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Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

Histórias mal contadas

São factos do quotidiano, aparentemente sem qualquer importância, aos quais o autor dá a relevância do absoluto, do todo. É a sua obra-prima, sem prejuízo de outro entendimento.

10.Nov.12

O bocejo de Deus

 

Que Deus me perdoe, mas tenho de tornar pública esta história, até porque não tive culpa alguma.

 

Tudo se passou como a seguir descrevo sem sofismas ou más intenções.

 

Estava a assistir à celebração eucarística. Depois da homilia e antes da oração dos fiéis foi-me dada uma folha com duas versões do credo: a dos Apóstolos e a Niceno-Constantinopolitano.

 

Todos, em uníssono, fomos convidados a rezar a versão dos Apóstolos. Começo então a orar com a assistência seguindo o texto do folheto.

 

Acontece que depois de ter lido as quatro primeiras linhas (…Nosso Senhor,), se fosse um poema seriam versos, deu-me uma vontade irreprimível[1] de bocejar. Não pude evitar. Abri a boca e respirei fundo.

 

Além de ter ficado embaraçado, reagi com muita estranheza ao bocejo. É que, em momento algum, pensei ou desejei abrir a boca para respirar fundo. Tive a nítida sensação de que fui forçado a bocejar.

 

A situação era tanto mais invulgar, quanto excecional era a minha frescura matinal. Não me sentia nem cansado, nem fatigado e a cerimónia decorria de modo alegre e vivo.

 

Portanto, só por contágio do bocejo de outra pessoa, que estivesse cansada ou fatigada ou até, quem sabe, enfastiada com a oração, eu teria bocejado naquele momento e logo naquele lugar.

 

Quem teria bocejado antes de mim?

 

Do meu lado direito, Santo António olhava-me mudo e calado. Do meu lado esquerdo, não vi ninguém com gestos comprometedores. Atrás de mim, os restantes presentes mostravam-se muito concentrados na leitura. À minha frente, a compenetração era unânime. No teto, os anjos e os santos pairavam placidamente sobre a assembleia.

 

A missa terminou, mas as minhas suspeitas de contágio não ficaram por ali. Vieram comigo até casa.

 

Tinha de tirar a limpo aquela dúvida que me embaraçava.

 

Tudo se resolveria com uma nova leitura do credo. Se bem pensei, melhor o fiz. Fechei-me sozinho no quarto e, na paz do Senhor, pus-me a rezar o credo dos Apóstolos.

 

Na mesma linha de há momentos atrás, a vontade de bocejar foi novamente irreprimível e o fenómeno repetiu-se: bocejei.

 

Olhei-me e descobri-O cheio de tédio.

 

É verdade! Deus tinha-se enfastiado com a oração e bocejara para mal dos meus pecados. Por isso, fiquei contagiado e, involuntariamente, também bocejei. Estava tudo explicado.

 

Eis como do embaraço nasceu a luz.

 

Valadares e Santa Marinha (V. N. de Gaia), 21 de outubro de 2012.

§

 

Os bocejos são oos que fogem.

 

Por Ramón Gómez de La Serna, in Greguerías uma seleção e tradução de Jorge Silva Melo, Assírio & Alvim, julho de 1998, página 45.

 



[1] Hoje, dia 18 de novembro de 2012, reli o conto Tenório de Miguel Torga, in BICHOS, 19.ª Edição, e na página 71 fui confrontado com a frase: “Nenhuma vontade conseguia açaimar o grito irreprimível que o sufocava.” É interessante que no momento da redação deste texto (Bocejo) ainda me questionei sobre a escolha daquela palavra. Perguntei-me, na altura, como me tinha ocorrido aquele termo. Parte do mistério ficou agora desvendada.

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