Sexta-feira, 24 de Junho de 2011

 

          

O Mestre, como habitual, chegou cedo ao ateliê para poder aproveitar a luz fresca do dia. O retrato ia adiantado, mas a menina já mostrava algum cansaço e enfado pelos dias e dias que passava sentada em frente ao artista. O desejo dela era desenhar e pintar e, se possível, como o seu preceptor. Por isso, ele tinha de acelerar a obra. Mas também não podia ser assim de qualquer maneira.

 

Era sua preocupação captar a serena expressão da menina. Mas como? Talvez pelo olhar profundo. Tinha também de realçar a sua fronte alta e luminosa. Quanto ao seu rosto de suave carnação e colorido haveria de o modelar na perfeição. Aplicar-se-ia no jogo de luz nos cabelos. Daria grandeza ao seu elegante porte. Esforçar-se-ia por desenhar com rigor o natural repouso das mãos no regaço. A completar, as hortênsias não poderiam faltar.[1]

 

E seria capaz de tudo isto?

 

Ainda não se tinha esquecido das lições do seu Mestre, Miguel Ângelo Lupi, entretanto falecido. Por isso, tintas na paleta.

 

Ela chegou com a mãe e, delicadamente, deu os bons dias e foi-se sentar na poltrona, não sem antes dar uma olhadela pelo quadro que tinha iniciado nos últimos dias. No corredor, quando saía, a mãe voltou a questionar o artista quanto à possibilidade de expressar com pinceladas a beleza daquele adorado rebento. Queria, por tudo deste mundo, que aquele sonho tornado realidade não ficasse deficientemente sobreposto na tela. Foram anos a fio a pensar no rosto da filha que haveria de dar ao mundo com a ajuda do rapaz da sua predilecção. Hoje um músico. Ditara-lhe, insistentemente, as linhas do porte, das mãos e, especialmente, da face. Amava-o e amava a ideia do fruto que teriam. Ele, por sua vez, não rejeitava aquela ilusão. Contudo, não era capaz de visualizar tão longe. Só desejava que tudo corresse bem e ela, ou ele, quem sabe, fosse saudável. Admirava-se e tinha orgulho da mulher que o escolhera para realizar semelhante obra.

 

José serenou a mulher. Disse-lhe que viveria para pintar fielmente Laura[2]. Tal e qual como a via. Igual à mãe, por certo!

 

De volta ao trabalho aplicou umas pinceladas rápidas. Era sempre assim. Com movimentos contidos ia sedimentando pasta sobre pasta, como quem diz, cor sobre cor. Dava relevo à imagem.[3]

 

No dia seguinte, José chegou ainda mais cedo ao ateliê. Arrumou a tralha dos discípulos e sorriu carinhosamente para o quadro de Laura. Era o retrato inacabado da mãe. Com traços inseguros e cores indefinidas, ainda assim, eram perceptíveis os lábios de silêncio e os olhos ocidentais e redondos da progenitora. Desde o primeiro dia que chegou, a rapariga só pensava em retratá-la. A ele, agora, cabia-lhe captar a realidade objectiva da aprendiza.

         

Mal ouviu o chiar da carruagem da Companhia, equilibrou o quadro no cavalete e dirigiu-se à porta. Lá vinham as duas de braço dado, a tagarelar, como se fossem duas irmãs adolescentes. Riam-se alternadamente. O dia era promissor.

 

De novo a mãe quis falar a sós com o Mestre. De porta aberta, ela de fora, ele encostado ao umbral, voltavam a abordar a obra de ambos. Ela lembrou que lera há dias, num dos jornais da capital, o elogio de Ramalho Ortigão à obra do ilustre caldense. Teria dito, o vencido da vida, que aquilo que invade, que alicia, que arrebata o seu carnal temperamento, seriam as positivas, esplêndidas e radiantes exterioridades do mundo[4]. Laura seria uma delas?

         

O pintor endireitou o corpo robusto, sadio e, de modo otimista, oscilou a cabeça para cima e para baixo, assentindo na observação da mulher. Era verdade. A sua pupila, de facto, era radiante. E o destino tinha-o escolhido para meter mãos à obra e ligar outros destinos desencontrados da vida e da arte[5].

