplesmente fantástica. Dizem que o tabuleiro fica a 230 m do fundo do vale do rio Corgo. Ao percorrê-lo parece que vamos a voar. É só horizonte, ou melhor, sob certas perspetivas (para jusante do rio) estamos acima da linha do horizonte (estaremos no céu?).

 

Tenho de confessar, contudo, que no princípio, ao visualizar o viaduto em forma de arco pressionado entre as montanhas, senti um arrepio na espinha. Aquela descida até às duas flechas, fez-me temer pelos travões do carro. E se o veículo fosse desamparado por ali abaixo[1]?

 

Por isso, foi com respeito (em termos rodoviário diz-se: com precaução) que desci até ao km 90+000 da A4 (diferente do km 90+000 do IP4). Não sei se foi por causa do temor, só sei que me concentrei exclusivamente na plataforma e evitei ser confrontado com pensamentos negativos. Se virasse a cara para o lado iria imaginar-me a cair naquele abismo[2]. Aguentei-me firme até ao km 90+000[3]. Só na alça de mira mirei de relance (curto) para o meu lado direito (era só céu). No descanso da flecha, ufa!, abrandei a tensão sobre o volante. Na alça de mira seguinte pude então deitar as vistas sobre o céu do meu lado direito (no esquerdo estava o Marão a assistir a tudo), eram só ondas de fraga, algumas picadas. Mais um descanso e dei comigo a contemplar, agora com serenidade e algum deleite, ambos os lados do vale[4]. O encaixe apareceu-me sem dar conta.[5]

 

Regressaria pelas 18h 15m com o manto da noite, aqui e ali bordado a ponto luz, totalmente estendido sobre o mar de fragas. O azul da manhã tinha sido levado pelas águas do Corgo até ao mar. Não havia lonjura, logo não havia receio. Todo o arco era uma longa alça de mira.

 

Do último encaixe até ao IP4 (nó de ligação?), ao passar numa das curvas foi o deslumbramento absoluto: Vila Real a ponto luz bordada. Só visto!

 

 

Vila Real, 14 de novembro de 2013, revisto em 1 de fevereiro de 2015.

 



[1] Durante a audiência, em Valpaços, sempre que se falava em arnês, pensava que nem assim eu me salvaria.

[2] É bem verdade que longe da vista, longe do pensamento.

[3] Ou muito me engano ou este km irá ser notícia no futuro pelos piores motivos.

[4] É só nesta altura (e que altura!) que penso em escrever sobre as sensações até aí vividas.

[5] Este viaduto não se compara nada com o da Lezíria - Carregado/Benavente, pois neste último a queda psicológica é amortecida pelo verde dos campos de milho.

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