         

A conversa ficou-se por ali.

         

Regressado ao seu espelho, guloso da vida e para não deixar parar o sangue nas veias, pôs-se a mudar as tintas em cores que falavam[6]. A rapariga desta vez, lá longe e de modo tímido, esboçava um contentamento que tinha de ser agarrado na ponta do pincel. E assim fez.

        

Semanas depois o retrato estava pronto.

         

Aquele homem de trinta e três anos, de barba ruiva, semblante alegre e olhos azuis a traduzirem bondade[7] ficou completamente fascinado com a sua obra-prima. E não se conformou que fosse só bela apenas para si, por isso desejou que todo o mundo gostasse também, que compartilhassem aquela beleza. Chamou a esposa, os alunos, a mãe e o pai da modelo, aliás seu amigo, e os comparsas do Grupo do Leão. Um a um foram entrando e experimentando aquela sensação, aquele prazer com a beleza transmitida pelo quadro. Por fim, todos impressionados e mudos, deixaram entrar Laura que se tinha alheado do retrato, tanto era o aborrecimento que lhe tinha causado aquelas sessões de modelo vivo. Os doze anos justificavam a indiferença. Mas quando viu a tela final, estacou. Caiu em si. E, imóvel, com os olhos a embaciar e os lábios entreabertos, murmurou:

 

- Eu sou muita bonita![8][9]

 

Revisto em 21 de outubro de 2012 e 27 de julho de 2013.



[1] Este parágrafo foi inspirado na pequena descrição do quadro "Retrato da Menina Laura Sauvinet" publicada in http://mjm.imc-ip.pt.

[2] A retratada não é, nem de longe, nem de perto, parecida com a Laura do conto de Cláudia Clemente, a paginas 107 a 109, in A Fábrica da Noite, da Ulisseia.

[3] A técnica do artista foi apreendida no blogue http://realismoarte.blogspot.com/.

[4] Cfr: página 5 da Revista Dedicada ao Pintor José Malhoa, edição da Gazeta das Caldas da Rainha, 1983, onde se pode ler o artigo de Almada Negreiros “Malhoa e o Grupo do Leão” e aí encontrar aquela citação.

[5] Idem, página 6.

[6] Ibidem.

[7] Caracterização de António Montês in Malhoa íntimo, página 24.

[8] Adaptação da frase proferida por Laura Sauvinet Bandeira aquando da inauguração, em 1950, da Exposição Nacional de José Malhoa, no Museu com o nome do artista, nas Caldas da Rainha. A retratada terá dito mais precisamente: “Eu era muito bonita!”. Para António Montês, fundador do museu, a oferta do quadro por Laura Sauvinet, constituiu um acto de uma generosidade invulgar. Conclui-se que também ela desejou que todo o mundo compartilhasse o prazer de apreciar aquela beleza.

[9] Esta história resulta da leitura de vários textos relativos ao pintor José Malhoa. Em especial: Malhoa íntimo de António Montês (Museu de José Malhoa, Caldas da Rainha, 1983) e Revista Dedicada ao Pintor José Malhoa, edição da Gazeta das Caldas da Rainha, 1983. Resulta, ainda, do prazer que o autor usufrui sempre que vai de férias para os lados do Oeste e visita aquele museu. As saudades das férias apertaram e por antecipação verteu em letra de forma o fascínio que tem pela obra-prima daquele pintor, mais propriamente a sua criação.

 

 



publicado por Paulo Moreira Lopes às 02:14
Quando tinha 18 anos, encontrei esta pintura e fiquei fascinado. Como posso explicar? não posso, é como um livro que te escolhe e de repente te emociona. Hoje tenho uma filha com o nome dela "Laura" e muita coisa passa na minha cabeça e como posso explicar isso? simplesmente não posso, vem da alma e talvez por isso que somos humanos.
Douglas Fernandes a 27 de Julho de 2013 às 01:47

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.
mais sobre mim
Junho 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
25

26
28
29
30


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO